Machado de Assis - Crítica



Dois folhetins. Suplício de uma mulher



Texto-Fonte:

Teatro, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1938.


Publicada originalmente no Diário do Rio de Janeiro, 28/09 e 03/10/1865.


História deste drama


A propósito do Suplício de uma mulher, drama em 3 atos, que deve ser representado sábado no Ginásio, em benefício de Furtado Coelho, houve renhida discussão na imprensa francesa, sendo os escritos mais notáveis, — um prefácio de Emile de Girardin, e um folheto de Alexandre Dumas Filho.

Quase se pode dizer que o prefácio literário de Emile de Girardin fez o mesmo barulho que o prefácio político de Luiz Napoleão. Arcades ambo.

O prefácio pouco esclarece a questão de fato.

Diz Emile de Girardin que, tendo escrito um drama com o título Suplício de uma mulher, lera-o a alguns amigos no castelo de Val, e depois ao comitê do Teatro Francês. Aí foi o drama julgado perigoso, e, em conseqüência disso, consentiu o autor que outrem metesse a mão na obra.

Quem era, não no diz o redator da Presse, mas assevera, “que o colaborador, em vez de limitar-se a pequenas modificações, reformou de tal modo a peça, que chegou a apeá-la das alturas do ideal”.

Emile de Girardin conservou algumas modificações feitas pelo outro, que lhe pareceram felizes, mas tratou de manter o que constituía essencialmente a sua obra.

A peça lida e aceita a 14 de Dezembro de 1864, diz Emile de Girardin, é a minha. Mas como é, acrescenta ele, que o manuscrito, que eu não admiti, foi substituído ao manuscrito que eu tinha lido ao comitê?

Emile de Girardin não retirou então a peça — “por escrúpulo de não causar prejuízo pecuniário ao tradutor, que consagrara três semanas a traduzir a sua língua para outra, que tem a vantagem de ser concisa, mas que se parece com estilo de telegrama, quando não cai nas tiradas de melodrama”.

O redator da Presse nada mais diz acerca da questão de fato. Faz algumas apreciações literárias, compara os caracteres, julga a ação, analisa o desenlace, mas essas considerações, tanto as dele, como as de Dumas Filho, achamos melhor suprimi-las, deixando ao público fluminense o trabalho de julgar por si mesmo o drama que deve ser representado sábado.

Vamos agora à contestação de Alexandre Dumas Filho.

Diz ele:

Agora que todos já têm falado a respeito dos mistérios do Suplício de uma mulher, inclusive o Sr. de Girardin, no prefácio que ele julgou dever e poder ligar ao volume do drama, peço licença para dizer também algumas palavras; somente, previno o leitor de que as minhas palavras serão a absoluta verdade. Para dar esclarecimentos que se tornam necessários, procurarei empregar a linguagem concisa e rápida, tão admirada na última peça do Teatro Francês, e que revelou a alguns, apesar do anônimo, o redator principal da Presse.

«No mês de Novembro do ano passado, recebi do Sr. de Girardin uma carta que conservo, porque os autógrafos do Sr. de Girardin são daqueles que se devem guardar. Eis o conteúdo da carta:

“Meu caro amigo, hei de ler quarta-feira, en petit comité, e depois de jantar, o Suplício de uma mulher, título que talvez tenha de ser mudado em Suplício dos convivas. Será tão audaz, isto é, tão meu amigo, para vir jantar e dizer-me a sua impressão? Se achar que a mulher deve ser enterrada na pasta, há de sê-lo, e na mesma noite. Seu de todo o coração — Emile de Girardin”.

O Sr. de Girardin viu-me nascer, como ele próprio diz no seu prefácio, e perdemo-nos de ,vista há vinte anos. Eu era dos seus amigos. Tinha orgulho em que um homem do seu merecimento quisesse tomar-me por juiz de uma obra sua, qualquer que ela fosse.

Fui ao convite, construindo, em caminho, uma peça imaginaria com o título — Suplício de uma mulher, — que me parecia fazer pendant com a linda comédia de Madame Emile de Girardin — Culpa do marido.

«Os convivas-auditores eram os Srs. de la Guéronière, Nestor Roqueplan, Camile Doucet, Henri Didier (deputado), Dr. Cabarrus, Mesmer (vice-cônsul da Rússia), cavalheiro Nigra, Boitelle, que, tendo já ouvido a peça uma vez, saiu logo depois do jantar; a Sra. condessa Keller, a Sra. Mesmer, e a Sra. de Girardin.

