Machado de Assis - Crônica



Machado de Assis - Crônicas do Dr. Semana



CLÍNICA CIRÚRGICA DO DR. SEMANA


8 DE DEZEMBRO DE 1861


O Dr. Semana tem a honra de participar ao respeitável público, que se acha nesta corte, onde fixou sua residência, pronto sempre a ministrar aos necessitados os socorros de sua infalível ciência.

Não produzirá a relação das memórias que tem no Instituto Imperial de França e que o fizeram conhecido em ambas as Américas. Limita-se a publicar, apenas, o resultado de sua clínica durante o curto espaço de tempo em que aqui se acha.

Estes dados estatísticos são úteis: trazem proveito. A humanidade lucra com eles, quando insertos nas folhas diárias de grande extração, porque fica sabendo onde ir procurar a saúde e conhecer de perto quais têm sido os triunfos da ciência.

Aí vai a estatística.

Tumores sub epidérmicos. — Operei 200. Estes tumores são formados por uma substância perlea mais ou menos consistente. Opero-os com uma simples manobra digital, ou quando muito com o auxílio da extremidade aberta do cilindro oco da chave da máquina gnomônica de Nuremberg. Todos quantos operei eram do rosto, e foram coroados de sucesso.

Ditos microscópicos ou acari-phlyctenoides. — Tratei de alguns por meio da grattage com a rugina unguicular do Dr. Egratigneur.

Quistos. — Operei 40. Emprego metódico das agulhas d'Inglaterra (por um processo meu). Todos estes quistos eram formados pelo pulex penetrans, com acidentes locais, como phlogose, prurido, tensão e calor urente. Consegui banir da prática o uso da nicotina em pó e o carbonato calcário para favorecer a cicatrização.

Hérnias glóssicas através do orifício oral. — Tenho curado um grande número sem operação sangrenta. Reduzo-as, por meio de uma hábil e engenhosa combinação de esforços musculares. Operação rápida e sem dor.

N. B. — Emprazo os meus colegas desta corte para uma apreciação e discussão, cujo proveito será seguro. Este acidente de hérnias glóssicas é mais comum do que se pensa, sobretudo em indivíduos de temperamento dúbio e caráter ingênuo. Dois casos vi complicados com luxação da mandíbula.

Corpos estranhos. — Fragmentos dos tecidos musculares tendinosos e aponeuróticos, decoctos e putrefatos, profundamente implantados em vastas escavações devidas à cárie dos processos odônticos dos maxilares. Odontalgias. Extração por meio da engenhosa alavanca do Dr. Curedent.

Excretos superabundantes. — Dez casos de substância superexcretada das glândulas ceruminosas dos condutos auditivos externos. Emprego da mencionada alavanca, modificada por mim. Superexcreção das glândulas de Meibonnio; imensos casos. Loções metódicas com protóxido de hidrogênio; cura constante.

Ortopedia. — Desvio sinistroso dos apêndices capilares da extremidade cefálica do corpo, no plano compreendido entre os pontos occipital, frontal e temporais, incluindo vértex. Emprego constante (em 100 casos) do myriodonte de caout-chouc dos Drs. Chassepoux e Niobey.

Amputações. — Dos extremos livres dos referidos apêndices pelo processo de Mr. Beaumely e com tesouras de minha invenção. Casos numerosos; cura sem acidente.

São estas as operações que tenho praticado nesta corte em uma quinzena. Possuo agradecimentos, cientificamente redigidos e com assinaturas reconhecidas, que podem ser examinados no meu consultório, à Rua dos Arcos n.° 66.

Dr. Semana.

PRELEÇÕES DE GRAMÁTICA Pelo Dr. Semana

PRÓLOGO, CAVACO OU ADVERTÊNCIA 27 DE JULHO DE 1862.

O meu moleque, apesar das grandes luzes que possui, pediu-me que escrevesse umas preleções de gramática, para que por elas pudesse aprender a sua interessante consorte, que infelizmente é um poucochinho estúpida. E, como eu reconheça que é de necessidade apurar o espírito e o classicismo da língua de tão distinta brasileira, resolvi publicar tais preleções, que bem podem aproveitar por aí além a quem desconhecer o idioma do unóculo de Macau.

Quem as quiser ler pode fazê-lo, uma vez que seja assinante do meu jornal, ou o compre por 500 rs.; quem não quiser, que não queira, porque para mim é o mesmo, e estamos em um país constitucional, em que a vontade do cidadão é livre e a da cidadã depende da do marido, do pai, ou do irmão.

Não peço elogios, porque a obra os não merece; mas peço paciência e giro.

Dr. Semana.

INTRODUÇÃO

A gramática semanal é a arte, que ensina a declarar bem os pensamentos da Semana Ilustrada, por meio de caracteres, ou de textos burlescos e chistosos.

Divide-se em quatro partes Ortografia, Prosódia, Etimologia e Sintaxe.

A Ortografia ensina a escrever certo o que sai publicado na Semana, quando o tipógrafo não comete algum erro, ou o revisor se esquece de emendar alguma letra trocada.

A Prosódia ensina, a saber, tudo quanto a Semana oferece a seus leitores, uma vez que estes não sejam meninos de escola, ou carroceiros que só saibam assinar o nome — o que é muito raro entre os entusiastas do referido jornal.

A Etimologia ensina a conhecer a origem das palavras e caricaturas da Semana, se, porventura, os leitores forem espirituosos; no caso contrário, a etimologia é, para eles, uma parte supérflua da gramática, e então podem pedir aos vizinhos que a expliquem, ou aos missionários capuchinhos do Castelo.

A Sintaxe ensina a ligar todas as palavras e caricaturas, para que se compreenda que a Semana Ilustrada sabe onde tem o nariz, e não precisa do espírito do Punch ou do Journal pour rire, para divertir os filhos do Brasil.

CAPÍTULO I

PARTES DA ORAÇÃO

Oração é o amontoado de palavras chistosas com sentido completo, para fazer rir os leitores da Semana.

Divide-se em: Artigo, Nome, Pronome, Verbo, Particípio, Advérbio, Preposição, Conjunção, e Interjeição.

§ 1. ° — DO ARTIGO

Artigo semanal é um pedaço de escrito, com princípio, meio e fim, que serve para divertir ou aborrecer a quem o lê. Exemplo: As memórias de um tunante; As vespas dramáticas; e as Preleções de gramática para uso da Negrinha.

O Artigo semanal pode ser masculino, feminino, ou neutro, conforme

o gosto de quem o lê. Serve para encher as colunas da Semana Ilustrada, e aumentar o número de suas páginas. Sem o Artigo, a Semana publicaria unicamente caricaturas.

§ 2.° — DO NOME

Nome semanal é uma voz empregada para conhecer as coisas, que merecem reparo ou caricatura por este mundo de Cristo. Exemplo: Guarda fiscal; Pedestre; Leão da rua do Ouvidor.

O Nome é substantivo, ou adjetivo.

Nome substantivo em geral, e até para a gramática da Semana, é aquele que pode estar na oração sem complemento algum. Exemplo: Celibatário; Riala; Frade ou Freira.

Nome adjetivo, também em geral, e até para a gramática da Semana, é aquele que não pode estar na oração sem algum substantivo. Ex.:

Namorado; Camélia; Dr. Semana; Estômago de meirinho.

O Substantivo ou é próprio, ou apelativo.

Próprio é o que cabe a uma só coisa ou pessoa. Ex: Papa; Estátua do largo do Rocio; Subvenção ao teatro de S. Pedro, ou à Ópera Nacional.

Apelativo é o que cabe a muitas coisas ou pessoas. Ex: Egoísmo político; Classes perigosas do Rio de Janeiro; Vira-casacas; Pensionistas do Estado.

O Adjetivo é ou qualificativo, ou determinativo, ou possessivo, ou demonstrativo, ou genérico, ou numeral, ou indefinido.

Qualificativo é o que exprime a qualidade das coisas ou pessoas. Ex.: Chim ratoneiro; Cantor do Teatro Lírico com abaixamento de voz; Carroça de águas servidas nauseabunda.

Determinativo é o que determina o sentido particular e a ação dos nomes que modifica. Ex.: Limpeza pública; Irrigação das ruas.

Possessivo é o que dá uma idéia de possessão. Ex.: Vereador da Câmara Municipal dentro do quatriênio; Cambista de bilhetes à porta do teatro; Lavadeira do Campo da Aclamação.

Demonstrativo é o que dá uma idéia de designação precisa. Ex: Mãozinha preta no canto das ruas; Beco das Cancelas para quem tiver bebido cerveja ou mate; Hotel da Europa para quem tiver fome e quiser gastar dinheiro.

Genérico é o que especifica os gêneros. Ex.: Anúncio da 4ª coluna dos jornais; Carne seca podre vendida à pobreza; Manteiga rançosa; Vinho com pau-campeche.

Numeral é o que dá uma idéia da quantidade, ou ordem. Ex.: Afilhado de ministro; Cavaleiro e oficial da Rosa; Rua imunda; Taverneiro velhaco; Pedestre dorminhoco e covarde; Deputado que não fala; Eleitor adulado; Protetor de viúvas e órfãs desvalidas; Patriotas da algibeira; e Críticos literários.

Indefinido é o que modifica o nome, representando-o de uma maneira vaga. Ex.: Liberal; Conservador; Barrigudo; Pai da pátria; Literato;

Escritor público; Artista; Irmão de Ordem Terceira; Homem
desempregado.
§ 3.° — DO PRONOME

O Pronome é uma voz que se põe em lugar do nome. Ex: Barão do Engenho de Baixo, em lugar de João Francisco do Espírito Santo e Souza. Doutor, em lugar de Manoel Borromeu. Senado em lugar de Casa com escritos para alugar.

O Pronome é pessoal, ou conjuntivo, ou possessivo, ou demonstrativo, ou indefinido.

Pessoal é aquele que, as mais das vezes, representa as três pessoas do verbo. Ex.: — A Semana Ilustrada, que representa o Dr. Semana,

o moleque e a negrinha.

Conjuntivo é o que se acha na mesma oração, em relação imediata com o nome ou pronome, que representa. Ex.: Deputado quando encontra um Eleitor Criminoso perante o Júri.

Possessivo é aquele que liga uma idéia de possessão ao nome cujo lugar ocupa. Ex.: Petit-maître a cavalo.

Demonstrativo é o que, por assim dizer, mostra os objetos que representa. Ex.: Caixa d’água de Catumbi que custou centenários de contos. Teatro Lírico, que existe desde 1852. O papel de Mademoiselle no teatro de S. Pedro. Empregado de repartição quando leva o dia a fumar.

Indefinido é o que não determina a pessoa ou coisa, cujo lugar ocupa. Ex: Larápio. Procurador. Adulador. Pretendente.

§ 4. ° — DO VERBO

Verbo é uma palavra com que afirmamos uma coisa de outra. Ex: As ruas do Rio de Janeiro andam imundas, porque os fiscais não se importam com isso. O luxo é extraordinário, porque poucos pagam as suas dívidas. A iluminação a gás não clareia depois de duas horas da noite, porque mandam apagar metade dos lampiões. As chuvas alagam a cidade, porque as valas estão sempre entupidas.

O Verbo é ou ativo ou passivo.

Ativo é aquele que afirma que se faz alguma coisa. Ex.: Botar muito dinheiro fora. Eleições sem consciência. Dar ajudas de custo sem necessidade. Prover empregos só por empenhos.

Passivo é o que afirma que uma coisa já está feita. Ex.: Notas diplomáticas dando satisfações a qualquer naçãozinha. Asneiras políticas. Víveres falsificados. Ponte dos despejos na praia de Santa Luzia.

§ 5. ° - DO PARTICÍPIO

Particípio é uma voz que do nome participa os casos e do verbo os tempos. Ex.: Matéria velha do Jornal do Comércio. A Nódoa de Ouro. Carroças de Asseio Público.

§ 6. ° - DO ADVÉRBIO

Advérbio é uma voz indeclinável que, junto ao nome ou verbo, exprime o modo ou circunstância de um e outro. Ex: Guarda-fiscal. Passeio público. Câmara Municipal. Guarda nacional. Iluminação a gás. Barcas Ferry.

Os advérbios dividem-se em:

Afirmativos. Ex.: Tudo entre nós é mal feito. Cada um puxa a brasa para sua sardinha. Quem sabe ler, escrever e contar é uma inteligência.

Negativos. Ex.: A Companhia dos Ônibus não têm burros gordos. A arborização não é das primeiras necessidades no nosso país. A lavoura não precisa de braços.

Comparativos. Ex.: Os frades de pedra do largo do Rocio e a Estátua eqüestre. A nova casa da moeda e o Senado. O teatro lírico e o Circo Spalding and Rogers.

Demonstrativos. Ex.: A ponte das barcas velhas. O campo da Aclamação. Os negros de tigres com ferro ao pescoço. Os mendigos às portas das igrejas.

De tempo. Ex.: Daqui a cem anos teremos esgotos no Rio de Janeiro. Em 1999 o Correio há de melhorar o seu sistema de entrega de cartas. O Brasil há de ser grande nação quando todas as outras forem pequenas. O café há de prosperar quando a natureza se lembrar de dar cabo do bicho.

De lugar. Ex.: Em qualquer parte fazem-se despejos. O largo de S. Francisco é o salão de baile dos tílburis, que atrapalham a quem passa. O teatro de S. Pedro é o ponto das quitandeiras de dote.

