Castro Alves - Os Escravos - 25 - O século




Castro Alves - Os Escravos - 25 - O século


Soldados, do, alto daquelas pirâmides

quarenta séculos vos contemplam!

NAPOLEÃO

O século é grande e forte.

V. HUGO


Da mortalha de seus bravos

Fez bandeira a tirania

Oh! armas talvez o povo

Deseus ossos faça um dia

J. BONIFÁCIO


O séc’lo é grande... No espaço

Há um drama de treva e luz.

Como o Cristo — a liberdade

Sangra no poste da Cruz.

Um corvo escuro, anegrado,

Obumbra o manto azulado,

Das asas d'águia dos céus...

Arquejam peitos e frontes...


Nos lábios dos horizontes

Há um riso de luz... É Deus.

Às vezes quebra o silêncio

Ronco estrídulo, feroz.

Será o rugir das matas,

Ou da plebe a imensa voz?...

Treme a terra hirta e sombria. . .

São as vascas da agonia


Da liberdade no chão?...

Ou do povo o braço ousado

Que, sob montes calcado,

Abala-os como um Titão?! ...

Ante esse escuro problema

Há muito irônico rir.

Pra nós o vento da esp'rança

Traz o pólen do porvir.


E enquanto o cepticismo

Mergulha os olhos no abismo,

Que a seus pés raivando tem,

Rasga o moço os nevoeiros,

Pra dos morros altaneiros

Ver o sol que irrompe além.

Toda noite — tem auroras,

Raios — toda a escuridão.


Moços, creiamos, não tarda

A aurora da redenção.

Gemer — é esperar um canto...

Chorar - aguardar que o pranto

Faça-se estrela nos céus.

O mundo é o nauta nas vagas...

Terá do oceano as plagas

Se existem justiça e Deus.


No entanto inda há muita noite

No mapa da criação.

Sangra o abutre — tirano

Muito cadáver — nação.

Desce a Polônia esvaída,

Cataléptica, adormida,

À tumba do Sobieski;

Inda em sonhos busca a espada ...


Os reis passam sem ver nada ...

E o Czar olha e sorri...

Roma inda tem sobre o peito

O pesadelo dos reis!

A Grécia espera chorando

Canaris... Byron talvez!

Napoleão amordaça

A boca da populaça


E olha Jersey com terror;

Como o filho de Sorrento,

Treme ao fitar um momento

O Vesúvio aterrador.

A Hungria é como um cadáver

Ao relento exposto nu;

Nem sequer a abriga a sombra

Do foragido Kossuth.


Aqui — o México ardente,

— Vasto filho independente

Da liberdade e do sol —

Jaz por terra... e lá soluça

Juarez, que se debruça

E diz-lhe: "Espera o arrebol!"

O quadro é negro. Que os fracos

Recuem cheios de horror.


A nós, herdeiros dos Gracos,

Traz a desgraça — valor!

Lutai... Há uma lei sublime

Que diz: "À sombra do crime

Há de a vingança marchar."

Não ouvis do Norte um grito,

Que bate aos pés do infinito,

Que vai Franklin despertar?


É o grito dos Cruzados

Que brada aos moços — "De pé"!

É o sol das liberdades

Que espera por Josué! ...

São bocas de mil escravos

Que transformaram-se em bravos

Ao cinzel da abolição.

E — à voz dos libertadores —


Reptis saltam condores,

A topetar n'amplidão!...

E vós, arcas do futuro,

Crisálidas do porvir,

Quando vosso braço ousado

Legislações construir,

Levantai um templo novo,

Porém não que esmague o povo,


Mas lhe seja o pedestal.

Que ao menino dê-se a escola,

Ao veterano — uma esmola...

A todos — luz e fanal!

Luz!... sim; que a criança é uma ave,

Cujo porvir tendes vós;

No sol — é uma águia arrojada,

Na sombra — um mocho feroz.


Libertai tribunas, prelos ...

São fracos, mesquinhos elos...

Não calqueis o povo-rei!

Que este mar d'almas e peitos,

Com as vagas de seus direitos,

Virá partir-vos a lei.

Quebre-se o cetro do Papa,

Faça-se dele — uma cruz!


A púrpura sirva ao povo

Pra cobrir os ombros nus,

Que aos gritos do Niagara

— Sem escravos, — Guanabara

Se eleve ao fulgor dos sóis!

Banhem-se em luz os prostíbulos,

E das lascas dos patíbulos

Erga-se a estátua aos heróis!


Basta!... Eu sei que a mocidade

É o Moisés no Sinai;

Das mãos do Eterno recebe

As tábuas da lei! — Marchai!

Quem cai na luta com glória,

Tomba nos braços da História,

No coração do Brasil!

Moços, do topo dos Andes,

Pirâmides vastas, grandes,

Vos contemplam séc'los mil!


Os Escravos é uma coleção de poemas do escritor brasileiro Castro Alves com temática centrada no drama da exploração dos escravos. Em função de sua renhida luta pelo fim da escravidão no Brasil, este poeta ficou conhecido como Poeta dos Escravos. Este volume, publicado postumamente em 1883, recolhe muitos dos poemas que tornaram Castro Alves um símbolo da luta dos que não tem voz, como lembra Pablo Neruda em poema dedicado a Alves: em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse.



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