Castro Alves - Os Escravos - 07 - A visão dos mortos




Castro Alves - Os Escravos - 07 - A visão dos mortos


On rapporte encore qu'un berger

ayant été introduit une fois par un

nain dans le Hyffhaese, l'empereur

(Barberousse) se leva et lui demanda

si les corbeaux volaient encore autour

de la montagne. Et, sur la réponse

afíirmative du berger, il s'écria en

soupirant: i1 faut donc que je dors

encore pendant cent ans"!

H. HEINE (Allemagne)


Nas horas tristes que em neblinas densas

A terra envolta num sudário dorme,

E o vento geme na amplidão celeste

- Cúpula imensa dum sepulcro enorme, -

Um grito passa despertando os ares,

Levanta as lousas invisível mão.


Os mortos saltam, poeirentos, lívidos.

Da lua pálida ao fatal clarão.

Do solo adusto do africano Saara

Surge um fantasma com soberbo passo,

Presos os braços, laureada a fronte,

Louco poeta, como fora o Tasso.


Do sul, do norte... do oriente irrompem

Dórias, Siqueiras e Machado então.

Vem Pedro lvo no cavalo negro

Da lua pálida ao fatal clarão.

O Tiradentes sobre o poste erguido

Lá se destaca das cerúleas telas,,


Pelos cabelos a cabeça erguendo,

Que rola sangue, que espadana estrelas.

E o grande Andrada, esse arquiteto ousado,

Que amassa um povo na robusta mão:

O vento agita do tribuno a toga

Da lua pálida ao fatal clarão.


A estátua range... estremecendo move-se

O rei de bronze na deserta praça.

O povo grita: Independência ou Morte!

Vendo soberbo o Imperador, que passa.

Duas coroas seu cavalo pisa,

Mas duas cartas ele traz na mão.


Por guarda de honra tem dous povos livres,

Da lua pálida ao fatal clarão.

Então, no meio de um silêncio lúgubre,

Solta este grito a legião da morte:

"Aonde a terra que talhamos livre,

Aonde o povo que fizemos forte?


Nossas mortalhas o presente inunda

No sangue escravo, que nodoa o chão.

Anchietas, Gracos, vós dormis na orgia,

Da lua pálida ao fatal clarão.

"Brutus renega a tribunícia toga,

O apost'lo cospe no Evangelho Santo,


E o Cristo - Povo, no Calvário erguido,

Fita o futuro com sombrio espanto.

Nos ninhos d'águias que nos restam? - Corvos,

Que vendo a pátria se estorcer no chão,

Passam, repassam, como alados crimes,

Da lua pálida ao fatal clarão.


"Oh! é preciso inda esperar cem anos...

Cem anos. . . " brada a legião da morte.

E longe, aos ecos nas quebradas trêmulas,

Sacode o grito soluçando, - o norte.


Sobre os corcéis dos nevoeiros brancos

Pelo infinito a galopar lá vão...

Erguem-se as névoas como pó do espaço

Da lua pálida ao fatal clarão.


Os Escravos é uma coleção de poemas do escritor brasileiro Castro Alves com temática centrada no drama da exploração dos escravos. Em função de sua renhida luta pelo fim da escravidão no Brasil, este poeta ficou conhecido como Poeta dos Escravos. Este volume, publicado postumamente em 1883, recolhe muitos dos poemas que tornaram Castro Alves um símbolo da luta dos que não tem voz, como lembra Pablo Neruda em poema dedicado a Alves: em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse.



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