Castro Alves - Os Escravos - 33 - Tragédia no lar




Castro Alves - Os Escravos - 33 - Tragédia no lar


Na Senzala, úmida, estreita,

Brilha a chama da candeia,

No sapé se esgueira o vento.

E a luz da fogueira ateia.

Junto ao fogo, uma africana,

Sentada, o filho embalando,

Vai lentamente cantando

Uma tirana indolente,


Repassada de aflição.

E o menino ri contente...

Mas treme e grita gelado,

Se nas palhas do telhado

Ruge o vento do sertão.

Se o canto pára um momento,

Chora a criança imprudente ...

Mas continua a cantiga ...


E ri sem ver o tormento

Daquele amargo cantar.

Ai! triste, que enxugas rindo

Os prantos que vão caindo

Do fundo, materno olhar,

E nas mãozinhas brilhantes

Agitas como diamantes

Os prantos do seu pensar ...


E voz como um soluço lacerante

Continua a cantar:

"Eu sou como a garça triste

"Que mora à beira do rio,

"As orvalhadas da noite

"Me fazem tremer de frio.

"Me fazem tremer de frio

"Como os juncos da lagoa;


"Feliz da araponga errante

"Que é livre, que livre voa.

"Que é livre, que livre voa

"Para as bandas do seu ninho,

"E nas braúnas à tarde

"Canta longe do caminho.

"Canta longe do caminho.

"Por onde o vaqueiro trilha,


"Se quer descansar as asas

"Tem a palmeira, a baunilha.

"Tem a palmeira, a baunilha,

"Tem o brejo, a lavadeira,

"Tem as campinas, as flores,

"Tem a relva, a trepadeira,

"Tem a relva, a trepadeira,

"Todas têm os seus amores,


"Eu não tenho mãe nem filhos,

"Nem irmão, nem lar, nem flores".

A cantiga cessou. . . Vinha da estrada

A trote largo, linda cavalhada

De estranho viajor,

Na porta da fazenda eles paravam,

Das mulas boleadas apeavam

E batiam na porta do senhor.


Figuras pelo sol tisnadas, lúbricas,

Sorrisos sensuais, sinistro olhar,

Os bigodes retorcidos,

O cigarro a fumegar,

O rebenque prateado

Do pulso dependurado,

Largas chilenas luzidas,

Que vão tinindo no chão,


E as garruchas embebidas

No bordado cinturão.

A porta da fazenda foi aberta;

Entraram no salão.

Por que tremes mulher? A noite é calma,

Um bulício remoto agita a palma

Do vasto coqueiral.

Tem pérolas o rio, a noite lumes,


A mata sombras, o sertão perfumes,

Murmúrio o bananal.

Por que tremes, mulher? Que estranho crime,

Que remorso cruel assim te oprime

E te curva a cerviz?

O que nas dobras do vestido ocultas?

É um roubo talvez que aí sepultas?

É seu filho ... Infeliz! ...


Ser mãe é um crime, ter um filho - roubo!

Amá-lo uma loucura! Alma de lodo,

Para ti - não há luz.

Tens a noite no corpo, a noite na alma,

Pedra que a humanidade pisa calma,

— Cristo que verga à cruz!

Na hipérbole do ousado cataclisma

Um dia Deus morreu... fuzila um prisma


Do Calvário ao Tabor!

Viu-se então de Palmira os pétreos ossos,

De Babel o cadáver de destroços

Mais lívidos de horror.

Era o relampejar da liberdade

Nas nuvens do chorar da humanidade,

Ou sarça do Sinai,

— Relâmpagos que ferem de desmaios...

Revoluções, vós deles sois os raios,

Escravos, esperai! ...


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Leitor, se não tens desprezo

De vir descer às senzalas,

Trocar tapetes e salas

Por um alcouce cruel,

Que o teu vestido bordado

Vem comigo, mas ... cuidado ...

Não fique no chão manchado,

No chão do imundo bordel.


Não venhas tu que achas triste

Às vezes a própria festa.

Tu, grande, que nunca ouviste

Senão gemidos da orquestra

Por que despertar tu'alma,

Em sedas adormecida,

Esta excrescência da vida

Que ocultas com tanto esmero?


E o coração - tredo lodo,

Fezes d'ânfora doirada

Negra serpe, que enraivada,

Morde a cauda, morde o dorso

E sangra às vezes piedade,

E sangra às vezes remorso?...