Era o público em miniatura, formado de todos os elementos diversos que compõem o público dos teatros: pessoas da sociedade, críticos, homens de letras; havia meio de obter um juízo, e em todo o caso uma impressão. O Sr. Girardin leu o primeiro ato.

Não se disse palavra.

A idéia era das mais perigosas, para me servir da frase de um dos seus amigos, e a maneira por que ele a apresentava, tornava-a mais perigosa ainda. O ato estava mal feito, começando por onde devia acabar, e acabando mal. Entretanto, havia uma base para o drama, tomada no interior da vida conjugal. Era audacioso, verdadeiro, e inadmissível.

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O Sr. de Girardin leu o segundo ato.

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«Depois desta cena (a cena da carta), o dó de peito da idéia, o centro da peça, o Sr. de Girardin interrompeu-se e disse-me:

— Então?

— Estou à espera, respondi eu.

Com efeito, era aí que eu queria vê-lo, nas conseqüências e deduções lógicas desta situação nova, que eu proclamo, com toda a sinceridade, uma das mais dramáticas e das mais interessantes que há em teatro.

Mas uma situação não é uma idéia. Uma idéia tem começo, meio e fim, exposição, desenvolvimento e conclusão. Toda a gente pode achar uma situação dramática, mas é preciso prepará-la, fazê-la aceitar, torná-la possível, dar-lhe sobretudo um desenlace. Um rapaz pede uma moça em casamento. Dão-lha. Casam-se. No momento de retirar-se, dizem-lhe que ela é sua irmã. Aí está uma situação, e das mais interessantes. Mas saiam dela, arranjem um desfecho. Aquele que fizer uma boa peça com este ponto de partida será o verdadeiro autor da peça, e eu nada reclamarei.

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O Sr. de Girardin leu o terceiro ato, não aquelle que cita no seu prefácio, mas o que vai no fim desta minha resposta. Verão o que era ele. Não censuro o Sr. de Girardin. Não é seu ofício escrever comédias. Já é muito ter criado uma situação dramática no meio do seu trabalho de teorias econômicas, políticas e governamentais.

A leitura durou duas horas e meia, pouco mais ou menos. Acabada ela, o autor recolheu as opiniões. Eu deixei falar os outros, e não disse palavra. Esperava que entre todos aqueles juízes algum houvesse assaz corajoso, ou antes, assaz franco, que resumisse a impressão geral e fizesse compreender a um homem do seu valor — que o talento, o próprio gênio, não é universal. Foi o que aconteceu, falou-se franco e a peça foi declarada perigosa, irrepresentável, impossível, epítetos estes que saíram da boca de todos, misturadas com aquele açúcar fino que a gente bem educada traz sempre nas algibeiras.

Então o Sr. de Giradin interpelou-me diretamente, e disse-me: Conto com o senhor para acharmos um desfecho.

Era opinião geral que a peça não tinha conclusão.

— Meu caro amigo, respondi, se eu achasse um desfecho para a situação não lha daria, como o senhor não me daria, a solução da questão romana, se a achasse.

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Procure o senhor, que eu procurarei também. há na sua peça uma cena que se não deve perder...

No dia seguinte começava eu a entrever a peça. Fui cedinho à casa do Sr. Girardin, e disse-lhe pouco mais ou menos isto:

— há decididamente alguma coisa no Suplício de uma mulher: o assunto é audacioso mas é humano, tem probabilidades de sucesso. O público adora a verdade, mas é preciso sabê-la dizer.

— Então pode-se fazer um drama?

— Pode-se.

— Encarrega-se disso?

— Decerto, sem saber ainda até onde irei.

— Pois tente. Vou mandar-lhe o manuscrito; ponha à margem as suas observações.

No dia seguinte recebi a peça, cujo desfecho já o Sr. de Girardin modificara segundo o meu primeiro conselho.

Tentei fazer alguns cortes a lápis, e acrescentar varias notas. Inútil. A obra era demasiado confusa, compacta, densa. Como em Herculano, era impossível achar a cidade debaixo da lava. Melhor era construir outra ao pé daquela.

No dia seguinte, levei e li ao Sr. de Girardin o começo do primeiro ato, tal como foi representado, até à cena entre Alvarez e Matilde exclusivamente. A sra. de Girardin assistira à leitura.