De quantidade. Ex.: Falta de patriotismo. Praticantes nas repartições saídos das escolas. Vagabundos de esquinas. Ratoneiros de galinhas. Cambistas de teatros e de cavalinhos. Moças namoradeiras. Negociantes de funda.

De modo. Ex.: Autoridades que maltratam as partes. Negras minas atrevidas. Professores que tratam bem as meninas, para depois a polícia mandar-lhes fechar os colégios.

§ 7. ° — DA CONJUNÇÃO

Conjunção é uma voz indeclinável, que serve de atar ou ajuntar uma palavra ou oração com outra. Ex.: Liga de cetim branco da marca “Honny soit qui mal y pense”. -Pontes flutuantes da Companhia Ferry. Estola de padre no ato do casamento. Cadarços de ceroulas.

As conjunções dividem-se em:

Copulativas. Ex.: Pombo em cima do jacá quando dá comida aos filhos. Línguas viperinas, que falam da vida alheia. Solda de consertador de porcelanas da Rua do Parto.

Condicionais. Ex.: A menina bonita casa se não tem muitos namorados. O corpo legislativo marchará de acordo se não houver interesses pessoais. Os alfaiates farão muitas casacas contanto que não elevem o preço dos feitios.

Conclusivas. Ex.: Os homens que se casam perdem a liberdade. Depois de um grande jantar tomam todos a sua xícara de café (há exceções a favor do chá). Quando um ônibus de bestas magras está cheio, cada passageiro é obrigado a pagar o seu bilhete (não há exceções).

Declarativas. Ex.: Eu te amo. Minha mulher anda sem meias por casa, e não penteia os cabelos. As gravatas de meu marido são retalhos dos meus vestidos.

Disjuntivas. Ex.: Aperto de mão entre inimigos. Apartes no parlamento. Intrigas nos bastidores. Filhos malcriados de dois amigos. Ciúmes de namorados. Miséria repentina em qualquer casa conhecida.

Negativas. Ex.: Não há quem mande ajuntar a lama quando chove. Não há costureira que não saiba fazer ponto atrás e bainha de laçada. Não há repartição pública que não tenha mexeriqueiros.

Causais. Ex.: A inveja afasta os homens uns dos outros. O talento chama inimigos. O interesse é o irmão de muitas amizades.

§ 8.° — DA INTERJEIÇÃO

Interjeição é uma voz indeclinável, que sem ajuda do verbo exprime por si só os vários afetos e paixões do nosso ânimo. Ex. Que cidade do Rio de Janeiro imunda! Que escuridão nas ruas depois de uma hora da noite! Que cavalos de tílburi tão lazarentos!

As interjeições são:

De declamação. Ex.: Oh! escola dramática do teatro de S. Pedro!! Ah! que oradores às vezes nas câmaras! E a maior parte dos pregadores de igreja!

De sentimento e de implorar socorro. Ex.: Que carroças de asseio público! Que chapéus monstros nas cabeças dos pretos do ganho nas horas de mais concorrência! Que quantidade de cambistas de bilhetes de loteria às portas dos tesoureiros! Que de benefícios nos teatros!

De espanto. Ex.: Quanta mulher feia no Rio de Janeiro! Que número de deputados mudos! Quanto militar poltrão!

De repugnância. Ex.: Que menina presunçosa! Abaixo os ganhadores políticos! Um homem de gravata de três cores!!

De dor. Ex.: Que de barras de vestidos na lama! Oh! botas de quinze dias com buracos! Ai, que cantora sem voz!

De admiração. Ex.: Que alinhamento de ruas para casas novas! Que de pobres nas igrejas! Quanta negra de vestido de moiré antique.

De prazer. Ex.: Oh! minha boa cama! Por hoje nada mais! Aos leitores de preleções de gramática, adeus!

§ 9.° - DA PREPOSIÇÃO

10 DE AGOSTO DE 1862.

Preposição é uma voz indeclinável, que serve para reger os nomes, e para compor os verbos e os nomes.

Ex.: Partido — Progressista Constitucional. Contrabandos — abrilhantados. Encampações — Unidas — Industriosas. Correio — Mercantil. Harpocrático — a — respeito — de — Política. Diário — Mudo — Silencioso — idem —idem.

As Preposições regem Genitivo, Dativo, Acusativo e Ablativo.

Mutandis mutandis vêm todas elas dar no mesmo. Ex.: Descrença — político — social — brasileira. Crédito — sem — crédito — monetário. Sanguessugas — parlamentares. Conservadores — liberais e liberais

— conservadores.

CAPÍTULO II

DA SINTAXE

A Sintaxe ou é natural ou figurada.

Sintaxe natural é a que se funda nas regras gerais e ordinárias da Gramática. Ex: Todo o deputado tem afilhados. Quem não tem dinheiro não tem amigos. O interesse individual é a grande mola dos partidos políticos do mundo.

Sintaxe figurada consiste no uso das figuras. Ex.: Ser hoje liberal e amanhã conservador e depois puritano e depois coisa nenhuma. Prometer casamento a uma menina pobre, roer a corda, e amanhã casar com uma noiva rica. Andar hoje de cotovelos rotos e amanhã em carruagens com cavalos do Cabo. Ganhar 50$000 de ordenado e ir a bailes, teatros e cavalinhos com a família, sempre de carro e cheios de sedas e de brilhantes. Dar soirées caloteando os confeiteiros e pedindo xícaras emprestadas.

§ 1.0 — DA SINTAXE NATURAL

O Sujeito, que exercita a significação do verbo do modo finito, vai para nominativo, com quem o verbo concorda em número e pessoa. Ex.: Os ministérios e a maioria das câmaras. A independência de caráter e o Dr. Semana. Os candidatos da Senatoria de Mato-Grosso e os eleitores da mesma província.

Aquilo que se afirma ou nega do mesmo sujeito, ou a ele se refere, também vai para nominativo. Ex.: Têm passado alguns contrabandos na Alfândega. Nem todas as caixas de zinco trazem fundos falsos com brilhantes. A Biblioteca Pública só está aberta às horas em que ninguém precisa dela. A maior parte dos cavalos dos tílburis anda caindo pelo meio das ruas. O beco das Cancelas continua imundo.

Concorrendo na oração um sujeito da primeira pessoa do singular com outro da segunda ou terceira, poremos o verbo na primeira do plural. Ex.: Um empregado inteligente sem proteção, e outro estúpido, afilhado de barão ou de conselheiro, este é o que tem acesso. Brasileiro e estrangeiro para qualquer emprego, este é o escolhido. Estudante aplicado e estudante vadio, o vadio é o aprovado.

28 DE SETEMBRO DE 1862.

Concorrendo na oração um sujeito da segunda pessoa do singular com outro da terceira, poremos o verbo na segunda do plural. Ex.:

Um afilhado de figurão e um pai de família para o lugar de pedestre. Um noivo rico e estúpido e um pobre e inteligente. Uma modista francesa e outra brasileira.

Concorrendo na oração muitos sujeitos, todos da terceira pessoa do singular, poremos o verbo na terceira do plural, concordando com todos; ou na terceira do singular, com um só. Ex.: Um deputado das maiorias. Uma inteligência engarrafada. Um capacho de ministros. Uma rapariga namoradeira.

Os nomes adjetivos, pronomes e particípios concordam com seus substantivos em gênero, número e caso. Ex.: Feliz — Bertha. Bela — Armina. Ir — as. Vilas — Boas. Rosa — Linda. Feliz — Mina. Flor — em

— tina. Eu — fêmea. Domingos Dias. — Já — sinto — Arruda.

Os relativos concordam com os seus substantivos antecedente em gênero e número, e com o subseqüente em gênero, número e caso. Ex.: As parelhas dos ônibus. Os guardas-fiscais. As barcas de Niterói. Os anúncios de leilões. Os dramas do teatro de S. Pedro.

O sujeito, que exercita a significação do verbo do modo infinito, vai para o acusativo. Ex.: Comandante de batalhão da Guarda Nacional. – Professor de primeiras letras. Praticante de repartição, que só tira cópias e registra. Taquígrafo parlamentar.

Aquilo, que se afirma, ou nega desse sujeito, ou para ele se refere, também vai para o acusativo. Ex.: Os Comandantes dos batalhões às vezes nem sabem mandar. Nem todos os professores de primeiras letras estão habilitados para ensinar. Há praticantes de repartição que não sabem se o — c — acompanhado de — a — o ou — u — deve ser cedilhado. Os taquígrafos parlamentares vêem-se atrapalhados para entender certos oradores.

Pelo caso por que se faz a pergunta, por esse mesmo se dá a resposta. Ex.: Quem tem culpa de estarem às ruas imundas? A Câmara Municipal. Quem não dá cabo dos capoeiras? A Polícia. Para que servem os pedestres? Para coisa alguma. Quem deve evitar os ratoneiros? Cada um em sua casa , fechando bem as portas. Quem há de obstar a que se forme um charco de águas servidas por trás do botequim do Passeio Público? Quem Deus quiser. Quem são os maiores inimigos dos empregados públicos? Os seus colegas de repartição. Qual é a classe mais imoral do Brasil? A que não pode curar.

§ 2.° — DA SINTAXE DE REGÊNCIA

O nome, que significa o senhor ou possuidor de alguma coisa, ou a quem ela pertence, põe-se no genitivo. Ex.: Marido. Inspetor dequarteirão. Fiscal da cidade. Água entupindo as valas. Capoeiras em domingo.

Aos adjetivos, que significam coisa rica, pobre, ciente, ignorante, vazia, carregada, vestida, despida, lembrada, esquecida, participante, etc., se ajunta genitivo, que significa aquilo de que há riqueza, pobreza, ciência etc., etc. Rico de notas falsas. Pobre de boa educação. Ciente de estupidez. Ignorante das funções que exerce. Vazio de bom senso. Carregado de crimes e de torpezas. Vestido à custa dos alfaiates. Despido de vergonha. Lembrado quando há vontade de dar gargalhadas. Esquecido quando não aparece. Participante dos prejuízos. *

Aos verbos que significam acusar, absolver, se ajunta genitivo, que significa aquilo de que se acusa, ou absolve. Ex.: A câmara municipal é acusada de deixar que as ruas continuem como estão. As Autoridades são acusadas de não tomarem providências para que não haja uma catástrofe das barcas Ferry. Os pedestres são absolvidos do pouco que fazem, porque são quase todos inválidos. Os teatros são absolvidos de estarem quase às moscas, porque o público não os freqüenta.

O nome, que significa o louvor, ou vitupério, que se dá a alguém, põe-se: Todas as Câmaras Municipais são descuidadas. O Graça e o Vasques são violetas no Ginásio. O Dr. Semana é o rapaz mais bonito do Rio de Janeiro. As carroças do Asseio Público são vidros ambulantes de Frangipani.

CAPÍTULO III

DO DATIVO

Aos verbos Confiar, Dar, Entregar, Enviar, Mandar, Obedecer, Remeter, Recomendar e outros, se ajunta dativo, que significa pessoa, a quem se confia, dá, entrega, etc. Ex.: A Câmara Municipal confia na indolência do povo para não trazer a cidade limpa e asseada. O Tesouro dá muito dinheiro sem saber para o quê. A segurança pública quase sempre está entregue à boa índole dos cidadãos. Há médicos que enviam os doentes para o outro mundo sem saberem de que moléstias lhes morrem. Ninguém manda examinar se a carne que se come é boi pesteado. No Brasil, por isso que todos são grandes, ninguém gosta de obedecer. Remetem-se cartas pelo correio, que às vezes não chegam ao seu destino. Todas as falas do Trono recomendam a economia, mas... bota-se muito dinheiro fora.

Aos adjetivos, que significam coisa útil, prejudicial, danosa, proveitosa, agradável, desagradável, decorosa, leal, desleal, etc., se

ajunta dativo, que chamam de perda, ou de proveito. Ex.: Se não houvesse Câmaras Municipais seria uma grande utilidade para o país. Os guarda-fiscais prejudicam as algibeiras. A falta de asseio das ruas é danosa para a salubridade pública. Os empregos públicos são só proveitosos para certa classe de gente. A vida de representantes da Nação é a mais agradável de todas as que existem. As preleções de gramática devem ser desagradáveis para muitos sujeitos que têm mazelas. Desprezam-se hoje as posições decorosas pelas lucrativas. Procura-se hoje um homem leal no Rio de Janeiro e só se encontra o major Leandrinho. Os amigos íntimos são quase sempre desleais.

CAPÍTULO IV

DO ACUSATIVO

O verbo ativo tem depois de si acusativo, que é aquele sujeito, a quem se dirige a significação do verbo. Ex.: A crônica de um guarda-fiscal. A nomeada de tenor do teatro lírico. Os respingos das carroças do asseio público.

O lugar para onde alguém vai, põe-se em acusativo regido da preposição a ou para. Ex.: A alfândega caminha para o caos. Os vapores peruanos vão sossegados para o seu país. A dignidade nacional vai plantar batatas nas margens do Amazonas.

A oração feita pela voz ativa pode mudar-se para a passiva deste modo: o que era acusativo passa para nominativo, com quem o verbo concorda em número e pessoa; e o que era nominativo passa para ablativo. Ex.: Os praticantes do tesouro vão ser oficiais de descarga da alfândega. Os altos funcionários passam a pedir assinatura de porta em porta. Os guardas-fiscais ainda hão de ser vereadores e estes guardas-fiscais.

