Seu Lunga em Mossoró



Este texto foi escrito por José Augusto de Araújo da Silva, um poeta nordestino que reside em Mossoró (RN), onde é professor e estuda Direito. Seu gosto pela literatura de cordel vem da infância, época em que sua avó-mãe comprava cordéis na feira para serem lidos à noite para um grupo de pessoas em sua casa.


Capa do livro Seu Lunga em Mossoró.


 Capa do livro Seu Lunga em Mossoró.

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Seu Lunga em Mossoró

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Seu Lunga é um senhorio

Que nasceu em Juazeiro,

E o povo todo bem sabe

O quanto tem de brejeiro

Pelas artes que apronta,

Por não fazer nó sem ponta

Nem dar valor a dinheiro.


Ao invés de nove meses

De sete meses nasceu

Numa pequena choupana

Num dia que o chão tremeu,

O São Francisco secou,

Um prefeito se salvou

E seu pai de medo correu.


Cresceu sem papa na língua,

Sem medo de assombração:

Caipora, carranca e alma

Tudo isso era invenção.

Lobisomem, para-figo,


Saci seu melhor amigo,

Pra ele era diversão.

Como todo sertanejo

Seu Lunga tem muita fé;

Vontade de visitar

Santa Luzia que é

Sua santa de pedido,

Esteja bom ou ferido

No olho ou no peito do pé.


Lunga um dia acordou cedo

E disse: – Socorro eu vou

Viajar pra Mossoró

Porque o momento chegou;

Eu vou ver Santa Luzia

E do povo a valentia

Que Lampião expulsou.

Mas sua mulher disse:

– Homem vai te aquietar!

A promessa que tu fez

Não precisa mais pagar;


Já faz mais de trinta anos

Que você faz esses planos

De para lá viajar

Você pode se quiser

Pagar essa tal promessa

A qualquer outra Santa;

Ou mandar essa remessa

Por Benedito Tinteiro

Que vai levando dinheiro

De Chiquim de Chico Bessa.


Respondeu Seu Lunga:

– Hoje mesmo partirei.

Eu nunca enganei ninguém

Imagine se eu serei

Capaz de trapacear

Santa que pode curar

“Os cegos de nossa lei”.


Porém, antes de seu Lunga

Terminar de se explicar,

Um grito estridente e fino

Gritava para avisar

Que o carro está de saída,

Já deu a última partida,

Não pode mais esperar.


Jogou a mala na mala,

Pulou em cima do carro

E no vai e vem do asfalto

Só acordou com um pigarro

Passando a mão na visão,

Faltando a respiração

Com fumaça de cigarro.


E já na rodoviária

Da cidade Mossoró

Foi abordado por três

Motoqueiros lá de Icó

Que pra lá e pra cá puxa

Seu Lunga de vista murcha

Dizendo ser seu xodó.


O mais esperto dos três

Bota seu Lunga no assento,

Sai correndo feito louco

Cortando poeira e vento,

Andando na contramão,

Pegado num caminhão

Confessando ter talento.


Soltou o Guidom da moto

E pra Seu Lunga se vira:

– Para onde o senhor vai?

Respondeu Lunga com ira:

Se não existir critério

Vou parar no cemitério

Feito Zé de Zé de Lira.


O nome de “cemitério”

Quando o motoqueiro ouviu,

Imaginou que Seu Lunga

De muito longe partiu

Pra visitar um parente

Nessa terra muito quente...

Pra o cemitério seguiu.


O motoqueiro parou

Na porta do cemitério

E perguntou: – Vai ver quem?

Mas seu Lunga muito sério

Antes de dar a resposta

Uma senhora de costa

Grita sem fazer mistério...


– Nesse instante foi curado

Meu menino que com prego

Vazou a vista há três anos.

Foi jararaca, não nego,

Quem curou essa desgraça

Fazendo essa grande graça,

Devolvendo vista a cego.


Seu Lunga disse: – Danou-se!