Aquele trabalho era apenas um conselho dado a um amigo, por cuja obra me interessava: era a indicação do tom geral, não era ainda colaboração. Parei diante da última página. O Sr. de Girardin, que achava então um bom começo, pediu-me que continuasse o trabalho, oferecendo-me metade dos direitos da obra. Objetei-lhe que, — em conseqüência dos meus contratos com o Ginásio, eu só podia pôr meu nome se a peça fosse representada neste teatro, — e que, — não tendo colaborado nunca, só o faria no caso de ter carta branca para a execução da obra. O Sr. de Girardin respondeu-me que, estando a peça prometida ao Teatro Francês, só apareceria o nome dele, e quanto ao trabalho dava-me carta branca, acrescentando esta frase muito natural na boca de um homem que não tinha, nem o hábito do teatro, nem a pretensão de ser autor dramático: — Fiz três vezes e mal esta peça; faça-a uma vez e boa.

Deitei mãos à obra, e confesso que pus de parte a versão do Sr. de Girardin, a quem preveni disso. Tornei meu o assunto. Supus que a idéia fosse minha, maneira única de identificar-me com um assunto alheio, e não três semanas, mas oito dias depois desta convenção, comuniquei-lhe o manuscrito, do qual já ele conhecia alguns fragmentos.

A pouco e pouco tinha-me eu exaltado como se se tratasse de mim. Desde que entrevi o desfecho possível, compreendi logo em que forma devia ser tratado o assunto. Lembrava-me ainda a lição que recebi com o Amigo das mulheres, peça em que me censuravam excessivos desenvolvimentos fisiológicos; eu dizia comigo que decididamente o teatro vive de interesse, de fatos, de ação, de movimento e de progressão. Fazendo as minhas reservas acerca do valor intrínseco da minha última comédia (vaidade! nunca nos abandonas!) fiz a mim mesmo a promessa de aproveitar a experiência, porque eu não sou teimoso, e tenho a opinião daquele que dizia de Voltaire: Il y a quelqu'un qui a plus d'esprit que Voltaire, c'est tout le monde.

Francamente, (eu apelo para o público que me dá razão há quinze dias, sem conhecer os pormenores que lhe estou expondo hoje), podia apresentar-se melhor ocasião para fazer um novo tentâmen? Havia assunto que pedisse mais concisão, mais rapidez, mais destreza? Devia-se proceder por outro modo que não fosse o movimento, o fato e as lágrima?

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Li a peça ao Sr. Girardin.

Não é mais a minha peça, disse o Sr. de Girardin, quando acabei de ler.

Não sei o que é, respondi, mas acho que deve ser assim. Leia atentamente o manuscrito, faça observações à margem, mandemo e nós refundiremos um com outro, se for preciso; mas eu creio que a obra deve ficar assim.

Recebi o manuscrito, com duas ou três linhas, a que atendi, e algumas mudanças insignificantes, como a palavra — valet de chambre por domestique.

Tornei a levar a peça.

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O Sr. de Girardin mandou a peça ao diretor do Teatro Francês, o Sr. Eduardo Thierry, escrevendo-lhe a seguinte a carta que ficou nos arquivos do teatro:

“Meu caro diretor, eis o novo manuscrito. Dumas está certo do sucesso. Leia e diga-me se é da mesma opinião”.

O Sr. Eduardo Thierry respondeu:

“Desta vez temos peça e sucesso”.

Passava-se isto a 2 ou 3 de dezembro.

O Sr. de Girardin pediu leitura. Marcou-se o dia 14: mas, de 3 a 14, o Sr. de Girardin, que não estava convencido de que a última versão fosse a melhor, fez entrar nela tudo que pôde tirar ao texto primitivo, reformou, mudou o desfecho, e para concluir, leu ao comitê um drama metade meu metade dele, sem comunicar-me coisa alguma, como talvez devesse fazer, sendo eu colaborador e amigo.

O drama foi aceito por um voto de maioria.

Soube então o que se passara. O Sr. Girardin não me falou das suas correções. Nada lhe disse. Afinal de contas, era ele quem devia assinar a peça: a idéia era dele, e dele era a responsabilidade.