CAPÍTULO V

DO ABLATIVO

O modo com que alguma coisa se faz põe-se: Só com empenhos se obtêm empregos. Com espetáculos no Teatro Lírico é que o Ginásio há de levantar cabeça. Com esperanças no futuro é que muita gente se mete em especulações.

A causa por que alguma coisa se faz põe-se em ablativo. Ex.: O Vasques faz benefício porque não tem dinheiro. Há vereadores que foram eleitos por prometerem muita coisa. A imundícia em que está a cidade do Rio de Janeiro é devida a ... (adivinhem).

O instrumento com que alguma coisa se faz, põe-se em ablativo. Ex.: O dinheiro. O amor. O descaro.

O tempo em que alguma coisa sucede, põe-se em ablativo. Ex.: O muro do Passeio Público começou a ser feito há mais de um século, e ainda não está pronto. O Teatro Lírico foi construído por três anos, em 1852, e ainda está em pé, aformoseando o campo. Desde que o Brasil é Brasil fala-se em desmoronar a montanha do Castelo. A Semana ILUSTRADA já completou dois anos de existência e há de durar muitos séculos.

O espaço de tempo, que alguma coisa dura, põe-se em ablativo. Ex.:

A lama nas ruas do Rio de Janeiro dura até secar pelos raios do sol. A paciência dos Fluminenses é eterna a respeito da fiscalização municipal. O reinado dos ratoneiros dura todos os dias desde as 10 horas da noite até às 5 da madrugada.

A coisa em que alguém excede a outro, põe-se em ablativo. Ex. Um fiscal excede a uma preguiça em cuidados municipais. Os ratoneiros excedem à polícia em olho vivo. Os bailes do Oriente excedem a todos em pancadaria de zabumbas e de... pratos.

O preço por que alguma coisa se compra, ou vende, põe-se em ablativo. Ex.: Quanto custaram as obras do Passeio Público? Por quantos contos de réis se fez o grande depósito de água em Catumbi?! Quem comprará certas firmas que há na praça do Rio de Janeiro?

O princípio ou parte donde alguma ação procede, põe-se em ablativo. Ex.: A porcaria em que está a cidade de S. Sebastião procede da incúria de muita gente. A febre amarela e a colerina procedem do sono dos eleitos do povo. A falta de dinheiro, que todos sentem, procede dos mil e tantos regulamentos e decretos do tesouro.

A matéria de que alguma coisa se faz põe-se em ablativo. Ex.: De qualquer homem forma-se um preceptor de meninos das aulas da Correição. De qualquer imundícia faz-se aterro do campo de Santa Ana. De qualquer cego de pau e cãozinho faz-se um pedestre para apanhar os rapinadores de galinhas de gamelas de roupa.

O lugar onde alguém está, ou onde alguma coisa sucede, põe-se em ablativo. Ex.: Os Fluminenses estão em um depósito de pestes. A câmara municipal está em um céu de delícias. Os burros e os gatos morrem pelas ruas, e aí ficam dias inteiros. O centro do largo do Rocio é atravessado por quanto carro há, quando havia ordens em contrário.

O lugar donde alguém sai, ou vem, põe-se em ablativo. Ex.: Os tigres saem de todas as portas e a todas as horas. A descrença brota em todos os corações. A fome geral vem do pouco caso que se faz do povo, que só é considerado em vésperas de eleições.

O lugar por onde alguém vai, ou passa, põe-se em ablativo. Ex.: Pelo campo de Santa Ana ninguém pode passar. (Exceção da regra). A rua do Cattete está intransitável. (Não há mais exemplos para esta regra, porque no Rio de Janeiro por poucos lugares se pode andar e passar sem o lenço no nariz).

A distância de um lugar a outro põe-se em ablativo. Ex.: Um burro e um carroceiro. O povo e os seus representantes. O começo destas preleções e o seu

FIM

PASSEIO PÚBLICO

28 DE SETEMBRO DE 1862.

Ilmo. Sr. F. I. Alho.

Li com avidez a polêmica sustentada por V. S. contra o meu procurador o Sr. Punch.

Os prelos do Jornal do Comércio gemeram durante oito longos dias, emudecendo, por fim, sem que luzisse no espírito público a chispa da verdade nem assim (suponha que estou com o dedo polegar encostado à última falange do dedo mínimo).

Houve muita verbiagem, muita faúlha de sua parte; mas argumento de polpa, razão de convencer, nichts.

Quos vult perdere Jupiter dementat

V. S. correu daqui para ali sobre o assunto, com a vivacidade e graça que todos lhe reconhecem, mas nem por isso conseguiu vencer, nem mesmo convencer.

Entre outras coisas alegou em um dos seus comunicados “documentos de desinteresse exibidos nos reparos do Passeio”.

Hein? Creio que não li bem. Onde estão esses documentos? Quando fez esses reparos desinteressadamente?

As obras rezadas no contrato de 1.° de dezembro de 1860 foram orçadas em oitenta contos. Os oitenta contos foram pagos à boca do cofre. Até aqui não houve — desinteresse.

As que não estavam mencionadas no contrato foram pagas à parte, assim: a ponte de ferro, os seis pedestais para as estátuas e o repuxo. Também não houve desinteresse.

Ainda mais: V. S. não prescindiu da subvenção estipulada na condição 7ª do contrato e começou a percebê-la desde o dia 27 de janeiro do corrente ano. Esta subvenção é de 833$333 mensais.

Isto significa que, antes da abertura do Passeio, V. S. teve para conservação de uma coisa que ninguém estragava o magro auxílio de seis contos cento e onze mil e tantos réis (6:111$000).

Quem sabe se não é isto o que mereceu o nome de desinteresse?

O Sr. F. I. Alho sempre foi homem espirituoso!

Abaixo transcrevo alguns documentos do seu desinteresse, colhidos no expediente do Ministério da Agricultura.

“Ao Ministério da Fazenda, para que expeça as precisas ordens, a fim de que no tesouro nacional seja paga a Francisco José Fialho a subvenção estipulada na condição 7ª do contrato de 1.° de dezembro de contar do dia 27 de janeiro do corrente ano em que o Passeio Público foi dado por pronto, embora tenha ele de ser franqueado somente no dia 7 de setembro próximo vindouro, levando-se essas despesas às verbas a que se refere o § 51 do art. 2.° da lei do orçamento do exercício de 1861 a 1862 e 1862 a 1863.

“— Ao mesmo, para ordenar que ao empresário das obras de restauração e conservação do Passeio Público desta corte, Francisco José Fialho, seja paga pela verba a que se refere o § 55 do art. 2.° da lei do orçamento a quantia de 5:550$000, proveniente de diversas obras acrescidas, e que não foram incluídas no contrato celebrado em 1.° de dezembro de 1860, sendo 3:500$000 pela construção de uma ponte de ferro em substituição de uma de madeira, 1:800$000 pela de seis pedestais para as estátuas e 250$000 pela de um repuxo.

“— Ao mesmo, comunicando que o governo, concordando com sua informação constante do ofício da mesma inspetoria de 4 de fevereiro próximo passado, relativo à abertura do Passeio à concorrência do público se expedem nesta data ao tesouro nacional as precisas ordens para que Francisco José Fialho, empresário das respectivas obras de conservação e reparação, comece a perceber a subvenção estipulada na condição 7ª do seu contrato desde o dia 29 de janeiro do corrente ano, em que o dito Passeio foi dado por pronto “.

Dr. Semana.

CARRAPATOS POLÍTICOS

Escrever a crônica dos insetos parece uma das missões mais difíceis a que se pode propor um homem, que, pelo menos, tem consciência de nunca ter sido inseto.

Compreendem todos que, sem ter passado pelas provas da experiência, é muito raro dizer coisa com coisa a respeito do que apenas se vê em outros que não são da nossa espécie. Difficile rem postulasti.

Há insetos que merecem particular menção, mesmo quando a atenção humana se aplica a outras coisas mais graves e mais sérias. A insectologia não é uma ciência inútil e despida de interesse; pelo contrário, prima entre os demais ramos da zoologia, porque se ocupa apenas com seres tão diminutos e microscópicos que nos obrigam a dar de mão a todos quantos mastodontes nos apresentam diante dos olhos, só para fazer dos bichinhos um estudo especial.

Vê-se perfeitamente que Deus, depois de formado o grandioso da Criação, quis também mostrar a sua divina perfeição dando vida aosátomos da matéria. É grandeza descer até os insetos!

O inseto não é uma excrescência na vida do Cosmos, é uma verdade da harmonia estabelecida pela mão de Deus. Perguntai ao inseto por que existe. Dar-vos-á ele: — Porque existe o homem.

Era preciso o contrabalanço nos seres surgidos do caos. O elefante erguia a tromba, o condor esvoaçava entre as nuvens, a baleia chafarizava nos mares, a boa constritor desenrolava-se nas estradas. O inseto tornava-se uma necessidade. Entre as miríadas de insetos, que volteiam nos ares, chamejam nas ervas, escorregam pelos charcos, animalizam a atmosfera, ou se entranham pelas carnes, distingue-se o carrapato, que, pelo seu perfume (ao princípio asqueroso, mas depois reconhecido como muito suave e medicinal), e pela forma chata e arredondada do seu corpo, faz-se querido e apreciado do homem, que, se não for ingrato, deve mostrar-se reconhecido à amizade que lhe consagra, prendendo-se-lhe ao corpo e sugando-lhe o sangue.

O característico do carrapato é agarrar-se a uma raiz de cabelo e... esquecer-se de que deve ocupar-se de outras coisas. Ninguém sabe mais notícias dele, e também não as dá de si. Quem o deixar sossegado pode ficar certo de que ele não se incomoda e nem deixa a raiz do cabelo protetor.

À semelhança desses insetos, há também, no mundo social, alguns indivíduos, que se atracam aos seus semelhantes e que fazem deles verdadeiros mártires. Tomar-lhes conta fora a maior das loucuras, porque seria isso um pé de cantiga para demorarem-se-nos ao cachaço mais algumas horas.

Pelos salões aparecem desses carrapatos. Quando virem um janota de luneta ao olho, de bigode empomadado, de garras cor de rosa e de juba heliotrópada, procurando termos escolhidos, frases de folhetim ecitações de folhinha, não perguntem como se chama. É um carrapato de salão. Pobres moças, que os sofrem!

Há velhos, desdentados, de gravata branca com o nó amarrado de um lado, fedorentos de rapé, remelosos de um dos olhos, de sobrecasaca de gola de veludo, e de bengalásio de cana com castão de carranca, que só falam em noivos, enxovais e força, e arregalam o olho para uma mesa de voltarete. Esses também são carrapatos, mas de salas de jogo. Livre-se alguém de lhes cair nas antenas.

O militar, de bigode cortadinho em roda do beiço, de gravata de crina, e de colete de pano azul guarnecido de botões de ouro, que só conversa a respeito das suas campanhas, cicatrizes e galinhas, é um carrapato de toda a parte.

Qualquer padre que, longe de ir ler o breviário, anda de sobrecasaca e voltinha, com a coroa feita na véspera e sapato de fivela: é, nas salas de jantar e nas de engomado, um prestimoso carrapato.

O curioso sem voz, e que nunca aprendeu a cantar, que, cheio de momos e medeixes, se atira a um piano, sem maior empenho, e canta uma noite inteira, aborrecendo a todos os que querem conversar sobre eleições, balões, ladrões e outras coisas dos mesmos consoantes: é um carrapato dos mais terríveis, porque, morde, chupa

o chá e aborrece.

O estadista que conta mil histórias sem cunho de verdade, escarra pelos cantos, palita os dentes, mente e sorri com ares de confidência, puxa o colarinho, passa a mão pela calva, endireita os óculos, fala no Peru e na colonização, nas presidências de províncias e nas demissões da alfândega, no déficit e no câmbio, nas flores de seu jardim e nas chuvas de setembro, nos burros do carro e na imprensa, e por fim ronca em um braço de sofá: é um dos maiores carrapatos da nossa sociedade.

Há milhares e milhares de outros. Ponham todos a mão na consciência, e digam-me se não têm um tanto ou quanto de carrapatos.

A esses carrapatos todos, acima referidos, pode dar-se o nome de — carrapatos políticos — porque são bem criados e atenciosos.

Há ainda um último carrapato, voraz e que se filia àqueles com quem tem relações. É um rapaz bonito, ninguém o pode negar, cheio de espírito, engraçado e conquistador; veste com gosto, usa perfumes e tem criados de libré. É amigo do seu amigo; inimigo dos guardas-fiscais, por causa da limpeza das ruas; censor da polícia por amor dos ratoneiros; dedicado aos Vasques, porque é moleque; apreciador do belo sexo; entusiasta das moças morenas e de cabelos pretos; amante das claras de olhos azuis; bebedor de todas as taças e cheirador de todos os perfumes. Esse grande e eminente carrapato político, porque respeita, venera e elogia as moças e as velhas (idosas), os homens e os meninos, os ricos e os pobres, os sábios e os não sábios, os magros e os gordos, os altos e os baixos, os bisolhos e os caolhos, os bonitos e os feios, os ministros e os promotores (com licença do Dr. Guanabara, por causa do estilo); é sem tirar nem pôr o Dr. Semana, quando se vê apertado e não tem matéria para encher as suas quatro páginas de texto.

Dr. Semana.

CARTA AO SR. CHRISTIE

8 DE FEVEREIRO DE 1863.

V. Excia., já jantou? ainda não jantou? Dúvida terrível, que me fez vacilar na remessa desta carta, porque se já jantou é triste para mim ir perturbar a mansa digestão de V. Excia.

