Castro Alves - Os Escravos - 26 - O sibarita romano




Castro Alves - Os Escravos - 26 - O sibarita romano


Este olhar, estes lábios, estas rugas

exprimem uma sede impaciente e

impossível de saciar. Quer e não pode.

Sente o desejo e a impaciência.

LAVATER


Escravo, dá-me a c'roa de amaranto

Que mandou-me inda há pouco Afra impudente.

Orna-me a fronte... Enrola-me os cabelos,

Quero o mole perfume do Oriente.

Lança nas chamas dessa etrusca pira

O nardo trescalante de Medina.

Vem... desenrola aos pés do meu triclínio

As felpas de uma colcha bizantina.


Ohl tenho tédio... Embalde, ao pôr da tarde,

Pelas nereidas louras embalado,

Vogo em minha galera ao som das harpas,

Da cortesã nos seios recostado.

Debalde, em meu palácio altivo, imenso,

De mosaicos brilhantes embutido,

Nuas, volvem as filhas do Oriente

No morno banho em termas de porfido.


Só amo o circo... a dor, gritos e flores,

A pantera, o leão de hirsuta coma;

Onde o banho de sangue do universo

Rejuvenesce a púrpura de Roma.

E o povo rei — na vítima do mundo

Palpa as entranhas que inda sangue escorrem,

E ergue-se o grito extremo dos cativos:

— Ave, Cesar! saúdam-te os que morrem!


Escravo, quero um canto... Vibra a lira,

De Orfeu desperta a fibra dolorida,

Canta a volúpia das bacantes nudas,

Fere o hino de amor que inflama a vida.

Doce, como do Himeto o mel dourado,

Puro como o perfume... Escravo insano!

Teu canto é o grito rouco das Eumênides,

Sombrio como um verso de Lucano.


Quero a ode de amor que o vento canta

Do Palatino aos flóreos arvoredos.

Quero os cantos de Nero... Escravo infame,

Quebras as cordas nos convulsos dedos!

Deixa esta lira! como o tempo é longo!

Insano! insano! que tormento sinto!

Traze o louro falerno transparente

Na mais custosa taça de Corinto.


Pesa-me a vida!... está deserto o Forum!

E o tédio!... o tédio!... que infernal idéia!

Dá-me a taça, e do ergástulo das servas

Tua irmã trar-me-ás, — a grega Haidéia!

Quero em seu seio... Escravo desgraçado,

A este nome tremeu-te o braço exangue?

Vê... Manchaste-me a toga com o falerno,

Irás manchar o Coliseu com o sangue!...


Os Escravos é uma coleção de poemas do escritor brasileiro Castro Alves com temática centrada no drama da exploração dos escravos. Em função de sua renhida luta pelo fim da escravidão no Brasil, este poeta ficou conhecido como Poeta dos Escravos. Este volume, publicado postumamente em 1883, recolhe muitos dos poemas que tornaram Castro Alves um símbolo da luta dos que não tem voz, como lembra Pablo Neruda em poema dedicado a Alves: em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse.



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