Castro Alves - Os Escravos - 29 - Prometeu




Castro Alves - Os Escravos - 29 - Prometeu


Ó mon auguste mère, et vous enveloppe de la commune lumière, divin éther,

voyez quels injustes tourments on me fait souffrir.

Qui compatit à cette grande souffrance, qui s'approche du rocher désert où se

tord Prométhée? Quelques pauvres filles, pieds nus.

ÉSQUILO


Inda arrogante e forte, o olhar no sol cravado,

Sublime no sofrer, vencido — não domado,

Na última agonia arqueja Prometeu.

O Cáucaso é seu cepo; é seu sudário o céu,

Como um braço de algoz, que em sangueira se nutre,

Revolve-lhe as entranhas o pescoço do abutre.

Pra as iras lhe sustar... corta o raio a amplidão

E em correntes de luz prende, amarra o Titão.

Agonia sublime! ... E ninguém nesta hora

Consola aquela dor, naquela angústia chora.


Ai! por cúm'lo de horror!... O Oriente golfa a luz,

No Olímpo brinca o amor por entre os seios nus.

De tirso em punho o bando das lúbricas bacantes,

Correm montanha e val em danças delirantes.

E ao gigante caído... a terra e o céu (rivais!...)

Prantos lascivos dão... suor de bacanais.

Mas não! Quando arquejante em hórrido granito

Se estorce Prometeu, gigantesco precito,


Vós, Nereidas gentis, meigas filhas do mar!

O oceano lhe trazeis... pra em prantos derramar...

Povo! povo infeliz! Povo, mártir eterno,

Tu és do cativeiro o Prometeu moderno...

Enlaça-te no poste a cadeia das Leis,

O pescoço do abutre é o cetro dos maus reis.

Para tais dimensões, pra músculos tão grandes,

Era pequeno o Cáucaso... amarram-te nos Andes.

E enquanto, tu, Titão, sangrento arcas aí,

O século da luz olha... caminha... ri...

Mas não! mártir divino, Encélado tombado!

Junto ao Calvário teu, por todos desprezado,

A musa do poeta irá — filha do mar —

O oceano de sua alma ... em cantos derramar ...


Os Escravos é uma coleção de poemas do escritor brasileiro Castro Alves com temática centrada no drama da exploração dos escravos. Em função de sua renhida luta pelo fim da escravidão no Brasil, este poeta ficou conhecido como Poeta dos Escravos. Este volume, publicado postumamente em 1883, recolhe muitos dos poemas que tornaram Castro Alves um símbolo da luta dos que não tem voz, como lembra Pablo Neruda em poema dedicado a Alves: em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse.



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