Um beefsteack, e dois ou três cálices de vinho (daquele da Tijuca) uma vez caídos no estômago querem ser satisfeitos em paz e sossego; acomodam-se ali dentro, e enquanto o dono, se é súdito de Sua Majestade, como V. Excia., suspira pelas margens do Tâmisa, vão se desfazendo mansamente, e vai subindo a parte vaporosa ao cérebro... Mas aí estou eu a ensinar o Padre Nosso ao Vigário: há de

V. Excia. perdoar, mas isso provém de fazer eu respeitar em V. Excia. até o estômago.

Como talvez ainda não tenha jantado, consentirá que eu manifeste as dolorosas impressões que me sugeriu a leitura de um artigo do Diário, onde se anuncia a retirada de V. Excia.. V. Excia. vai partir e nos deixa. Sabe quanto sinto? quanto sofro? ou, economicamente falando, quanto perco? Que assunto para a imaginação caprichosa do meu desenhista era V. Excia.. E agora que ainda está de notas para cá e para lá, como mulher que brigou e quer falar por último, como isto não dava matéria para as minhas quatro páginas!

V. Excia. há de lembrar-se que Molière escreveu boas comédias, não só por ser um gênio, mas por ter matéria com que enchê-las. Esta Semana Ilustrada, que é comédia hebdomadária deste seu criado, tinha farto assunto. Alguns inimigos meus, para abater-me, chamam a minha folha pura farsa; mas eu repilo a designação, não só por mim, como por V. Excia., a quem fere diretamente e a quem os malévolos poderiam aplicar os derivados, como farsola, etc..

Mas V. Excia. vai partir e isto me dói mais que tudo. Partir! Deixar esta terra, onde V. Excia. via o céu, para onde não sabe se irá depois de morto, e ir meter-se entre os nevoeiros de Londres! É duro, Exmo. Sr.!

O meu moleque, que é instruído, lembra-me que, partindo V. Excia., nem assim ficaremos desprovidos de assunto, porque as personagens como V. Excia. ficam sempre na história, e por muito que se diga mais fica por dizer. Esta razão me consola, e praza a Deus que, sempre fiel, possa a nossa memória reproduzir nestas páginas, como exemplo a futuros ministros, a interessante e original verônica de V. Excia..

Aproveito a ocasião para renovar a V. Excia. os protestos de minha mais alta consideração.

Dr. Semana.

SEMANOPATIA

NOVA MEDICINA DESCOBERTA PELO DR. SEMANA 15 DE MARÇO DE 1863.

Irmãos universais!

A imensidade dos meus conhecimentos e as altíssimas virtudes que me franjam cidade. Traz a bolsa vazia, mas o estomago cheio... de fome. Nem um real na algibeira! E os acicates de Tântalo a lhe esporearem as entranhas!

A moléstia é grave, porém o remédio que passo a apontar também é infalível.

Vem um padeiro com o seu cesto artisticamente envolto num vistoso cobertor vermelho. O meu semelhante aproxima-se e trava com o padeiro o seguinte diálogo:

— Quantos pães por quatro vinténs?

— Dois.

— Só dois?

— Não contando a vendagem, que se dá de graça.

— Ah! dá-se de graça. Bem; nesse caso, levo agora a vendagem, virei amanhã buscar os dois pães e dar os quatro vinténs.

Outra receita: A intensidade do calor, a umidade da atmosfera e muitas outras causas fazem com que muita gente no Rio sofra das urinas.

Recipe — Quem se quiser libertar de tão horrível mal, mande-se vacinar, porque quem é vacinado não sofre da bexiga.

Outra, contra a fome:

Recipe — Quem se quiser livrar de tal martírio, peça ao vizinho um fole, coloque o tubo entre os dentes, feche a boca e comece a soprar, soprar e soprar. Em menos de cinco minutos, sem ter despendido um vintém ficará de barriga cheia.

***

Última receita de hoje:

Recipe — O melhor remédio para não morrer de febre amarela é... morrer de outra moléstia.

Dr. Semanopata.

PARTE FORENSE

O Dr. Semana, formado em todas as ciências, membro efetivo, correspondente e honorário de diversas associações literárias, científicas, humanitárias, beneficentes, artísticas e bancárias, participa ao respeitável público, que abriu, no largo de S. Francisco de Paulo n.° 16, um escritório de advocacia, onde poderá ser procurado, a toda e qualquer hora, menos quando estiver dormindo. Encarrega-se de causas cíveis, crimes, comerciais e sem efeitos. Assegura resultado pronto e rápido em todos os negócios de que se encarregar, ainda que não seja favorável aos seus constituintes. Não é exigente, e apenas se contenta com o pagamento adiantado. Recebe no seu escritório os bacharéis que trocam as pernas pela rua do Ouvidor à espera do ano de prática; e prepara procuradores de causas, em menos de oito dias, e bem assim solicitadores e mais agentes dos Juízos. Faz requerimentos para a soltura de pretos fugidos, e para a emancipação de africanos livres. Conhece todas as fórmulas do foro, mesmo as mais extravagantes e absurdas, e tem, engarrafada e em barrilotes de quinto, a mais superior chicana, não afamada pelos apreciadores, etc., etc., etc..

Outrossim, desejando o referido Dr. Semana, ilustrar o respeitável público e dar-lhe conhecimento perfeito e claro da prática seguida nos auditores desta corte, oferece aos numerosos assinantes deste jornal as seguintes normas de requerimentos, que podem ser apresentados em qualquer Juízo ; convencido de que faz um serviço, facilitando os meios de penetrar no sagrado tempo da divina Astréia.

DIREITO CRIMINAL ALTAS QUESTÕES DO CRIME EM CASA ALHEIA

4 DE OUTUBRO DE 1863.

1.° Modelo de requerimento

Ilmo. Sr...................... (o título da autoridade).

Diz João Faz Formas, cidadão brasileiro e bem conceituado nesta cidade de... (o nome da cidade), onde mora desde que nasceu, por ter nascido de seus pais FF.... (os nomes dos pais), que foram bom cidadão e boa cidadoa, que, tendo a quitandeira F.... (o nome da quitandeira), preta forra, e estabelecida à rua de... (nome da rua) n.º..., vendido, para a casa do Suplicante, uma abóbora d'água, no dia... do mês de ... de 18 ... (toda a data), aconteceu que o Suplicante mandou preparar a referida abóbora com camarões, comprados, no mencionado dia, a F.... (o nome do peixeiro), estabelecido com banca à praça do Mercado (se houver, ou então) na praia de... , e por ter sobrevindo ao Suplicante, na madrugada do dia, em que comeu a abóbora com camarões, uma forte indigestão, que quase o levou à sepultura, entende o Suplicante que F.... e F.... (a quitandeira e o pescador) cometeram o crime previsto no art. 192, combinado com o art. 34 do código criminal, por isso que tentaram contra a vida do Suplicante; e portanto

P. a V.... que, recebendo a presente queixa, que o Suplicante jura, mande proceder à inquirição das testemunhas F.... , F...., F.... , F...., e F...

E. R. M

João Faz Formas.

2 .° Modelo

Ilmo. Sr. Dr......... etc.

— Diz Manoel Beef Batata, cidadão naturalizado (se o for), que, tendo há dois anos, pouco mais ou menos, comprado uma dúzia de talheres de osso ao negociante F...., estabelecido à rua de... n.°. , sofreu, no dia de ontem, um grave ferimento no pé, produzido pela queda de um garfo, que o espetou, estando jantando; e, como de semelhante ferimento poderia provir morte ao Suplicante, visto que, na opinião de diversos médicos, a gangrena ou o tétano seriam fáceis, entende o Suplicante que o referido negociante F.... cometeu o crime previsto no art. 192, por isso que se deram as circunstâncias do art. 16, § § 5, 8, 10, 15 combinado com o art. 34 do código criminal; e, portanto,

P. a V... que, recebendo a presente queixa, a mande distribuir e jurar, inquirindo depois as testemunhas F... etc. (5 testemunhas).

E. R. M.

Como procurador, Anzóis Carapuça.

3.º Modelo

Ilmo. Sr.... — Diz José de Tal, estabelecido com armazém de... à rua de... n.°..., que, estando gravemente doente de nervos, com expressa recomendação dos facultativos de se não alterar, visto que está impossibilitado de ouvir todo e qualquer barulho, entrou-lhe pelo armazém F.... cidadão ... (a nação) e vendedor de toalhas e guardanapos de linho, lenços de algodão e cambraieta, meias, etc., e, em altas vozes, começou a mercar a sua fazenda, e a perguntar se a queriam comprar; e, como entenda o Suplicante que o referido F.... procurou tentar contra a vida do mesmo, crime previsto no art. 192 combinado com o 34 do código criminal,

P. a V.... . que, recebendo a presente queixa, a mande distribuir e jurar, procedendo-se depois ao interrogatório das testemunhas F.... F.... e F...., etc.

E. R. M.

O advogado provisionado F....

Despachos

Quando o juiz é escrupuloso, despacha o seguinte:

“D. e J., proceda-se à inquirição de testemunhas no dia... a... horas, intimadas elas para virem depor na forma da lei, e conduzido o réu para vir assistir a ver-se processar”.

Quando não tem papas na língua, diz:

“Não tem lugar, porque não sou médico do Hospício de Pedro II, nem posso chamar a bolos o procurador (ou advogado provisionado), que poucas noções de direito mostra”.

ALTAS QUESTÕES DO CRIME DE HOMICÍDIO

Modelo n.° 1

Ilmo. Sr. Dr. Delegado de polícia de... (o lugar) — Diz João das Espertezas que tendo, no dia de ontem, mandado chamar o Dr. Sangria (médico) para ver-lhe pessoa de sua família, que se achava incomodada de dores de cabeça, aconteceu que o referido doutor, não atendendo ao chamado, entrou hoje pela casa do Suplicante, quando já não era preciso, e sem especial licença do Suplicante; e como seja tal crime previsto pelo código criminal,

P. a V.S. que, recebendo esta queixa, a mande autuar, marcando dia e hora para a inquirição das testemunhas F., F., e F.

E. R. M.

Como procurador, o advogado José das Tranquibérnias.

Modelo n.° 2

Ilmo. Sr. (a autoridade). Diz F...., que, achando-se em uma conferência secreta com o seu amigo F...., em sua casa à rua de... (o nome da rua), entrou-lhe, sem especial licença, seu irmão F...., indo perturbar a sua conferência, e, como entenda o Suplicante que o referido seu irmão F.... cometeu o crime de entrada em casa alheia,

P. a V.... (o tratamento da autoridade) que, recebendo a presente queixa, a mande distribuir (quando há mais de um escrivão) e autuar, marcando dia e hora para o interrogatório das testemunhas F.... , F.... ( 5 a 8 testemunhas).

E. R. M

F.....

Despacho

A autoridade ordinariamente manda tais queixosos plantar batatas e estudar direito, ainda que tragam o Corpus Juris na algibeira.

PROCLAMAÇÃO DO DR. SEMANA

13 DE SETEMBRO DE 1863.

Cidadãos Assinantes da Semana Ilustrada! Saúde e felicidades. Hoje que o meu jornal começa o duodécimo trimestre, hoje que, longe de perigos, posso levantar a fronte, porque vejo a aceitação que tenho tido, cabe-me dirigir-vos frases de agradecimento e de admiração pela maneira distinta e significativa com que vos tendes apresentado no meu escritório; mas, sendo a ocasião própria para a maior franqueza, cabe-me também dizer-vos que só a vontade de ferro dos meus progenitores, os Irmãos Fleiuss, é capaz de sustentar esta folha, sem que até hoje se tenha dado a menor falta, por isso que o budget da Semana oferece em seus balanços sempre uma receita, que mal chega para despesas! Não vos espanteis; eu me explico:

Se todos os Srs. Assinantes fossem prontos no pagamento de suas assinaturas, se grande número de cidadãos entusiastas dos bons bocados se animassem a procurar o meu jornal no meu escritório, e não nas casas dos amigos, se a carne verde estivesse mais barata (apesar das estiradas correspondências do Jornal do Comércio), e se outros objetos de custo, como sejam pão, feijão e farinha, se vendessem pela metade, poderia desde já afiançar que a Semana deixaria lucro, sendo eu até capaz de diminuir o preço das assinaturas.

Mas ...

Tenho dito.

Viva a Semana Ilustrada!

Vivam os assinantes que pagam!

Viva!

O Dr. Semana.

CIRCULAR AOS NOSSOS DEPUTADOS

11 DE OUTUBRO DE 1863.

Ilmos. e Exmos. Srs. — É com o maior acatamento que me dirijo a vós, Srs. 120 deputados, para apresentar-vos o programa, que hei de com toda a restrição seguir, durante o quatriênio em que tiverdes de monopolizar os destinos do país.

Prometo, desde já, aprontar o lápis e a pena para acompanhar, com toda a atenção, os importantes trabalhos da rua da Misericórdia, não me escapando o mais pequeno incidente, digno de publicidade.

Preparai, portanto, as línguas, e eu serei convosco.

É necessário que doteis o país de leis, que, longe de molestar as algibeiras dos particulares, possam engrandecê-los e torná-los verdadeiros habitantes de uma nação, em cuja capital se começa a adaptar o grande melhoramento da drainage.

E.R.M.

Dr. Semana.