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«O Teatro Frances dispoz-se a ensaiar a peça. O Sr. Eduardo Thierry, que não tinha achado na peça lida ao comité a última peça lida por ele, pediu-me que assistisse a uma nova leitura com

o Sr. de Gi- rardin, Regnier e ele, leitura com que se estabeleceria definitivamente o texto, depois de confrontar os manuscriptos. Levei copia do meu. O Sr. Ed. Tier- ri lia em voz alta a copia, do teatro, e Regnier acompanhava a leitura com a minha; eu e o Sr. de Girardin ouviamos. Foi então que conheci as emendas. Não fiquei ofendido, fiquei espantado.

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De tempos a tempos, após as observações justas do Sr. Thierry ou de Regnier, dava eu a minha opinião ao ponto de vista geral do teatro, sem querer impor a minha fórmula, O Sr. de Girardin incomodava-se com a discussão. Como tínhamos em vista o interesse dele, como queríamos lealmente que ele não sofresse uma derrota, em terreno que lhe era desconhecido, tentávamos convencê-lo por todos os argumentos possíveis e nos termos mais delicados, incapazes de ferir um grande amor próprio legitimado por um grande valor e uma grande situação. Eu cheguei até a dizer isto ao meu colaborador:

— Quando o Sr. leu a sua primeira peça, que foi declarada impossível, se eu lha houvesse pedido, era capaz de dar-ma?

— Decerto.

— Pois bem, se ma desse eu faria o que fiz. Agora não posso dizer mais: tomo a sua parte, pelo preço que quiser. Faço representar a peça, e garanto que há de agradar imensamente.

Este último argumento, e o modo com que Regater, na mesma ocasião, interpretou a cena da carta, tão admiravelmente representada depois, acabaram de convencer o Sr. de Girardin, que declarou ser inútil ler o terceiro ato, e que aceitava decididamente a minha versão.

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Os ensaios, por consentimento do Sr. de Girardin, deviam ser dirigidos por mim.

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O Sr. de Girardin assistiu sem mim a um dos primeiros ensaios. Ouviu todo o primeiro ato, mostrou-se satisfeito, e mandou-me dizer que assistisse aos ensaios o mais assiduamente possível.

Graças a um trabalho de quatro horas por dia, os ensaios foram depressa. A peça tomava corpo e alma. A ação desenvolvia-se rápida, comovente, implacável. Eu estava encantado pelo resultado, e ninguém pode dizer que tentasse, uma só vez, nem por palavra nem por atos, suplantar o meu colaborador.

Fui convidar o Sr. de Girardin para ir ouvir a peça ............................................................................................

Veio dois dias depois. Assentou-se na platéia, entre o sr. Thierry e eu, e a peça desenvolveu-se sem interrupção aos seus olhos. No fim, perguntou-lhe o Sr. Thierry qual era a opinião dele. Levantou-se então o Sr. de Girardin, e disse em alta voz, em pleno teatro, em face dos artistas espantados, que ouviam pela primeira vez semelhante linguagem:

— Se eu fosse o único dono da peça, retirá-la- ia; acho aquilo detestável!

— Meu caro, respondi eu, com o sangue frio de que a natureza me dotou, lamento isso, tanto mais quanto eu fiz o que podia para que a peça não fosse tão detestável como era dantes.

Depois do que, subi ao tablado, deixando o Sr. de Girardin partir sem dizer uma só palavra aos artistas confusos, molestados, e principalmente perturbados com aquela repreensão.

Declarei-lhes, e eles o entenderam assim, que a minha missão estava terminada. Retiveram-me ainda umas duas horas, pedindo as minhas últimas indicações, e eu indiquei tudo o que me parecia útil ao sucesso da peça, sucesso que_ainda uma vez lhes predisse.

Voltei para casa, acreditando ainda, tão ingênuo era, que o Sr. de Girardin me mandaria no dia seguinte alguma palavra amigável.

Nada.

Assim, pois, o meu tempo, a minha experiência, que ele hoje reconhece, a melhor parte de mim mesmo, porque eu tinha consciência de ter escrito uma obra interessante, em uma forma nova, pensada, escolhida, forjada por mim, toda a minha pessoa enfim, posta lealmente, modestamente, filialmente, ao serviço do capricho literário de um amigo, não, como o meu adversário insinua, para ganhar alguns bilhetes de mil francos, que eu ganharia em maior quantidade com o meu nome do que com o seu, mas para impedir que um dos homens mais notáveis da época se entregasse, desarmado e ridículo, em país estranho, aos golpes e gargalhadas dos numerosos inimigos que ele tem a fortuna de possuir, nada disso deteve nos lábios frios e desdenhosos do Sr. de Girardin a palavra detestável; palavra injusta, como está hoje demonstrado, e que ele não tinha direito de proferir depois da nossa última conferencia, da nossa última leitura, e da sua última declaração.

