Augusto dos Anjos - 182 - O riso





Augusto dos Anjos - 182 - O riso


“Ri, coração, tristíssimo palhaço”.

Cruz e Sousa


O Riso -- o valtairesco clown -- quem mede-o?!

-- Ele, que ao frio alvor da Mágoa Humana,

Na Via-Láctea fria do Nirvana,

Alenta a Vida que tombou no Tédio!

Que à Dor se prende, e a todo o seu assédio,

E ergue à sombra da dor a que se irmana

Lauréis de sangue de volúpia insana,

Clarões de sonho em nimbos de epicédio!


Bendito sejas, Riso, clown da Sorte

-- Fogo sagrado nos festins da Morte

-- Eterno fogo, saturnal do Inferno!


Eu te bendigo! No mundano cúmulo

És a Ironia que tombou no túmulo

Nas sombras mortas de um desgosto eterno!


Augusto dos ANJOS (1884 - 1914) - Eu e Outras Poesias.


Augusto dos Anjos é um dos mais originais poetas brasileiros, e também um dos mais populares. Sua obra consiste, porém, em apenas um livro. Eu foi publicado ainda em vida do autor; outros poemas, publicados em periódicos ou inéditos, foram coligidos após sua morte e acrescentados ao volume organizado pelo autor, renomeado então Eu e Outras Poesias . Aclamada pelo público e pela crítica, sua obra foi repudiada por muitos em sua época, e ainda causa estranheza, pela mistura de vocabulário coloquial e científico, pelos temas exacerbadamente macabros e pessimistas, pelo exagero sistemáticos na linguagem e no tratamento dos temas. Não obstante as controvérsias que cercam sua obra, muitos de seus versos caíram no uso popular, tais como um urubu pousou em minha sorte , a mão que afaga é a mesma que apedreja e outros.




 Augusto dos Anjos - 182 - O riso

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