CORREIO DA SEMANA ILUSTRADA

29 DE NOVEMBRO DE 1863.

Carta que o Dr. Semana dirigiu a uma senhora, moradora para as bandas da Tijuca.

Sra. D. H. — Sou muito apaixonado pelo belo sexo, e ele faz de mim gato-sapato, mas, quando qualquer dos anjos que o compõem se torna maligno e diabólico, esqueço todos os atributos que me encantavam, e digo-lhe verdades, embora fique mal comigo. Desculpe, portanto, a ousadia que tomo de dirigir-lhe, pela primeira vez (mas não última) esta cartinha. Entremos em matéria, sem mais demora.

Acusam a V. Excia. de ser bárbara para uns pobres negrinhos e uma moça que tem em casa. A vizinhança diz que ouve continuamente o látego nas costas dessa infeliz gente. Não acredito, minha senhora, e nem quero meter-me na vida privada, porque não é esse o meu ofício; mas, vendo-a tão acusada, animo-me a comunicar-lho para que tome suas providências a fim de esmagar os caluniadores, que a desacreditam. Felizmente, essa notícia veio a mim, que não me animo a publicá-la no meu jornal, que só faz rir e não chorar; porém pode qualquer desesperado mandar para alguma folha diária a publicação das barbaridades e judiarias, que dizem, e não acredito, são praticadas por V. Excia.

Espero que não levará a mal a precaução, que tomo, de nada dizer pelo meu jornal e nem publicar o seu retrato que me foi remetido e existe em meu poder.

Adeus, minha senhora, acredite que estou sempre pronto a cumprir as suas ordens como

De V. Excia.

criado e venerador

Dr. Semana.

MANIFESTO DO DR. SEMANA AOS ASSINANTES DO SEU JORNAL

6 DE DEZEMBRO DE 1863.

Prezadíssimos amigos e correligionários!

É sempre com o maior prazer que pego na pena para dirigir-vos as manifestações do meu reconhecimento e da minha gratidão. Necessito de vós, preciso da continuação de vossos bons ofícios.

Não vos admireis, pois, que, no 156° número do meu jornal, escreva algumas linhas mais açucaradas e melífluas, em cujas pontas imperceptíveis anzóis estão presos para pescarem as vossas assinaturas.

Quando a Polônia sacode a poeira do absolutismo, que ameaçava sepulta-lá, como outrora a lava sepultou Pompéia e Herculano, e mostra os dentes podres e chumbados ao autocrata, que, por não ser cirurgião-dentista, não compreende o gracejo e esmaga-a com a unha do dedo grande do pé esquerdo; quando Roma, ajoelhada às plantas biliáceas do Santo Padre, maldiz Antonelli, jejua, bate nos peitos e espingardeia os soldados franceses, que tomam banho nos rios, porque lhes faltam banheiros como os do Bom Jesus e do Hotel Ravot; quando a Inglaterra vê, de braços cruzados, uma Vitória cair de outra vitória, enquanto Sir Christie, em asmáticos acessos de melancolia diplomática, enche as escarradeiras do seu bed-chamber para despejá-las no pacífico do Brasil, que o deixou partir com a mesma derme nasal, que trouxera da velha Albion; quando a Espanha estremece de júbilo ao ver passar a ex-Tebana ao lado direito de Isabel, enquanto milhares de Castelhanos expõem a vida e na Praia das Frechas; quando a França empomada e estica o bigode, e parodia para todos os lados do globo a frase de Cambronne: La France mord, mais ne se rend pas; quando a Itália canta o Viva Garibaldi e aplaude

o milagre de S. Genaro; quando Portugal delira por causa do nascimento de D. Carlos e não se importa de perder centenas de contos no insignificante empréstimo contraído; quando o México pisca

o canto do olho ao arquiduque Maximiliano e manda Estrada e outros pândegos dar um passeio a Viena, para se convalescerem do susto, que lhes causara Juarez; quando os Confederados passam a perna pelo Potomac, enquanto Lincoln masca um pedaço de tabaco; não é muito que a Semana Ilustrada sinta uma grande comoção ao chegar à última estação do 3.° ano! As lágrimas devem ser copiosas, porque o assunto é sublime e digno de uma epopéia em prosa.

É sempre grato, para o coração bem formado, dizer aos amigos, que são amigos, um adeus de despedida, já que, por uma infelicidade inexplicável ou por um caiporismo sem significação, a Semana Ilustrada não pode mais continuar ... no 3.° ano, e vê-se forçada a começar o 13.° trimestre ou 4.° ano!

O que fazer, Prezadíssimos amigos e correligionários? Seguir o destino, e deixar que o meu jornal corra a brilhante carreira, que lhe está traçada por entre flores, pérolas e perfumes.

Assim, portanto, participo-vos que a Semana Ilustrada vai entrar no seu 4.° ano de existência, e, por tão justo motivo, ao deixar o 12.° trimestre, mando celebrar um solene Te-Deum na igreja de S. Francisco de Paula.

Prometo, desde o n.° 157 até o n.° 208, escrever a favor do comércio, da indústria da agricultura, da política, das artes, das ciências, das letras, das tretas, das ruas, das praças, dos becos, dos largos, dos fiscais, dos teatros, das câmaras municipais, dos permanentes, da armada, do exército, das finanças, dos veículos, do asseio público, da polícia, do clero, do povo, dos advogados, dos médicos, das parteiras, dos senadores, dos deputados, dos alfaiates, das camiseiras, das irmandades, dos jornalistas, dos colégios (em geral), dos capitalistas, dos banqueiros, dos proprietários, da guarda nacional, dos carniceiros, dos solicitadores, dos engenheiros, dos construtores, dos estaleiros, dos náuticos, dos homeopatas, das casas de saúde, dos dentistas, dos pedicuros, dos veterinários, dos boticários, dos taquígrafos, dos pintores, dos estatuários, dos professores de línguas, das bordadeiras, dos esgrimidores, dos ginásticos, dos músicos, dos afinadores, dos organistas, dos arquitetos, dos guarda-livros, dos agentes, dos contadores, dos negociantes, dos consignatários, dos mercadores, dos livreiros, dos aferidores, dos ourives, dos cerieiros, dos chapeleiros, dos charuteiros, dos bengaleiros, dos coristas, dos droguistas, dos curtidores, dos fruteiros, dos cerniceiros, dos armadores, dos lojistas, dos ferragistas, dos gravadores, dos marmoristas, dos fogueteiros, dos louceiros, das modistas, dos cabeleireiros, dos barbeiros, dos tabaqueiros, dos arrieiros, dos sementeiros, dos cutileiros, dos tintureiros, dos lapidários, dos cambistas, dos rebatedores, dos leiloeiros, dos despachantes, das floristas, dos trapicheiros, dos cocheiros, dos carros, dos tílburis, dos carroceiros, dos bauleiros, dos banheiros, dos belquiores, dos galvanistas, dos botiquineiros, dos calafates, dos pedreiros, dos caldeireiros, dos carpinteiros, dos colchoeiros, dos confeiteiros, dos corrieiros, dos amoladores, dos fotógrafos, dos douradores, dos empalhadores, dos azeiteiros, dos empresários, dos encadernadores, dos engarrafadores de vinhos, dos esculpidores, dos espelheiros, dos esmaltadores, dos espingardeiros, dos asfaltadores, dos queroseneiros, dos seleiros, das lavadeiras e engomadeiras, dos funileiros, dos maquinistas, das coleteiras, dos marceneiros, dos rolheiros, dos sebeiros, dos vinagreiros, dos foleiros, dos joalheiros, dos ferreiros, dos sineiros, dos picheleiros, dos gaioleiros, dos pasteleiros, dos hoteleiros, dos lampistas, dos litógrafos, dos bombeiros, dos canteiros, dos oleiros, dos padeiros, dos cenógrafos, dos relojoeiros, dos salsicheiros, dos serralheiros, dos urubus, dos tamanqueiros, dos tanoeiros, dos torneiros, dos vidraceiros, dos violeiros, dos pedestres, e mais entidades, que se oferecerem à minha pena.

O meu programa cifra-se na seguinte frase de um grande estadista: — Justiça a todos e favor ao meu moleque.

Dixit. Dr. Semana.

CIRCULAR AOS MUITO ILUSTRES ASSINANTES DA SEMANA

ILUSTRADA

Digitus Dei est hic.

Preclarrísimos senhores assinantes.

Já que Deus permitiu que a quarta idade Começasse o jornal, que esta cidade Por Semana conhece; já que o povo Veio em chusma dizer que o ano novo Desejava assinar, pois que é notório Ser eu, em todo o mundo — papelório, Exato cumpridor dos meus deveres; Alço a fronte, me esqueço dos prazeres, P'ra vir aqui dizer que o quarto ano Será dos outros todos soberano.

Sim, a c'rôa terá — seu nascimento É saudado na véspera do abrimento Das sessões dos preparos p'ra o fabrico Das leis do salvatério! — Ano tão rico Jamais sobre as cabeças brasileiras Pairará ensopado em frioleiras! De palestra oito meses — leis, decretos, Moções, requerimentos, mil projetos, E no fim — liberais, conservadores, Vermelhos, amarelos, de mil cores, Para a terra natal voltando, aflitos Das lutas, que tiveram — dos conflitos Por causa das patentes, das comendas, Das cartas de vigários, das prebendas, Que o povo eleitoral, antes do pleito, Com os olhos p'ra urna e a mão no peito, Às dezenas prometem — a pátria julgam Bem salva pelas leis que não promulgam!

Salve o ano feliz, que em doze meses Verá sair cinqüenta e duas vezes A Semana Ilustrada! Salve o ano No qual toda a gente um grande cano Terá p’ra não morrer mais afogada!... Sobre o ano feliz, em que a boiada ... Mas que digo? — convém que hoje repita Tanta coisa sublime, tanta dita, Que imortal tornará o quarto ano Da Semana Ilustrada? — Sou humano, Tenho pena de vós, bons assinantes, E, portanto, calado, quero antes

À vossa perspicácia entregar puros Da pátria e da Semana os dois futuros. Refleti, ainda é tempo. — A flor não morre Se vida o sol lhe dá — se aragem corre. Necessito de vós, pois sois o espeque, Que escora o meu jornal e o meu moleque. Vossos nomes mandai, vossa morada, Que o Almanak tereis — se não... mais nada. Que mais posso pedir?... apenas lembro Que estamos 'no começo de dezembro.

Dr. Semana.

NOVIDADE

17 DE JANEIRO DE 1864.

Humanitário, como deve ser todo aquele que se dedica aos seus semelhantes, não posso deixar de publicar a seguinte carta, recebida de um dos meus assinantes de Niterói. Tenho sempre prazer quando transcrevo destas e doutras publicações, mandadas por tão bons pagantes. Não declaro o nome do meu amigo, porque S.S., ou por modéstia para livrar-se de elogios, ou por uma timidez indesculpável, pediu-me positivamente que o suprimisse.

“Meu bom amigo Dr. Semana. — Praia Grande, 12 de Janeiro de 1864. — Desejo que V. Excia. tenha gozado etc........................................ ............................................................................. ...................................

“Vou pedir a V. Excia. um grande obséquio e estou convencido de que não deixará de servir-me. Ei-lo:

“Pode publicar, na sua conceituada e mais que lida e procurada folha, que o remédio, inventado ou descoberto pelo ilustrado e enciclopédico Dr. Francisco Gomes de Freitas, à rua da Carioca n.° 118, para curar as sobreditas ou meninas, é um dos maiores porretes para tais enfermidades. Sim, sim, e três vezes sim!!! Se a caparrosa verde pode as uvas curar e o bicho matar, sem mais nada restar, por analogia se deve apostar que a choux-fleur, tão apreciada pelos médicos, com a bisnaga deve murchar.

“Os invejosos e todos os que, capazes de negar até a sua deliciosa mãe são, fingem nos remédios do ilustrado Dr. Freitas não acreditar, mas, desde no campo de Ourique de Cristo a aparição até hoje, ainda um ente tão humanitário e universal não se pode encontrar. Não, não e não!!

“A bisnaga* (que ninguém podia acreditar e para remédio usar) é um dos específicos mais poderosos para quem com dores de cabeça gritar e vontade tiver de flatos deitar, ou da sala para a cozinha andar. Basta nos bolsos das calças botar, ou no pescoço pendurar. Tenho um vizinho, mais para baixo do que para cima, que era mártir nas ocasiões de luas (o Dr. Freitas terá a bondade de confessar, ou estudar, se ainda reparo não fez, que os ataques nessas ocasiões mais fortes são). Pois, meu senhor, a bisnaga, que ao Dr. Freitas foi implorar, fez-lhe o grande milagre de, para sempre, em três horas, o curar. Minha tia, que nasceu onde o corpo de meu saudoso avô jaz, que das sobreditas faleceu, porque a bisnaga não era conhecida, o remédio empregou, e já pimentas e pimentas provou, e carne cozida com abóbora e repolho e paios jantou, e os incômodos costumados não experimentou. Eu, tendo a tantos curativos assistido, muitas bisnagas nos bolsos trazer entendi, e hoje, graças ao ilustrado e humanitário Dr. Freitas, trago as tais flores secas nos bolsos das calças, dos coletes, das casacas e até no bolsinho do relógio.

“Glória, glória ao único homem, que os seus negócios comerciais e honestos esquece, e em cima dos livros fenece, quando a humanidade padece e dele carece!! Possa a fama o nome de tão distinto filantropo nas páginas da nossa história e da de Portugal gravar, e a par das bisnagas e da caparrosa (descobertas suas), uma estátua em todos os intestinos levantar, já que qualquer bom vinho pode provar, e os emolientes desamparar. Esse homem é o irmão universal de toda a geração atual, e, por conseqüência, tio de toda a que há de vir.

