Cortadores de cana



O trabalhador dos canaviais é um guerreiro. O machete, o facão: a espada do guerreiro. Ele vive num meio hostil: a folha de cana é afiada, o guerreiro luta contra as folhas, o guerreiro se lanha, se suja na cana quente, queimada pouco antes do corte.

No Brasil, o guerreiro é levado para os canaviais, seu campo de batalha e de sonho, em caminhões que saem da periferia das cidades do interior na primeira luz da aurora, e vai trabalhar em terras que muitas vezes tinham sido dele ou de guerreiros iguais a ele. De proprietários tornaram-se proletários do campo: a expansão do uso do álcool como combustível levou grandes empresas a comprar pequenas propriedades dedicadas, em geral, à produção de alimentos. Depois, o processo inflacionário brasileiro se encarregou de corroer o que aqueles homens haviam conseguido pela venda de suas terras. E agora estão todos ali de novo, em seus antigos campos de batalha, na carroceria de um caminhão, numa guerra de nunca acabar e que eles nunca vencerão. O dono do caminhão que busca os trabalhadores recebe o dinheiro, paga os guerreiros. De certa forma, o guerreiro brasileiro dos canaviais é escravo do dono do caminhão. São os boias-frias: levam a comida na marmita, comem de maneira parca, sem calor nenhum. Mastigam a frieza com gosto de derrota.



Trabalho árduo dos cortadores de cana


Trabalho árduo dos cortadores de cana

O dia a dia e o trabalho árduo dos cortadores de cana atuais pouco difere dos canaviais na época colonial.





Gramática


Glossário


Lanha (lanhar): cortar(-se); ferir(-se).

Proletário: cidadão pobre que só tem para viver a remuneração insuficiente da sua força de trabalho.






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