Não venham esses que negam

A esmola ao leproso, ao pobre.

A luva branca do nobre

Oh! senhores, não mancheis...


Os pés lá pisam em lama,

Porém as frontes são puras

Mas vós nas faces impuras

Tendes lodo, e pus nos pés.

Porém vós, que no lixo do oceano

A pérola de luz ides buscar,

Mergulhadores deste pego insano

Da sociedade, deste tredo mar.

Vinde ver como rasgam-se as entranhas

De uma raça de novos Prometeus,


Ai! vamos ver guilhotinadas almas

Da senzala nos vivos mausoléus.

— Escrava, dá-me teu filho!

Senhores, ide-lo ver:

É forte, de uma raça bem provada,

Havemos tudo fazer.

Assim dizia o fazendeiro, rindo,

E agitava o chicote...

A mãe que ouvia

Imóvel, pasma, doida, sem razão!


À Virgem Santa pedia

Com prantos por oração;

E os olhos no ar erguia

Que a voz não podia, não.

— Dá-me teu filho! repetiu fremente

o senhor, de sobr'olho carregado.

— Impossível!...

— Que dizes, miserável?!

— Perdão, senhor! perdão! meu filho dorme...

Inda há pouco o embalei, pobre inocente,


Que nem sequer pressente

Que ides...

— Sim, que o vou vender!

— Vender?!. . . Vender meu filho?!

Senhor, por piedade, não

Vós sois bom antes do peito

Me arranqueis o coração!

Por piedade, matai-me! Oh! É impossível

Que me roubem da vida o único bem!

Apenas sabe rir é tão pequeno!


Inda não sabe me chamar? Também

Senhor, vós tendes filhos... quem não tem?

Se alguém quisesse os vender

Havíeis muito chorar

Havíeis muito gemer,

Diríeis a rir — Perdão?!

Deixai meu filho... arrancai-me

Antes a alma e o coração!

— Cala-te miserável! Meus senhores,

O escravo podeis ver ...


E a mãe em pranto aos pés dos mercadores

Atirou-se a gemer.

— Senhores! basta a desgraça

De não ter pátria nem lar, -

De ter honra e ser vendida

De ter alma e nunca amar!

Deixai à noite que chora

Que espere ao menos a aurora,

Ao ramo seco uma flor;

Deixai o pássaro ao ninho,


Deixai à mãe o filhinho,

Deixai à desgraça o amor.

Meu filho é-me a sombra amiga

Neste deserto cruel!...

Flor de inocência e candura.

Favo de amor e de mel!

Seu riso é minha alvorada,

Sua lágrima doirada

Minha estrela, minha luz!

É da vida o único brilho


Meu filho! é mais... é meu filho

Deixai-mo em nome da Cruz!...

Porém nada comove homens de pedra,

Sepulcros onde é morto o coração.

A criança do berço ei-los arrancam

Que os bracinhos estende e chora em vão!

Mudou-se a cena. Já vistes

Bramir na mata o jaguar,

E no furor desmedido

Saltar, raivando atrevido.


O ramo, o tronco estalar,

Morder os cães que o morderam...

De vítima feita algoz,

Em sangue e horror envolvido

Terrível, bravo, feroz?

Assim a escrava da criança ao grito

Destemida saltou,

E a turba dos senhores aterrada

Ante ela recuou.

— Nem mais um passo, cobardes!


Nem mais um passo! ladrões!

Se os outros roubam as bolsas,

Vós roubais os corações! ...

Entram três negros possantes,

Brilham punhais traiçoeiros...

Rolam por terra os primeiros

Da morte nas contorções.

Um momento depois a cavalgada

Levava a trote largo pela estrada

A criança a chorar.

Na fazenda o azorrague então se ouvia

E aos golpes - uma doida respondia

Com frio gargalhar! ...


Os Escravos é uma coleção de poemas do escritor brasileiro Castro Alves com temática centrada no drama da exploração dos escravos. Em função de sua renhida luta pelo fim da escravidão no Brasil, este poeta ficou conhecido como Poeta dos Escravos. Este volume, publicado postumamente em 1883, recolhe muitos dos poemas que tornaram Castro Alves um símbolo da luta dos que não tem voz, como lembra Pablo Neruda em poema dedicado a Alves: em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse.



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