“ Adeus, Exmo., mande suas ordens a quem é com respeito

“De V. Excia. etc.”

À vista do testemunho do amável Niteroiense, convido os meus leitores para que se munam de bisnagas na rua de S. Pedro, defronte da casa do falecido Sr. João Pedro da Veiga.

Ainda não experimentei esse remédio, porque (felizmente sou como as minhas leitoras) não sofro desse mal; porém não posso deixar de confessar que esta gente da corte inventam coisas que fazem abrir a boca. O Sr. Dr. Francisco Gomes de Freitas é uma pessoa sisuda e digna de ser acreditada, e S.S. nos assevera que a sua bisnaga é um poderoso reagente contra as moléstias subterrâneas.

Dr. Semana.

CARTA DO DR. SEMANA AO FILÓSOFO HERMOTIMO

7 DE FEVEREIRO DE 1864.

Senhor. — Quis arvorar a Semana Ilustrada em comício popular com o

fim de instituir debate sobre a proposta de colocar a preguiça à destra da Minerva em substituição do noturno guinchador.

Neste sentido dei alamiré à minha formosa legião de colaboradores.

Estes, porém, com a sinceridade, que nunca vi desmentirem, e como se tivessem passado parla entre si, acabam de me responder, que votam contra a substituição, visto como lhes parece tirania desempoleirar a coruja, há tantos mil anos símbolo da meditação, para enobrecer o quadrúpede peludo, emblema permanente da indolência, antítese da atividade, contraste da energia, qualificativas de nossos numerosos escritores, em cujas línguas todos os dias baixam as de fogo, que deram aos apóstolos o privilégio de evangelizar e persuadir com inimitável facúndia.

Vê, portanto, Sr. Hermotimo, que a sua proposta nasceu para morrer.

Rose ... elle a vécu ce que vivent les roses: L'espace d'un matin.

Competia-me presidir o comício.

A presidência vedava-me pronunciar-me, assim a favor como contra.

Entretanto, lembrando-me dos serviços, que prestou durante a sua peregrinação por todos os mundos sem excetuar o da lua, eu já tinha preparado o moleque para recitar um discurso de arromba, superior a qualquer dos de Demóstenes contra Felipe ou dos de Cícero contra Verres e Catilina.

O moleque havia de brilhar como tem brilhado muitos oradores negativos, incapazes até de ligar uma idéia.

Isto aqui entre nós, que ninguém ouça.

O moleque daria pancas, porque este meu núbio tem decidida queda para tudo quanto destaca perfume de generosidade e é fora do comum.

O traquinas é das Arábias. Se o não contivesse, ia longe. Acho-o com disposição até de revolucionar-me a Semana, de pôr tudo em polvorosa.

Estou do lado da proposta. Simpatizo com ela.

Há nesta terra da Santa Cruz talentos a granel, inspirações por dá cá aquela palha, habilidade a mãos cheias.

Mas também há vaidade por aí além.

Qualquer rapazote, ledor de romances da terra, julga-se o Hércules da literatura, vencedor de trabalhos, cada qual pelo menos igual aos doze daquele semi-deus, e como ele, bipartindo a pedregosa garganta do Mediterrâneo, escreve nas colunas improvisadas — non plus ultra.

Está tudo feito. Daí por diante, esse privilegiado vai caminho de Canaã. Apanha chuva de maná muito melhor que a de arroz.

Pobre rapaziada de talento!

Fica estacionária, vive das tradições de ontem, como se fossem de séculos passados; e, quando sobem à pira, não é porque a túnica do centauro os desespera, é porque a glória já os tem cansado na safra de louros virentes.

Mas que quer que lhe faça, Sr. Hermotimo?

Não posso, nem devo encontrar os desejos da minha esplêndida falange.

Ela faz guerra à preguiça quadrúpede.

Eu não posso deixar de gritar com toda a força dos pulmões: — Morra a preguiça! embora a manhosa nem uma só polegada desça do pau.

O Sr., enquanto em corpo andou cá por este vale de cardos e carrapichos, fez das suas, parecia medium endiabrado. Mistificou a meio mundo.

Agora, em espírito, vaga lá por esses orbes luminosos. Deu muitas nos cravos, leve por tanto uma na ferradura, que ainda não é desforra.

A cabeças, como a sua, não faz mossa um coque, dado que seja com a clava de Alcides.

Não dê cavaco com a rejeição da proposta.

Resigne-se. Console-se com o mal das vinhas, contra a milagrosa bisnaga, ao qual principiam alguns ingratos e ingratas a fazer oposição.

Deixe a feia coruja continuar nas funções de caudatária de Minerva.

Reserve-se para melhor maré.

Com isso pouco perde e muito ganha.

O seu amigo e colega reverenciador

Dr. Semana.

BERNARDICES

14 DE FEVEREIRO DE 1864.

Infelizmente até hoje, apesar de terem sido publicados 165 números da Semana Ilustrada, há algumas pessoas neste nosso belo Rio de Janeiro que ainda não entenderam o pensamento que preside à marcha deste jornal.

A Semana Ilustrada não pretende ofender pessoa alguma, nem matar interesses e lucros alheios. É um jornal puramente humorístico, que até agora tem sabido guardar imparcialidade, preferindo proteger a atacar qualquer empresa, associação ou negociação particular.

Alguns gaiatos, talvez com a idéia de guerrear a Semana, espalharam que o último número atacara a empresa dos bailes mascarados do Teatro Lírico, para fazer-lhe mal, distrair-lhe a concorrência, e assim vingar-se não sei de que parvoíce. Ora, pelo amor de Deus! É preciso não conhecer a Semana Ilustrada!

Saibam, portanto, todos que sou amigo de um dos arrematantes desses bailes; que o tópico do artigo, que se diz ser contrário aos ditos bailes, foi escrito pelo Menino Diabo, que apenas pretendeu pregar um susto de Carnaval, tanto aos empresários como aos máscaras; que, finalmente, de cabeça bem alta, posso dizer, Urbi et Orbi, que nunca pretendi, não pretendo e não hei de pretender arrematar os bailes mascarados do Teatro Lírico. Não apareçam, portanto, apoplexias de medo.

É necessário que os meus leitores vejam sempre a Semana com os melhores olhos deste mundo, e que a entendam como deve ser entendida, e não como meia dúzia de crianças a quer por aí soletrar.

Estou superior a todas essas intriguinhas, mas não desejo que amigos meus se possam ofender, acreditando que sou capaz de molestar o menor mosquito, por inveja, ciúme, ódio, vingança ou... nem sei o quê.

Dr. Semana.

CORREIO DA SEMANA ILUSTRADA

CARTA PRIMEIRA 27 DE MARÇO DE 1864.

Ilmo. Exmo. Sr. Dr. Chefe de Polícia. — Tratado sempre com a maior delicadeza por V. Excia., que se torna distinto pelas suas maneiras atenciosas para com todos os que têm a honra de conversar com V. Excia., deveria ir pessoalmente procurá-lo para pedir-lhe um grande favor a bem da nossa sociedade; mas os contínuos afazeres, a que me entrego diariamente, privam-me desse prazer, e por isso lancei mão do meio mais fácil, e rápido, de comunicação, dirigindo-lhe esta carta, que, espero, será, cuidadosamente lida por V. Excia., a quem não falta bom senso e moralidade para decidir o que for mais compatível com os nossos usos, costumes e educação.

Há nesta cidade do Rio de Janeiro um estabelecimento, onde, todas as noites, por entre baforadas de fumo e de álcool, se vê e se ouve aquilo que nossos pais nunca viram nem ouviram, embora se diga que é um sinal de progresso e de civilização. Chama-se esse estabelecimento — Alcazar Lírico.

Apesar de velho, não sou carranca e retrógrado, e sei aplaudir todas as novidades que o estrangeiro nos traz, passando pela alfândega do bom senso, ou mesmo por contrabando, contanto que tenha uma capa de moralidade; mas quando essas novidades aparecem no mercado avariadas e cheias de água salgada, fico indignado, pergunto aos meus botões em que país estamos, convenço-me de que somos, na verdade, tidos por selvagens hotentotes, e imploro a Deus para que ilumine as cabeças que nos dirigem, a fim de que apliquem o ferro em brasa, na ferida, que começa a chagar-se pelo veneno que lhe inoculam.

Falo com esta franqueza, porque estou escrevendo a um magistrado morigerado e honesto, cujo principal desejo é bem merecer de seus concidadãos pelos seus atos de virtude e de rigorosa justiça.

Enquanto se proibia a todos os teatros de brasileiros — representações nas sextas-feiras da quaresma e na véspera e no dia de Ramos, consentia-se que o Alcazar tivesse o salão aberto para moralizar o bom povo, que o freqüenta! Se não há injustiça neste procedimento, seja de quem for, há pelo menos falta de equidade, que só redunda em proveito do francês, contra os brasileiros, que vivem na maior miséria, esmolando da concorrência dos seus teatros

o pão quotidiano.

V. Excia. dignar-se-á de explicar-me como se pode dar esse fato?

Rogo ainda a V. Excia. o especial obséquio de freqüentar essa casa de educação, não se contentando em mandar inspetores de quarteirão e mesmo o respectivo subdelegado. V. Excia. é um homem ilustrado, que conhece perfeitamente a língua francesa, e não só terá belas noites de divertimento, como fará um relevante serviço à sociedade em que vive, e onde tem milhares de relações com todas as famílias decentes e honestas do Rio de Janeiro, as quais, por uma infelicidade do empresário, nunca encontrará nessa Academia.

Desculpe V. Excia. a ousadia de escrever-lhe esta carta, e permita que, d'ora em diante, lhe dirija muitas outras a respeito do meu protegido Mr. Arnaud e do seu especial e inimitável estabelecimento.

Por agora, contento-me com os pedidos acima feitos, esperando que não serão as minhas palavras atiradas ao vento.

Aqui me tem V. Excia. sempre pronto a cumprir as suas ordens como quem, com todo o respeito e consideração, é

De V. Excia. amigo, afetuoso e obrigadíssimo criado

Dr. Semana.

CARTA SEGUNDA 3 DE ABRIL DE 1864.

Ilmo. e Exmo. Sr. Conselheiro Presidente do Conservatório Dramático.

— Sou o primeiro a reconhecer que não me cabem direitos para ir importuná-lo e distraí-lo dos seus importantes labores; mas V. Excia. que, há anos, é meu amigo e me tem disso dado exuberantes provas, permitir-me-á o desembaraço, na certeza de que somente as nossas íntimas relações me autorizam a dirigir-lhe esta carta, a qual, espero, será lida com toda a atenção por V. Excia., que, na opinião de todos os que têm a ventura de trocar falas com V. Excia., é um cavalheiro muito distinto e extraordinariamente delicado. Releve, pois, a ousadia, e decida, em sua sabedoria, se é possível atender ao pedido, que lhe vou fazer.

Em primeiro lugar, tenho a dizer-lhe que sei que V. Excia. não pertence à escola do realismo. É isto um grande argumento a meu favor. Vamos ao pedido:

Este nosso Rio de Janeiro, Exmo., é o poço onde vêm cair todas as caçambas vazias do estrangeiro. Para felicidade dos nossos civilizadores, saem sempre com as tais caçambas cheias de dinheiro, e... deixam-nos com caras indefiníveis...

Na rua da Vala existe um teatrinho, barracão ou coisa que o valha, aque se chama Alcazar Lírico. Creio que V. Excia. não o freqüenta. É pena.

Nesse estabelecimento, fuma-se, bebe-se, espirra-se, assobia-se, grita-se, berra-se, canta-se, dança-se, representa-se, e... mais nada, creio eu. Já vê V. Excia. que é um divertimento de mão cheia.

A V. Excia. não cabe indagar quem lá vai, nem os inconvenientes que podem provir à moralização do nosso povo, da existência de semelhante colégio de bons costumes; mas, como presidente do Conservatório Dramático, pertence-lhe inspecionar se tudo quanto por lá se diz está permitido e licenciado pela censura.

Se nossos venerandos pais, Exmo., fossem vivos, horrorizar-se-iam ao saber do grande adiantamento, que vai tendo a nossa boa e sofredora sociedade fluminense com a representação das mais inocentes, puras e espirituosas produções dos teatrinhos parisienses. Infelizmente somos nós os vivos, e, graças aos bons desejos de civilização e de progresso, vamos assistindo, com ouvidos de mercadores, a todas essas gentilezas, importadas do velho mundo que tantas lições de moral e de educação nos tem dado, mercê de Deus!

O espírito, que por lá se repete, é tão grande, o sainete da frase é tão doce, e o gesto tão adequado, que, segundo creio, há mão alheia aperfeiçoando as plantas traçadas pelo Conservatório. Veja bem V. Excia. que isto não passa de simples suposição minha. Deus me defenda de dizer que é uma verdade. 0 Peço, portanto, a V. Excia., como supremo fiscal dos nossos teatros, que se digne, de quando em vez, de freqüentar esse santuário da moral. V. Excia. não faz esse obséquio unicamente a mim, falo-o principalmente a todas as famílias honestas e decentes do Rio de Janeiro, que não podem ver um divertimento na corte, donde mal entendidos prejuízos e censuráveis preconceitos as afastam, proibindo-lhes a entrada.

