Não se renega o berço



Fotógrafos imigrantes trabalharam duro para educar filhos “doutores”, que hoje têm vergonha de dizer que o pai é fotógrafo.



Há mais de 25 anos, quando ingressei em uma empresa do ramo fotográfico, a grande maioria de nossos clientes eram constituídos de fotógrafos imigrantes, de diversas nacionalidades, que aportaram num eldorado chamado Brasil em busca de trabalho e de ganhar dinheiro. O destino da grande maioria deles era a lavoura. Passado um tempo, um grupo desses imigrantes trocou o cabo da enxada pelo manejo de uma câmara fotográfica se aventurando na carreira de fotógrafo profissional, que na época significava também misturar químicos, revelar e copiar fotos. Se comparada com a vida dura do campo, as tarefas eram bastantes leves, além de dar mais prestígio.

O retratista – Ser fotógrafo na década de 1930 a 1940 tanto era uma façanha quanto um privilégio. Raro e disputado, o profissional era visto como doutor em fotografia. Tirar fotos de família era uma ocasião importante e uma data marcada com muita antecedência, pois o “senhor retratista” só passava naquelas bandas apenas uma vez por ano. Ou, então, a família ia ao estúdio, todos muito bem-arrumados, vestidos com a sua melhor roupa. Não duvido de que alguns leitores ainda tenham em casa fotos assim, em preto e branco, ou em tom sépia, guardadas em álbuns de madeira, folhas cartonadas e cantoneiras.

Não existiam lojas de fotos, mesmo porque não existiam câmeras populares e, portanto, os fotógrafos amadores eram pessoas muito diferenciadas e incomuns.

Pai fotógrafo, filho médico – Um traço marcante desses imigrantes fotógrafos é terem uma determinação quase paranoica de trabalhar muito, sacrificar-se ao máximo e ganhar dinheiro para educar os filhos com a intenção que fossem “doutores”.

Diziam: “Nós não temos estudo e o pessoal nos faz de bobo. Por isso queremos que nossos filhos sejam respeitados e para isso precisam estudar”. E graças a essa filosofia dos pais, muitos descendentes são hoje profissionais preparados e competentes no campo da Medicina, Administração, Engenharia, Direito, formados nas melhores universidades. Com isso, ganhou o Brasil, mas perdeu a fotografia, pois os filhos desses imigrantes não seguiram a profissão dos pais. Inclusive, vários deles preferem esquecer que foram educados com a renda do modesto fotógrafo, profissão que consideram de nível inferior e sem prestígio.

Sucessão nos negócios – de quase um século, os tempos hoje são outros. Felizmente, existem também aqueles descendentes que resolveram assumir os negócios da família. Negócios iniciados pelos avós estão hoje nas mãos de netos que são gerenciados por jovens e modernos empresários, com conhecimentos de administração e marketing, sintonizados nas tendências mundiais das técnicas e tecnologias mundiais. Igualmente, os produtos fotográficos também estão se modernizando. A tradicional fotografia “molhada” (tecnologia química) está mudando para fotografia “seca” (tecnologia digital). Por isso, os homens que tocam os negócios do ramo, hoje, precisam rapidamente reciclar seus conhecimentos aderindo à era da informática, impressora a laser, câmeras digitais, internet e outras novidades.

Longa jornada – Desde os tempos da primeira geração de fotógrafos imigrantes até os dias de hoje, houve uma longa jornada. Quem imaginaria, tempos atrás, que hoje os profissionais da imprensa enviariam suas fotos para a redação, via satélite, do outro lado do mundo? O profissional da fotografia na virada deste milênio, seja de moda, de publicidade e, por que não, de eventos sociais, vai precisar, além do domínio específico de sua área de trabalho, ter uma base de conhecimentos gerais e o domínio de um segundo idioma que lhe permita acesso às literaturas estrangeiras. Adquirir conhecimentos crescentes deixou de ser luxo para ser exigência do mercado. Em tempo algum a humanidade teve tanto acesso à informação e esteve tão integrada com o que se passa no mundo. Ficou difícil vender “gato por lebre” e não há mais espaço para os despreparados. Hoje, até as crianças exigem produtos de marca internacional ou grife conhecida. É sinal dos tempos.



Profissão do fotógrafo


Profissão do fotógrafo

Captação de imagens, cenas inusitadas, momentos inesquecíveis, sucesso certo na profissão do fotógrafo.



 Profissão do fotógrafo

Fotografia, uma profissão histórica.



 Profissão do fotógrafo

O fotógrafo retrata a história e os momentos mais importantes da vida tanto social como política.





Caso especial de concordância:


  • concordância do verbo com expressões como parte de, a maioria de, uma porção de, metade de, um grupo de.

Observe as frases abaixo.


I. [...] a grande maioria de nossos clientes eram constituídos de fotógrafos imigrantes.

II. A maior parte dos imigrantes veio para trabalhar na lavoura.

III. Um grupo desses imigrantes trocou o cabo da enxada pelo manejo da câmera fotográfica.


Nesses casos, o verbo pode ficar no singular ou no plural, dependendo do que se queira destacar.





Glossário


Sépia: neste caso, fotografia ou gravura de coloração que vai de um cinzento acastanhado a um marrom oliváceo escuro.






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