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Mas, se eu nada recebi do Sr. de Girardin, recebeu o Sr. Thierry uma carta em que ele declarava de antemão que recusava assinar uma peça que não era sua, que desnaturava a sua idéia e que ele achava má, acresentando que assistira como simples curioso à primeira representação da nova obra-prima do autor do Demi-Monde.

Teve lugar o ensaio geral; assisti a ele, não como autor, mas como amigo, fiz elogios aos artistas, não fiz uma só observação. O Sr. de Girardin também assistiu ao ensaio.

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«Não aceitei os bilhetes a que tinha direito para a primeira representação. O Sr. de Girardin tomou-os todos, mandando-me dizer que, se eu quisesse alguns, mandasse-lhos pedir.

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«O Sr. de Girardin deu ou cedeu muitos bilhetes aos seus amigos,

o que não se conciliava com o famoso: É detestável.

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«Não assisti à primeira representação, cujo successo foi imenso.

Alguns dias depois soube, pelos jornais, que o Sr. de Girardin vendera ao Sr. Michel Levi; sem consultar-me nem prevenir-me, o manuscrito do Suplício de uma mulher, isto é, uma propriedade comum; e soube mais que, sem informar-me, fizera presente a Mlle. Favart do preço integral da venda. Não me mandaram provas da impressão, que só eu podia corrigir, pois só eu conhecia

o texto.

Mandei intimar o Sr. Levi por via legal, proibindo-lhe a publicação de uma obra de que o Sr. de Girardin não podia dispor só.

O Sr. Levi respondeu à intimação, recusando,............................................................................. ..................... e depois veio fazer-me uma visita por dia, oferecendo-me, da parte do Sr. de Girardin, metade do preço da venda.

Devolvi ao Sr. de Girardin os seus, ou meus, dois mil e quinhentos francos, e esperei o prefácio, última prova dessa liberdade ilimitada que ele reivindica para si, não admitindo a mais elementar equidade para os outros.

Aqui entra Dumas na apreciação do prefácio de Emile de Girardin, e publica o primeiro manuscrito da peça, sobre o qual fez ele o drama que se representou no Teatro Francês.

Eis como termina a brochura de Dumas Filho:

... Não falseei os seus caracteres, senão que os aperfeiçoei, — para não dizer que os criei, — porquanto a primeira condição de um caráter, é a lógica, e as suas personagens desmentem-se a cada instante, como podem ver os que lerem a sua verdadeira peça. Enfim, quem escolhe uma idéia deve não perdê-la de vista um só momento, — deve fazer com que todas as personagens, todas as cenas, todas as palavras concorram para a expressão, dedução e demonstração dessa idéia, sob qualquer forma que se apresente, drama ou comédia. Lembre-se desta lei invariável do teatro, Sr. de Girardin, e não se afaste dela quando escrever as Duas irmãs. É o último conselho dramático que lhe dou, mas não é o pior... ............................................................................................ .................................................................

Se eu escrevo como um telégrafo ou como um melodrama; se o público erra ou não, aplaudindo as minhas verdades fictícias; se o Sr. de Girardin continua a ver em mim um rapazola, porque me viu nascer; se eu sou um tradutor (aceito a palavra) porque a sua língua dramática prefere ser pateada a ser aplaudida, fantasia que pôde realizar facilmente quando não tiver colaborador; se ele deixou representar a peça para me não causar um prejuízo pecuniário, ou por não poder ser de outro modo; importa demonstrar a incontestabilidade dos fatos, e a franqueza e limpeza do meu procedimento.

Procurar a verdade, é a divisa do Sr. de Girardin.

Dizê-lo, é a minha.

Uma vale outra.

A simples comparação das alegações de Girardin com a narração de Dumas Filho, basta para conhecer de que lado está a verdade.

Aguardamos ocasião oportuna para mostrar as diferenças essenciais entre as duas peças, e apreciar ao mesmo tempo a peça representada e tão calorosamente aplaudida.

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Crítica teatral

Suplício de uma mulher. — (Drama em 3 atos por Emile de Girardin e Dumas Filho).

Subiu finalmente à cena, no teatro Ginásio, o drama de Emile de Girardin e Dumas Filho, Suplicio de uma mulher. Depois de percorrer quase todos os principais teatros da Europa, chegou ele às nossas terras, onde, a julgar pelos aplausos que já recebeu, parece que continuará a mesma carreira gloriosa, que até hoje tem percorrido. A que deve ele esta carreira gloriosa, e por que motivo revolve tão profundamente os espíritos? A resposta está na forma e na idéia do drama; é porque, sob uma forma interessante, rápida, precisa, agita ele, mais ousadamente que nenhum outro, uma terrível questão de costumes, concluindo por uma lição severa, tremenda, implacável. É um drama que tem a grande vantagem de não discutir, nem dissertar: todo ele é ação, desde que começa até que termina, ação enérgica e apaixonada, ação que arrasta, que comove, e que satisfaz a alma, graças a uma solução judiciosa, tirada das entranhas do assunto, para salvar a um tempo a dignidade humana e a santidade das leis Moraes.

Toda a gente ficou impressionada, diz um crítico parisiense, com a dedução lógica das cenas, com a audácia das situações, com o vigor do estudo. As frases são breves e precisas; cada palavra fulmina como uma cápsula inteligente. É uma espécie de artigo em três atos contra o adultério, corrigida as provas por um homem entendido em matéria de diálogo.

Tal é o drama que o público do Ginásio aplaude com fervor e entusiasmo. Abstenho-me de narrar o enredo, referindo-me apenas àquilo que tiver relação com as intenções morais da peça, e a este respeito direi em duas palavras o que ela me parece.

O Suplício de uma mulher trata da questão do adultério com os traços mais vigorosos e novos; os autores não recuaram diante de nenhuma dificuldade, nem mesmo diante do fruto do amor criminoso; e essa situação, se impressiona pela ousadia, corrige pela energia da verdade; no meio de todos os seus protestos de amor, o erro de Matilde não merece simpatia alguma, e quando no último ato, o marido assume a inflexibilidade de juiz, e lavra aquela sentença tão grandiosa e tão profunda, as simpatias do espectador ficam em casa com Dumont, ao passo que Matilde e Alvarez levam apenas a sua condenação. Ninguém se revolta contra a sentença de Dumont; chegando em frente do terrível problema, posto nos dois primeiros atos, o espectador anseia, palpita, interroga, em busca de uma solução difícil para ele, e desde que ela aparece na boca do marido ultrajado, há um movimento íntimo, de aplauso e de satisfação, por aquela vitória da lei moral e da pureza dos costumes.

Ora, se a conclusão nos satisfaz, e se a situação não nos seduz, onde está o escândalo da peça? Uma obra é moral — lembra-me ter lido em Mme. de Staël,

— se a impressão que se recebe é favorável ao aperfeiçoamento da alma humana... A moralidade de uma obra consiste nos sentimentos que ela inspira. Ninguém dirá que os sentimentos que nos inspira o Suplício de uma mulher sejam simpáticos à perversão dos costumes; e se as nossas lágrimas acompanham Dumont, é que estão do lado do dever.

De todos os caracteres da peça, o mais perfeito e o mais completo é Dumont, — confiante, dedicado, amante, nos dias da paz doméstica, nada perde da sua nobreza na hora do infortúnio conjugal. Quando Matilde lhe entrega a carta de Alvarez, o seu coração prorrompe a linguagem da sua indignação: é o primeiro castigo da culpada; mas depois, quando ele volta sobre si mesmo, e reflete na enormidade da situação em que se acha, a idéia que o domina é a de salvar a sua honra e o futuro da menina, que não pode ser solidária no crime de Matilde e de Alvarez. Daqui vem naturalmente a conclusão da peça, conclusão nova, e profundamente moral.

Alvarez é igualmente um caráter humano, até na paixão que o domina, e que, se não serve à consciência dos espectadores, serve à sua própria, e é aos olhos dele uma justificação. Os autores não pretendem impô-lo à simpatia do espectador, como um tipo do dever, nem este o aceita; ao contrário, quando Dumont lhe pergunta no 3° ato, — se ele está no caso de recusar alguma infâmia, — já o espectador tem feito a mesma pergunta; mas, no desvio de sua paixão criminosa, — e está nisso a lição do exemplo, — Alvarez julga a proposta de Dumont mais indigna que a sua traição.