Sou o primeiro a estimar que existam muitos estabelecimentos destes; mas não me acomodo com a idéia de que não vão a eles todas as classes da sociedade. Será o culpado disso o Conservatório Dramático?

Creio intimamente que não, porque é composto de pessoas bastante ilustradas, que só licenciam composições dignas de serem recitadas nos mais finos e aristocráticos salões. Acho que é esquisitice dos nossos pais de família.

Desculpe V. Excia. o meu pedido, filho somente do desejo que tenho de proteger o meu simpático Mr. Arnaud e o seu inimitável e especial estabelecimento.

Continuarei a importuná-lo com outras missivas, contentando-me, por ora, com o que acima fica dito.

Julgo desnecessário dizer-lhe que da polícia espero tudo, e por isso vou escrever mais algumas linhas ao meu respeitável amigo o Exmo. Sr. Dr. chefe de polícia.

Aqui me tem V. Excia. sempre às ordens, com a melhor vontade, porque sou, pedida a necessária vênia, com o maior respeito e consideração,

De V. Excia. afetuoso amigo e obrigadíssimo criado

Dr. Semana.

CARTA TERCEIRA

10 DE ABRIL DE 1864.

Ilmo. e Exmo. Sr. Dr. Chefe de Polícia. — Apesar talvez de incomodá-lo com as minhas cartas, não posso deixar de pegar na pena, para escrever-lhe esta segunda missiva, a favor do bem conceituado e decente estabelecimento do meu simpático Mr. Arnaud, que se negou a consentir que Mlle. Risette cantasse no benefício de uma pobre escrava brasileira.

Mas voltemos ao Alcazar. As famílias honestas do Rio de Janeiro continuam a esperar de V. Excia. a extinção dessa casa de educação. Conheço um ilustre deputado que pretende apresentar na câmara um requerimento pedindo informações a respeito da utilidade desse estabelecimento.

Repare V. Excia. que é o único divertimento (menos praças de touros) a que se assiste com o chapéu na cabeça, com o charuto na boca, a garrafa de cerveja ao lado, e uma, duas ou três raparigas, lindas como os amores, sentadinhas em derredor da mesa. Que prazer! Que glória! Não falte, Exmo., porque há de apreciar muita coisa interessante.

V. Excia. que é tão bom, tão amável e tão atencioso para comigo, não há de deixar de satisfazer um pedido meu — Vá ao Alcazar!

Continuarei a incomodá-lo, por causa do meu Mr. Arnaud, esperando que V. Excia. tomará, no valor, que merecerem, estas missivas.

Sou, com estima e respeito,

De V. Excia.

Amigo afetuoso e obrigadíssimo criado

Dr. Semana.

SARAU LITERÁRIO

10 DE ABRIL DE 1864.

Ainda bem! Não há nada a dizer-se contra a semana. Ela foi verdadeiramente ilustrada por uma dessas festas íntimas que deixam sempre saudades.

A convite do Sr. conselheiro José Feliciano de Castilho, reuniram-se nos belos salões do Club Fluminense vários cavalheiros. Políticos, literatos, comerciantes, isto é, clero, nobreza e povo, tudo lá se achou representado. E os três estados funcionaram na melhor harmonia possível até 1 hora da noite.

E querem saber os leitores o motivo dessa reunião extraordinária? É simples. Tratava-se de fazes as despedidas a um homem de letras, o Sr. Dr. João Cardoso de Menezes Souza.

Ora, o motivo serviu esta vez de pretexto. E os convidados, os que faziam parte do batalhão literário, recitaram várias composições prosaicas ou poéticas, conforme a índole de cada um.

O moleque da Semana é doido por estas festas. Se não é assíduo à sala da recitação, não abandona a corte da sala do chá. Guloso como um verdadeiro moleque, prefere os bolinhos às poesias e o pão com manteiga à melhor prosa do mundo.

Contudo, fez-me uma revelação que não deixarei de comunicá-la, mesmo porque não guardo segredos de moleque.

— Por que não se hão de regularizar estes saraus, meu nhonhô, perguntou-me ele, e por que não convidar ao belo sexo para infundir

o gosto da literatura às nossas belas patrícias?

O moleque é um tanto desembaraçado, e fala das nossas patrícias como se fossem crioulas.

Seriamente não tive o que responder-lhe. E apesar de não esperar do meu moleque senão alguma boa molecagem, confesso que me pareceu mais a sua reflexão uma boa idéia.

A ela, pois, homens de letras: moços e velhos; o estimulo do sexo encantador faz homens e cria saraus.

Dr. Semana.

CORREIO DA SEMANA ILUSTRADA

CARTA QUARTA 17 DE ABRIL DE 1864.

Ilmo. e Exmo. Sr. Conselheiro Presidente do Conservatório Dramático.

— V. Excia. tem-se mostrado sempre tão benévolo para comigo que, espero, deve ter tomado sérias providências a respeito da última carta, que lhe escrevi, recomendando-lhe o meu simpático Mr. Arnaud, e o seu especial e inocente estabelecimento.

Creio que V. Excia. nunca foi ao Alcazar, mas uma vez é a primeira, e não só eu, como todos os meus amáveis leitores, muito desejamos que V. Excia. freqüente aquela casa de caridade.

Não sei o que se exige para que uma peça seja licenciada; mas a ver pelo que lá se representa, penso que tudo é lícito e admitido. É essa a opinião de V. Excia.?

O Alcazar não é unicamente um ponto de reunião, é também uma escola de costumes, e por isso o bom senso e a maior parte das famílias do Rio de Janeiro muito desejam que V. Excia., esquecendo, por alguns momentos, os seus grandes trabalhos noturnos, se dedique com assiduidade às mezinhas do Alcazar. V. Excia., que é em verdade filantropo, não deixará de condescender com o pedido deste seu velho amigo, que só deseja que V. Excia. mostre quanto é solicito em atender a uma pequena rogadella, filha dos desejos que nutro de ver nesta nossa terra alguma coisa que não seja de maus perfumes, trazidos pelo meu amigo francês da rua da Vala.

Adeus, Conselheiro; vá ao Alcazar e disponha como sempre de quem é com respeito

De V. Excia.

Amigo afetuoso e obrigadíssimo criado

Dr. Semana.

CARTA DO DR. SEMANA AO IMPERADOR DA CHINA

CALENDAS DE ABRIL DE 1864.

Celestial Senhor. — Pretendia escrever a Vossa Obesidade na linguagem de Confúcio, visto como sou poliglota superior a Pico de la Mirandola e ao cardeal Mezzofante.

V. O. deve de saber que, em questões de línguas, nada tenho de invejar às charqueada do Rio Grande do Sul.

Gorou-me, porém, o desejo a falta de tipos chineses neste império de terrícolas, aonde há multiplicidade de outros tipos; e é por isso que escrevo a V. O. no idioma português, ainda hoje falado pelos gafanos da Goa luso-chinesa.

O objeto da minha missiva, muito nobre descendente de Houang-ti, é comunicar a V. O. que muitos dos mandarins do Celestial Império ocupam-se por aqui em vender camalô e salinha em menoscabo da prosápia de que procedem e da importância política da sua nacionalidade.

Feita esta comunicação pelo meu correio dos mares dos tufões, espero em resposta ver, dentro deste ano da graça de 1864, arfar pela baía de Niterói uma invencível armada de juncos comandada pelo mais hábil Nelson de V. O para restituir aos lares celestiais os mandarins degenerados e obrigá-los assim a voltar às delícias da canga e do empalamento.

Sinto privar da presença de tão ilustres hóspedes a terra, que me viu nascer; mas não lhe vejo melhor gesto; sou cosmopolita em matéria de dignidade, e não pertenço à legião dos otimistas que enxergam nos silvícolas, além da qualidade de nobres, que eu tanto aprecio, os autores do grande melhoramento no carrego e pregão do peixe cru.

Atendei, Celestial Senhor, à minha comunicação; vede que nela vai o interesse de vossos domínios no tocante ao ópio e ao chá Lipton, tão grato a vossos aliados do gabinete de S. James.

Não deixeis, grande Chaça, apodrecer nos cortiços do Rio de Janeiro os vossos desertados fidalgos. Cangai-os de novo, ínclito, egrégio e magnânimo corifeu dos salamalecos: cangai-os e contai com os serviços e préstimos do humanitário e utilitário instituto da Semana Ilustrada, que desde já toma a peito tratar a China no pé das nações mais favorecidas.

De V. O. admirador profundo,

Dr. Semana.

17 de abril de 1864.

NOVIDADES DA SEMANA

24 DE ABRIL DE 1864.

O único meio que resta ao cronista de novidades, quando se acha em frente de uma semana estéril, é dizer francamente a verdade a seus leitores.

Entretanto, não podemos nós assim lavrar peremptoriamente uma sentença tão pesada contra os 7 dias que acabam de decorrer.

Graves sucessos foram neles anunciados e, em todo o caso, se não dão assunto para a galhofa, prestam-se, Deus o sabe, a movimentos expansivos de outra natureza.

Já não é segredo para ninguém. Está determinada a embaixada especial para o Rio da Prata. O ministro feliz não é o Dr. Semana, nem

o redator da Gazetilha do Jornal do Comércio, é o Sr. deputado José Antonio Saraiva, que leva por secretário especialíssimo o talentoso Sr. Dr. Tavares Bastos, que vai representar o Amazonas sobre as águas do Rio da Prata. A missão é de paz.

Começaram já os trabalhos da augusta salinha. Os deputados provinciais preparam-se para afiar a língua na pedra do orçamento provincial, sobre a qual pedra deve ser levantada a igrejinha da felicidade pública.

Como se vê, é um negócio simples, e que não há de cansar muito aos digníssimos representantes de serra abaixo e serra acima.

Houve pelos domínios da polícia uma balbúrdia dos nossos pecados. Foi um negócio complicado e cheio de peripécias tais a assombrar os próprios atores de S. Pedro, que estão agora representando ao vivo as aventuras e descobertas de Cristóvão Colombo.

Foi o caso que um marido enciumado, e que não está decididamente pelo divórcio dos casais, homem do seu ofício, pegou no formão, como no seu malhete simbólico, e sobre a cabeça da sua cara metade tanto bateu e martelou, que lhe introduziu nos miolos a sua crença inabalável de que o marido é sempre marido, mesmo quando a esposa não quer mais ser esposa.

Como este assunto, porém, está afeito aos tribunais, o Dr. Semana, que não é advogado que se inculque, só voltará a tratar dele quando se pronuncie a sentença.

Dr. Semana.

CORREIO DA SEMANA ILUSTRADA

CARTA QUINTA 1º DE MAIO DE 1864.

Ilmo. e Exmo. Sr. Dr. Chefe de Polícia. — V. Excia. há de ter indubitavelmente reparado no meu silêncio a respeito do Alcazar, pois acredite que é bem contra a minha vontade.

Fui a Petrópolis, e deixei o meu moleque encarregado de redigir a Semana, mas como não o autorizasse a dirigir-se a V. Excia., não se animou ele a escrever a continuação dos meus pedidos. Fez bem; porque sendo V. Excia. um cavalheiro tão distinto e digno da maior consideração, não desejaria eu que o meu moleque tivesse a ousadia de ir perturbar a V. Excia. nos seus sérios e importantes cuidados. Agora, porém, estou de volta, e por isso tomo a liberdade de pedir a

V. Excia. que se digne de dizer-me o que tem feito a favor do meu simpático e prezado Mr. Arnaud, e do seu exemplar estabelecimento.

Contínuo a dizer a V. Excia. que não sou carranca e que desejo o progresso do meu país, mas não seguindo a escola do realismo, não desejo ver certas coisinhas mostradas no teatro.

Os nossos maiores diziam que a roupa suja lava-se em casa, e por isso desde que imoralidade é roupa suja, não posso ver com bons olhos ela lavada à vista de todo o mundo.

Digne-se V. Excia. de ir ao Alcazar que há de ter momentos de verdadeiras comoções e então acreditará que eu não o estou enganando e que só almejo ver nesta capital espetáculos onde possam ir as famílias mais graves e honestas do Rio de Janeiro. Será difícil conseguir isto? V. Excia. decidirá, na certeza de que faz um serviço real aos bons costumes, à nossa sociedade moralizada e ao

De V. Excia.

Amigo afetuoso e obrigadíssimo criado

Dr. Semana.

NOVIDADES DA SEMANA

1.º DE MA1O DE 1864.

O Dr. Semana sai hoje fora do sério. Vai dar catanadas à direita e à esquerda, porque está de um mau humor desabrido.

Foi-se o sol e veio a chuva. Acabou-se a chuva e o preguiçoso do astro-rei mostra-nos apenas uma cara pálida e sombria, como de quem esteve a dormir por muito tempo e acordou contra vontade.

É verdade que, com sol ou chuva, os hábitos desta boa, leal e heróica cidade não se alteram.

Se o dia está calmoso os representantes da pátria não se reúnem na câmara para se reunirem no Carceller.

Se o dia está chuvoso, também não se reúnem, porque é mais gostoso ficar debaixo dos lençóis, do que se expor a apanhar alguma constipação.

E o pior é que lhes acho razão, conquanto o país e a grande imprensa entre já a queixar-se de tanto sueto e tanta cabula. Grita o Amazonas que quer abrir-se; grita o S. Francisco que não quer ficar fechado; grita a estrada de ferro D. Pedro II que está com sede e com vontade de beber água da Serra; grita o governo que quer créditos suplementares; grita o país que quer orçamentos, gritam todos enfim os que se julgam com direito a exigir do parlamento os serviços que lhes são devidos.

