Machado de Assis - Crítica



Garrett



Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.


Publicado na Gazeta de Notícias, 05/06/1899.


Quem disse de Garrett que ele só por si valia uma literatura disse bem e breve o que dele se poderá escrever sem encarecimento nem falha. Também ele o proclamou assim, ainda que mais longamente, naquele prefácio das Viagens na Minha Terra, que é a sua maior apologia.

Não assinou o prefácio; mas ninguém escrevia assim senão ele, nem ele o fez para se mascarar. Os editores, a quem o autor atribuiu tão belas e justas coisas, se acaso cuidaram haver emparelhado no estilo com o grande escritor, foram os únicos que se iludiram. Não sabemos se hoje lhe perdoaríamos isto. A nós, e à gente da nossa mocidade parecia um direito seu, unicamente seu.

Estávamos perto do óbito do poeta; tínhamos balbuciado as suas páginas, como as de outros, que também foram poetas ou prosadores, romancistas ou dramaturgos, oradores ou humoristas, quando ele foi tudo isso a um tempo, deixando um primor em cada gênero. Éramos moços todos. Nenhum havia nascido com o Camões e a Dona Branca, nenhum mais velho que estes, menos ainda algum que datasse daquele dia 4 de fevereiro de 1799, quando a raça portuguesa deu de si o seu maior engenho depois de Camões.

Nem só éramos moços, éramos ainda românticos; cantava em nós a toada de Gonçalves Dias, ouvíamos Alencar domar os mares bravios da sua terra, naquelepoema em prosa que nos deixou, o Álvares de Azevedo era o nosso aperitivo de Byron e Shakespeare. De Garrett até as anedotas nos encantavam. Cá chegavam por cima dos mares o eco dos seus tempos verdes e maduros, os amores que trouxera, a amizade que eles e a poesia deram e mantiveram entre o poeta luso e

o nosso Itamaracá, o pico dos seus ditos e finalmente as graças teimosas dos seus últimos anos.

Certo é que quando ele nasceu, vinha a caminho o Romantismo, com Goethe, com Chateaubriand, com Byron. Mas ele mesmo, que trouxe a planta nova para Portugal, — ou a vacina, como lhe chamou algures, — ainda na Universidade de Coimbra cuidava de tragédias clássicas antes que do Frei Luís de Sousa. Fez muito verso da velha escola, até que de todo sacudiu o manto caduco, evento comemorado assim naqueles versos da Dona Branca:

Não rias, bom filósofo Duarte, Da minha conversão, sincera é ela; Dei de mão às ficções do paganismo, E, cristão vate, cristãos versos faço.

Não era cedo para fazer versos cristãos. Chateaubriand, desde o alvor do século, louvava as graças nativas do cristianismo, e descobria, cheio de Rousseau, a candura do homem natural.

Garrett, posto fosse em sua terra o iniciador das novas formas, não foi copista delas, e tudo que lhe saiu das mãos trazia um cunho próprio e puramente nacional. Pelo assunto, pelo tom, pela língua, pelo sentimento era o homem da sua pátria e do seu século. A este encheu durante cerca de quarenta anos. Teve críticas naturalmente, e desafeições, e provavelmente desestimas; não lhe minguaram golpes nem sarcasmos, mas a admiração era maior que eles, e as obras sucediam-se graves ou lindas, e sempre altas, para modelo de outros.

Não cabe aqui, feito às pressas, o estudo do autor de Frei Luís de Sousa, da Adozinda e das Folhas Caídas, e, para só louvar tais obras, basta nomeá-las, como às outras suas irmãs. Ninguém as esqueceu, uma vez lidas. Estamos a celebrar o centenário do nascimento do poeta, que pouco mais viveu de meio século e acodem-nos à mente todas as suas invenções com a forma em que as fez vivedouras. Os versos, desde os que compôs às divas gregas até aos que fez às suas devotas católicas como que ficaram no ar cantando as loas do grande espírito.

Figuras que ele criou rodeiam-nos com o gesto peculiar e alma própria, Catarina, Madalena, Maria, Paula, Vicente, Branca, ao pé de outras máculas ou esbeltas, cingindo a fronte de Camões ou de Bernardim Ribeiro, e aquela que aceita um mouro com todos os seus pecados de incréu e de homem, e a mais tocante de todas, a mais trágica, essa que vê tornar da morte suposta e acabada o primeiro marido de sua mãe para separar seus pais.

Não nos acode igualmente o seu papel político. O que nos lembra dos discursos é

o que é só literário, e do ofício de ministro que exerceu recorda-nos que fez alguns trabalhos para criar o teatro nacional, mas valeram menos que Um Auto de Gil Vicente. Se negociou algum tratado, como os tratados morrem, continuamos a ler as suas páginas vivas. Foi gosto seu meter-se em política, e mostrar que não valia só por versos.

Tendo combatido pela revolução de 1820, como Chateaubriand, sob as ordens dos príncipes, quis ser como este e Lamartine, ministro e homem de estado. Não sei se advertiu que é menos agro retratar os homens que regê-los. Talvez sim; é o que se pode deduzir de mais de uma pagina íntima. Em todo caso, não é o político que ora celebramos, mas o escritor, um dos maiores da língua, um dos primeiros do século, e o que junta em seus livros a alma da nação com a vida da humanidade.


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