Castro Alves - Os Escravos - 12 - Bandido negro




Castro Alves - Os Escravos - 12 - Bandido negro


Corre, corre, sangue do cativo

Cai, cai, orvalho de sangue

Germina, cresce, colheita vingadora

A ti, segador a ti. Está madura.

Aguça tua fouce, aguça, aguça tua fouce.

(E. SUE - Canto dos filhos de Agar)


Trema a terra de susto aterrada...

Minha égua veloz, desgrenhada,

Negra, escura nas lapas voou.

Trema o céu ... ó ruína! ó desgraça!

Porque o negro bandido é quem passa,

Porque o negro bandido bradou:


Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.

Dorme o raio na negra tormenta...

Somos negros... o raio fermenta


Nesses peitos cobertos de horror.

Lança o grito da livre coorte,

Lança, ó vento, pampeiro de morte,

Este guante de ferro ao senhor.

Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.


Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.

Eia! ó raça que nunca te assombras!

Pra o guerreiro uma tenda de sombras

Arma a noite na vasta amplidão.

Sus! pulula dos quatro horizontes,


Sai da vasta cratera dos montes,

Donde salta o condor, o vulcão.

Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.


E o senhor que na festa descanta

Pare o braço que a taça alevanta,

Coroada de flores azuis.

E murmure, julgando-se em sonhos:

"Que demônios são estes medonhos,

Que lá passam famintos e nus?"


Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.

Somos nós, meu senhor, mas não tremas,

Nós quebramos as nossas algemas


Pra pedir-te as esposas ou mães.

Este é o filho do ancião que mataste.

Este - irmão da mulher que manchaste...

Oh! não tremas, senhor, são teus cães.

Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.


Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.

São teus cães, que têm frio e têm fome,

Que há dez séc'los a sede consome...

Quero um vasto banquete feroz...

Venha o manto que os ombros nos cubra.


Para vós fez-se a púrpura rubra,

Fez-se a manto de sangue pra nós.

Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.


Meus leões africanos, alerta!

Vela a noite... a campina é deserta.

Quando a lua esconder seu clarão

Seja o bramo da vida arrancado

No banquete da morte lançado

Junto ao corvo, seu lúgubre irmão.


Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.

Trema o vale, o rochedo escarpado,

Trema o céu de trovões carregado,


Ao passar da rajada de heróis,

Que nas éguas fatais desgrenhadas

Vão brandindo essas brancas espadas,

Que se amolam nas campas de avós.

Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz


Os Escravos é uma coleção de poemas do escritor brasileiro Castro Alves com temática centrada no drama da exploração dos escravos. Em função de sua renhida luta pelo fim da escravidão no Brasil, este poeta ficou conhecido como Poeta dos Escravos. Este volume, publicado postumamente em 1883, recolhe muitos dos poemas que tornaram Castro Alves um símbolo da luta dos que não tem voz, como lembra Pablo Neruda em poema dedicado a Alves: em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse.



 Castro Alves - Os Escravos - 12 - Bandido negro

Conteúdo correspondente: