Castro Alves - Os Escravos - 03 - A criança




Castro Alves - Os Escravos - 03 - A criança


Que veux-tu, fleur, beau fruit, ou l'oiseau merveilleux?

Ami, dit l'enfant grec, dit l'enfant aux yeux bleus,

Je veux de Ia poudre et des balles.

VICTOR HUGO (Les Orientales)


Que tens criança? O areal da estrada

Luzente a cintilar

Parece a folha ardente de uma espada.

Tine o sol nas savanas. Morno é o vento.

À sombra do palmar

O lavrador se inclina sonolento.


É triste ver uma alvorada em sombras,

Uma ave sem cantar,

O veado estendido nas alfombras.

Mocidade, és a aurora da existência,

Quero ver-te brilhar.

Canta, criança, és a ave da inocência.


Tu choras porque um ramo de baunilha

Não pudeste colher,

Ou pela flor gentil da granadilha?

Dou-te, um ninho, uma flor, dou-te uma palma,

Para em teus lábios ver

O riso — a estrela no horizonte da alma.


Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite

Dos seus algozes vis.

E vagas tonto a tatear à noite.

Choras antes de rir... pobre criança!...

Que queres, infeliz?...

— Amigo, eu quero o ferro da vingança.


Os Escravos é uma coleção de poemas do escritor brasileiro Castro Alves com temática centrada no drama da exploração dos escravos. Em função de sua renhida luta pelo fim da escravidão no Brasil, este poeta ficou conhecido como Poeta dos Escravos. Este volume, publicado postumamente em 1883, recolhe muitos dos poemas que tornaram Castro Alves um símbolo da luta dos que não tem voz, como lembra Pablo Neruda em poema dedicado a Alves: em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse.



 Castro Alves - Os Escravos - 03 - A criança

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