Isso só pode ser arte

Do demo ou d’outro mundo

Ou de Pedro Malazarte.

Eu nunca vi a visão

Ser curada pela mão

De cangaceiro sem parte.


O motorista escutando

Disse: – Vamos lá doutor

Para a estação das artes

Dançar forró no calor

Do passo de “Falamansa”,

Ver a praça da criança:

Coisa linda sim senhor.


Lunga ainda quis correr,

Mas o motoqueiro liga

Sua moto muito rápida

E por uma rua antiga

Que leva a u’a construção

Feita para Lampião

Só porque aqui fez briga.


Lunga solta um grito grosso:

– Pare, pare para eu vê...

A Praça de Lampião

Se não faço fuzuê.

O motoqueiro parou,

Ele num salão entrou

E disse: – Meu Deus pra quê?!


Pra que isso tudo meu Deus!

Um memorial pra quem

Já morreu e não merece.

Tendo gente que não tem

Uma simples moradia,

O quinhão de cada dia

Como seu único bem.


Seu Lunga andou um pouco,

Chegou ao salão de dança,

Mas quando ia entrando

Pra dançar com “Falamansa”

Num ruge, ruge entrou

Que quase ele desmaiou

Com um bofete na pança.


O motoqueiro se foi...

Nessa grande confusão,

E Seu Lunga apareceu

“Marcando passo no chão”

Na pracinha da criança

Sem dançar nenhuma dança


No meio da multidão.


Na frente da praça viu

Três meninos soluçando.

Seu Lunga se aproximou

Disse: – Por que estão chorando?

Um disse riscando o chão:

– Nós não temos um tostão,

Pois aqui só entra pagando.


Seu Lunga deu cinco contos

E perguntou onde fica

O lar Santa Luzia,

Mas eles não deram dica,

Não sabiam a direção

Do templo da oração

Só olhando a praça rica.


Dali Lunga saiu logo

A um e outro perguntando

Onde fica a catedral,

Quando ouviu alguém gritando:

– Seu Lunga, Seu Lunga aqui,

A catedral fica ali

Onde tem gente rezando.

Quando finalmente chega

Para a oferta ofertar

Seu Lunga respira fundo

E diz: – Vou agora entrar

Nesse lugar consagrado

Porque já estou atrasado

Para a promessa pagar.


Quando Lunga se benzeu,

Enfiou a mão no bolso

Para pagar a promessa,

Uma mulher e um moço

Com uma penca de meninos

Na badalada dos sinos

Diz: – Peço só pro almoço.


Seu Lunga olhou de lado

Viu aquela arrumação,

Paralisado ficou


Com tremor no coração,

Com dúvida, se ofertava...

À Santa ou logo dava

À mulher em comoção

Entre a Santa e a mulher

A mão de Lunga escolheu

Aquela pobre família

Que o dinheiro recebeu

Agradecendo e dizendo:

– Santa Luzia está vendo

Quem de nós mais mereceu.

E naquela mesma noite

Seu Lunga ficou sozinho

Imaginando e pensando:

Como o povo engole espinho

Sem moradia, sem pão,

Sem direito e sem razão

De seguir certo o caminho.


E de volta para casa

Ele torna a matutar:

Como é que em Mossoró

Sua gente vai rezar

Em cova de cangaceiro

Fazendo dele direito

E santo que faz curar.


Como é que se dá patente

A cangaceiro ladrão,

Gasta rios de dinheiro

Pra ouvir um tal de Zezão

E despreza trovador,

Tira o coro do lavrador

E não vê a judiação.


Como é que se constrói praça

Co’a dinheirama da gente

E essa mesma gente tem

De pagar trincando o dente

Pra num carrinho correr,

Num escorrega descer

E querer que eu aguente!


SILVA, José Augusto de Araújo. Seu Lunga em Mossoró. Juazeiro do Norte: Imbopla, 1998.



Personagem que representa o imaginário nordestino.


Personagem que representa o imaginário nordestino.

Personagem que representa o imaginário nordestino.





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