Castro Alves - Os Escravos - 10 - Antítese




Castro Alves - Os Escravos - 10 - Antítese


O seu prêmio? — O desprezo e

uma carta de alforria quando tens

gastas as forças e não pode mais

ganhar a subsistência.

Maciel Pinheiro

Cintila a festa nas salas!

Das serpentinas de prata

Jorram luzes em cascata


Sobre sedas e rubins.

Soa a orquestra ... Como silfos

Na valsa os pares perpassam,

Sobre as flores, que se enlaçam

Dos tapetes nos coxins.

Entanto a névoa da noite

No átrio, na vasta rua,

Como um sudário flutua


Nos ombros da solidão.

E as ventanias errantes,

Pelos ermos perpassando,

Vão se ocultar soluçando

Nos antros da escuridão.

Tudo é deserto. . . somente

À praça em meio se agita

Dúbia forma que palpita,


Se estorce em rouco estertor.

— Espécie de cão sem dono

Desprezado na agonia,

Larva da noite sombria,

Mescla de trevas e horror.

É ele o escravo maldito,

O velho desamparado,

Bem como o cedro lascado,


Bem como o cedro no chão.

Tem por leito de agonias

As lájeas do pavimento,

E como único lamento

Passa rugindo o tufão.

Chorai, orvalhos da noite,

Soluçai, ventos errantes.

Astros da noite brilhantes


Sede os círios do infeliz!

Que o cadáver insepulto,

Nas praças abandonado,

É um verbo de luz, um brado

Que a liberdade prediz.


Os Escravos é uma coleção de poemas do escritor brasileiro Castro Alves com temática centrada no drama da exploração dos escravos. Em função de sua renhida luta pelo fim da escravidão no Brasil, este poeta ficou conhecido como Poeta dos Escravos. Este volume, publicado postumamente em 1883, recolhe muitos dos poemas que tornaram Castro Alves um símbolo da luta dos que não tem voz, como lembra Pablo Neruda em poema dedicado a Alves: em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse.



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