... e mais Poesia!




A rosa de Hiroshima


Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas, oh! não se esqueçam

Da rosa, da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A antirrosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada.


MORAES, Vinicius de. Antologia poética. 11. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.


A bomba de Hiroshima é um registro de horrores e lições para a humanidade.

A bomba de Hiroshima é um registro de horrores e lições para a humanidade.





Glossário


Telepáticas: relativo à pessoa que, sem fazer uso da vista, vê, conhece o que se passa longe.

Cálido: quente; ardente; fogoso.

Radioativa: que possui radioatividade.

Cirrose: doença crônica do fígado.






Ismália


Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar...

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.


No sonho em que se perdeu,

Banhou-se toda em luar...

Queria subir ao céu,

Queria descer ao mar.


E, no desvario seu,

Na torre pôs-se a cantar...

Estava perto do céu,

Estava longe do mar...


E como um anjo pendeu

As asas para voar...

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar...


As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par...

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar...


GUIMARAENS, Alphonsus de. Ismália. In: MORICONI, Italo (org.) Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 45.



Ilustração que representa os delírios de Ismália, personagem de Alphonsus de Guimaraens.

Ilustração que representa os delírios de Ismália, personagem de Alphonsus de Guimaraens.





Glossário


Ruflaram: agitaram, produziram rumor, como ave que esvoaça, tremularam.





Vento, ventania




Vento, ventania



Vento, ventania,

me leve para as bordas do céu

pois vou puxar as barbas de Deus.


Vento, ventania,

me leve pra onde nasce a chuva,

pra lá de onde o vento faz a curva.


Me deixe cavalgar nos seus desatinos,

nas revoadas, redemoinhos,

vento, ventania,

me leve sem destino.


Quero juntar-me a você

e carregar os balões pro mar,

quero enrolar as pipas nos fios,

mandar meus beijos pelo ar.


Vento, ventania,

me leve pra qualquer lugar,

me leve para qualquer canto do mundo:

Ásia, Europa, América...


Vento, ventania,

me leve para as bordas do céu,

pois vou puxar as barbas de Deus.


Vento, ventania,

me leve para os quatro cantos do mundo,

me leve pra qualquer lugar.


Me deixe cavalgar nos seus desatinos,

nas revoadas, redemoinhos,

vento, ventania,

me leve sem destino.


Quero mover as pás dos moinhos

e abrandar o calor do sol,

quero emaranhar o cabelo da menina,

mandar meus beijos pelo ar.


Vento, ventania,

me leve pra qualquer lugar,

me leve para qualquer canto do mundo:

Ásia, Europa, América...


Me deixe cavalgar nos seus desatinos,

nas revoadas, redemoinhos,

vento, ventania,

me leve sem destino.


Quero juntar-me a você

e carregar os balões pro mar,

quero enrolar as pipas nos fios,

mandar meus beijos pelo ar.


Vento, ventania,

agora que estou solto na vida,

me leve pra qualquer lugar,

me leve, mas não me faça voltar!



BENI, Carlos et al. Vento, ventania. Intérprete: Biquini Cavadão.

In: BIQUINI CAVADÃO. Descivilização. Rio de Janeiro: Polygram, 1991. 1 CD. Faixa 1.



Cenário praiano típico do litoral nordestino. Galhos e folhas se deixam levar pelo vento.


 Cenário praiano típico do litoral nordestino. Galhos e folhas se deixam levar pelo vento.

Cenário praiano típico do litoral nordestino. Galhos e folhas se deixam levar pelo vento.





Glossário


Desatinos: ausência de bom senso, loucura.







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