De todos os caracteres, — Matilde é o que me parece mais fraco; se fosse o amor que a impelisse ao erro, conservava-se ela dentro das condições humanas; mas o erro por um motivo de gratidão pelo favor prestado ao marido, não me parece inteiramente filho da lógica moral dos sentimentos. Isto, porém, não impede que o remorso lhe lacere a alma; o belo monologo do 2° ato é na realidade a expressão fiel das suas dores íntimas, com a diferença de que, no meio da ruína da sua vida, aquelas lamentações, se conseguem despertar a nossa piedade, não arrancam a nossa absolvição.

Pondo de parte o papel da menina Joana, que, como diz Alvarez, ainda não tem caráter determinado, resta-nos a Sra. Larcey, criação cômica de um feliz acabado, copiada do natural, e habilmente introduzida na peça.

Tais são as personagens do Suplício de uma mulher.

Cheio de cenas novas e lances originais, entre os quais a entrega da carta no segundo ato, que interessa ao último ponto por sua altura dramática, o Suplício de uma mulher está destinado a colher na cena brasileira os aplausos e as ovações de que tem sido objeto nos teatros da Europa.

É fácil predizer-se esta boa sorte ao Suplício de uma mulher. Não há muitos dramas que consigam, como este, prender tão poderosamente a atenção e revolver tão profundamente a alma. A aceitação por parte do público será também uma prova em favor da sociedade, que encontra nele a defesa dos deveres morais e da santidade do casamento.

Insisto neste ponto, porque é ele tão evidente e tão positivo no Suplício de uma mulher, que as apreciações contrárias não se podem sustentar. Que essas apreciações se produzam, contra a evidência dos fatos, não é isso uma desconsolação para os autores. A história literária de todos os tempos encerra mais de um exemplo desta luta, de que saem vitoriosas as obras verdadeiramente duráveis.

Seja-me lícito citar um gênio, o grande Molière, que caminha, ao par de Shakespeare, na vanguarda dos poetas dramáticos, e citá-lo, na sua obra mais perfeita, Misantropo. Há nada mais eternamente belo, mais eternamente moral? E contudo não achou J. J. Rousseau, na celebre carta a d'Alembert, que Molière tinha ridicularizada a virtude? Mercier não escreveu também que todas as peças do grande poeta eram apologias do vício?

Nos nossos dias, quando o adorável talento de Madame Sand deu ao mundo literário essa longa série de livros que hão de desafiar os séculos e levar à mais remota posteridade o nome da sua prodigiosa criadora, de todos os lados da literatura surgiram críticas acerbas contra ela, e dizia-se desassombradamente, que essas obras eram libelos contra o casamento e a moral.

Que vimos então? Vimos o mais ilustre crítico da escola clássica, Gustave Planche, apreciar, com aquele alto critério que sempre o distinguiu, as obras tão incriminadas, mostrando aos olhos do mundo literário as grandes belezas da autora de Indiana, e servindo deste modo à verdadeira causa da arte.

Mesmo sem assistência de um juiz tão competente, o Suplício de uma mulherpode esperar igual fortuna. É esta a minha convicção, e para os meus amigos, é inútil declará-la; eles sabem que eu não me faria tradutor de uma obra de cuja deformidade moral e poética estivesse convencido.

Os indiferentes poderão julgar o contrário; e talvez os induza a isso uma frase que escapou ontem ao colega do Jornal do Comércio e, quando se refere à questão literária que houve em Paris, por ocasião da representação da peça. “Nem esse escândalo, diz o colega, se quis perder aqui, e antes da representação do drama a imprensa narrou largamente a história da origem”. Os leitores do Diario sabem que, antes da representação do Suplício de uma mulher foi narrado o referido escândalo nestas colunas, em artigo assinado por mim.

Vou ajudar a perspicácia do Jornal do Comércio.

A narração do escândalo tinha dois motivos: o primeiro era explicar as razões pelas quais dei à peça os nomes dos dois autores, quando o original francês não os mencionava; o segundo era dar conhecimento aos leitores de um incidente curioso, e que tanto excitara a curiosidade pública da Europa. É a isto que o Jornal do Comércio chama exploração do escândalo?

Mas eu não posso reconhecer na frase do Jornal do Comércio mais do que uma irreflexão, mui pouco própria da idade madura, não devendo admitir que ele pudesse ter nenhuma intenção ofensiva contra mim; e se tal intenção existisse, é inútil dizer que a mencionada frase, perdendo aos meus olhos o seu diminutíssimo valor, só teria como resposta o silêncio do desdém.


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