Só os taquígrafos e os oficiais da secretaria da câmara não gritam, e fazem muito bem, porque têm muita razão.

Para eles é indiferente que haja sol ou chuva. O que não lhes é indiferente é que não haja sessão. Títiros à sombra das suas faias, preferem tocar na rude avena a irem garatujar papel e aparar lápis.

Temos uma grande novidade a comunicar aos nossos leitores. Cristóvão Colombo, em carne e osso, com as suas caravelas de pau pintado, acaba de surgir em pleno teatro de S. Pedro, descobrindo o novo mundo e pondo um ovo em pé, com grande admiração e aplauso de todos os homens sensatos e ilustrados que não são pataus, e que por não pertencerem à confraria dos literatos medíocres, que se elogiam mutuamente, e nem à companhia do teatro de S. Pedro, de que é reformador e restaurador um homem extraordinário, que não é por ora conhecido, estão no caso de darem sobre esse drama monumental (onde aparecem 158 pessoas vivas!!) um juízo seguro e imparcial. Pois apesar de tudo isso, essa maravilha do século XIX ia passando despercebida se não fosse a agudeza de engenho do redator da Gazetilha, que tendo ido casualmente à platéia de S. Pedro, procurar o gato encantado do colar de pérolas, ficou embasbacado diante do prodígio e anunciou urbi et orbi o grande achado que fizera!

E foi uma fortuna. Porque este país não está preparado para tão grandes coisas. E com exceção de muito pouca gente de gosto que por aí existe, bem podem essas e outras maravilhas oferecerem-se à vista de todo o mundo que ninguém os aprecia.

Em compensação, anuncia-se no Ginásio uma coisa ruim, que eu não conheço, mas que, por força, há de ser muito vulgar e sensaborona, e sobretudo há de ter o defeito da casaca e da luva de pelica, e o de não mostrar em cena 158 homens, nem nenhum navio fazendo fogo ao vivo, mas para a qual desde já estão convidadas todas as pessoas de mau gosto do Rio de Janeiro. Essa coisa é nada menos que um novo drama do autor da História de uma moça rica, intitulado A punição.

Quem estiver disposto a deitar fora o valor de uma cadeira e perder algumas horas do bom sono, deixe de ir ver a descoberta do mundo novo pelo novo Colombo, e vá assistir à representação dessa maçada em poucos atos.

Soam os clarins da guerra no campo do funcionalismo. Diretores gerais e chefes de secção, primeiros e segundos oficiais, amanuenses e praticantes, porteiros e contínuos, tudo anda num fervet opus! Chovem os raios de Júpiter Tonante sobre as cabeças venerandas de todos os direitos adquiridos! O governo, que não é para graças, descarrega sucessivamente golpes tremendos sobre a hidra das sete cabeças e no meio de toda a lufa-lufa do temporal, sentem-se muitos ameaçados de um naufrágio completo nas praias inóspitas da miséria!

Este negócio é que é profundamente sério. A imaginação do Dr. Semana aterra-se diante do quadro lúgubre dessas decepções cruéis, e não tendo meio de oferecer alívio a tanta desgraça junta, toma o partido de fechar os olhos e de calar a boca.

Chiton!

NOVIDADES DA SEMANA

8 DE MAIO DE 1864.

Devo prevenir aos meus leitores que este artigo há de ser longo, pela importância dos sucesso da semana que aqui tenho de consignar.

Por isso, e para não cansar os leitores, ofereço-lhes aqui o resumo das matérias com que me vou ocupar.

Vou tratar da nova companhia lírica que está a chegar.

Apresentar a estatística das faltas e dos dias de trabalho da câmara dos deputados.

Do encerramento da 1.ª sessão e da abertura da 2.ª sessão da 12.ª

legislatura. Da assembléia provincial e do grande tamanduá que lhe chegou da Bahia, e que ameaça devorar inutilmente o tempo e o subsídio da sessão extraordinária.

Da posse do povo presidente da província do Rio de Janeiro.

Do teatro Lírico e da exibição moderna do velho Ricardo III, onde a atriz Estela teve as honras da noite. Do teatro Ginásio e da primeira representação de um novo drama do

autor da História de uma moça rica.

Do teatro de S. Pedro e da descoberta do novo mundo dramático, pelo Sr. Cristóvão Colombo Pereira Barbosa. Do teatro de Santa Thereza de Niterói, que está caído e que muita

gente se propõe reerguer à custa da província.

Do melhoramento apresentado pela Semana Ilustrada com as suas gravuras em madeira. Da supressão de vários empregos públicos. Da qualificação dos nossos diplomatas. E etc., etc., etc.. Agora que está feito o sumário, vou começar o artigo ...

Dr. Semana.

CORREIO DA SEMANA ILUSTRADA

8 DE MAIO DE 1864.

A S. Ex. o Sr. Dr. Chefe de Polícia, em 3 de maio de 1864.

A casa misteriosa da rua do Ouvidor n.º 93, canto da dos Ourives, continua fechada em benefício dos ratos e prejuízo dos cofres públicos.

Este encerramento é um mote, que cada um vai glosando com ou sem fundamento.

Os malévolos dizem: a casa não se abre, porque fecha o segredo de algum crime.

Os supersticiosos resmungam: por ali anda alma penada; ali há lobisomem; mora o mafarrico; ali aquenta-se panela de feitiços; ali tinem correntes, abafam-se gemidos, dançam espectros, lê-se a

buena-dicha, etc.
Os avarentos segredam: a casa está fechada desde a expulsão dos Jesuítas; o dono herdou-a de um maioral da ordem, com a condição de não abri-la senão depois que os discípulos de Santo Inácio conseguissem a revogação da bula de Ganganelli. Na casa há enterrada chelpa grossa, barras de ouro, cofres de jóias, vasos de prata, e é por isso que o proprietário, para não proceder à exumação desses ossos preciosos, prefere perder a bagatela de 2:000$000 porano. É birra, prosseguem os avarentos no seu diálogo secreto, é birra, que já está em muito dinheiro, em cinco ou seis vezes o valor do feio prédio na mais faceira rua da cidade, onde todos os dias as casas do tempo do onça se estão convertendo em belos armazéns de lantejoulas.
Os mais discretos exclamam: o direito de propriedade tem limites, não se deve confundir com o arbítrio de torná-la escarro em parede limpa, foco de infecção, ninho de arganazes, baratas, lacraias e minhocas.
Se esse direito não tivesse limites, o proprietário que embirrasse com sua propriedade poderia incendiá-la, demoli-la a tiros de canhão, sem dar cavaco aos vizinhos e aos transeuntes, nem se responsabilizar pelos escalavramentos de uns e outros.
Vê, Exmo.? são estas as versões que tenho ouvido sobre a casa misteriosa, fechada desde as calendas da água do monte.
Eu não aceito todas as versões, repilo até a das almas penadas, que é a mais verossímil para o capadócio do meu moleque.
Entretanto, dá-me em que entender o tal prolongado fechamento; e, hoje mais do que nunca, por estarmos em monção de economia.
A décima da casa misteriosa pode adicionar-se ao produto supressão dos praticantes das secretarias. da
Creio na última glosa.
O direito de propriedade tem limites. Acho até escandaloso o mistério de fechamento.
V. Excia., se quiser, pode averiguar o segredo da abelha, que fechou a imunda colméia.
Chame-a a contas, Exmo.; e em nome da civilização, do desemperramento, do bem público, do aformoseamento da rua do seu antigo colega ouvidor, que Deus haja, obrigue V. Excia. o proprietário birrento a desembirrar-se, abrindo a casa endiabrada.
Faça-lhe este favor, Exmo ., e conte com os aplausos de quem se preza de ser
D
e

.

E x c i a .

Muito atencioso venerador e amigo obrigado

Dr. Semana.

PONTOS E VÍRGULAS

12 DE MAIO DE 1864.

Os carrancas clamam contra o progresso, e os céticos esfalfam-se em negá-lo.

Negar o progresso, que heresia!

Quando mesmo se possa fazê-lo conscienciosamente não estão aí mil inventos pasmosos atestando a existência dele?

Por exemplo, em matéria de estilo, todos pensam que tudo está descoberto, que todos os estilos já se acham consagrados...

Puro engano!

Tínhamos até aqui:

O estilo elevado; o estilo nobre; o estilo simples; o estilo obscuro; o estilo nervoso; o estilo claro; o estilo abundante; o estilo seco; o estilo dramático; o estilo épico; o estilo cômico; o estilo trágico; o estilo epistolar; o estilo chulo; o estilo pesado; o estilo ligeiro; o estilo gótico; o estilo dórico; o estilo renascença; o estilo árabe, etc., etc., etc..

Parecia impossível inventar mais um estilo.

Pois inventou-se. Chama-se:

O Estilo Leiloeiro!

Não se parece com coisa alguma o novo estilo. É original, é inqualificável, indiscutível; lê-se, admira-se, e não se passa daí.

Aquilo que ninguém pode inventar, aquilo que esquece ao dentista, ao calista e ao droguista (ao droguista sobretudo), não esquece ao leiloeiro.

O anúncio em latim foi uma invenção leiloeira; o primeiro que usou dele bateu palmas; mas o vizinho não admitiu a vitória e recorreu à língua de Péricles e Aspásia.

É verdade que todos eles tiveram a precaução de inserir ao lado a tradução, sem o quê, corriam o risco de não vender uma peça de pano.

Costumo ler os tais anúncios, e às vezes caem-me debaixo dos olhos expressões realmente felizes.

Por exemplo, anunciou-se há dias um — Raro e importante leilão de História Natural.

Imagine o leitor que leilão seria. Sentem-se calafrios ao pensar que um tigre de Hircacânia, uma onça de Goiás ...

Mas não: mais adiante temos a explicação nas seguintes palavras textuais:

— Ricas redomas de pássaros de todos os tamanhos e qualidades, de diversas províncias do Rio de Janeiro.

Com uma pena e certa disposição o anunciante faz esta reforma política: torna o Rio de Janeiro estado independente e recorta-o em províncias.

O anúncio é a verdadeira ciência moderna.

Dize-me como anuncias, dir-te-ei que manhas tens.

*

* *

É verdade que isto de imprensa é coisa difícil.

Todo o cuidado é pouco; é aí que o Capitólio anda ao pé da rocha Tarpéia.

Agora mesmo, folheando uns papéis, dei com uma nota de lembrança. Era um pedaço transcrito de um jornal de província.

Tratava-se do cólera-morbus. O redator da folha aparou a pena, assuou-se, e em artigo de fundo traçou uma larga exposição que começa por estas palavras:

“Não temos em mira mostrar erudição, visamos interesse maior, o de sermos úteis a nossos semelhantes; lembrados do mandamento escrito nas tábuas da lei, dadas por Deus a Moisés. O mandamento — Amar ao próximo como a si mesmo— é uma sublime epopéia escrita pela mão Divina.

“Amamos ao próximo, escrevemos para o povo.

“Não somos da escola contagionista, e, pois, principiamos por aconselhar que mostremos à vista do inimigo sangue frio e coragem. O medo causa diarréia; a diarréia é um dos sintomas precursores da cólera, aos tímidos ela ataca com maior intensidade. O medo pode igualmente aconselhar uma completa abstinência de alimento, será

mais um grave erro, porque da abstinência nascerá a falta de forças, a inanição, que também debilita e mata “. É muito bonito, mas eu prefiro Cícero. * * *

Vem a propósito, já que falo em imprensa, citar uma bernardice. Eu não sou assinante da folha de que se trata, mas o meu amigo M., que costuma recebê-la, foi que me mandou um número dela.

Houve no número anterior a esse alguns erros; o redator apressa-se a

corrigi-los, e diz; “Reparação. — Depois de impressos e distribuídos alguns exemplares do nosso último número, deparamos com uma inexatidão contida no Noticiário acerca das eleições que vêm de proceder-se; bem como alguns erros mais, o que logo corrigimos, como se vê nos outros exemplares que foram distribuídos “.

Vão agora saber quais são os errados e os corrigidos.

* * * Dizem as crônicas que na antiga república de Veneza a ponte dos

Suspiros servia para despejar ao canal os condenados de certa ordem. A execução era de noite, e no meio do silêncio; apenas a água

agitava-se um pouco, e nada mais.

Pouco mais ou menos é o que acontece aqui no Rio de Janeiro na ponte da Guarda-Velha. A diferença é que, no nosso caso, devemos fazer honra à alta

imparcialidade dos juízes, que devem obedecer e obedecem a duas coisas, à consciência e à legalidade.

No mais, é o mesmo. A água que se agita é o simples murmúrio, que a imprensa há de repetir.

O silêncio é completo. É um sistema que eu não cesso de preconizar, porque dos males o menor, e a mania da palavra está tão desenvolvida entre nós que, a não ser a nova reforma, os litigantes gastariam mais tempo consigo que com o bem público. *

* *

Do parlamento à igreja vai a distância de uma farda a uma sobrepeliz.

Entremos na igreja para ouvir a missa do maestro brasileiro Henrique Alves de Mesquita. Mesquita é um grande talento avigorado por sólidos estudos. É uma coisa que ninguém contesta. Por isso foi grande a afluência na igreja de S. Francisco de Paula,

onde se cantou a missa do autor do Vagabundo. Todos estão de acordo em que a nova obra de Mesquita é uma obra

de inspiração e de estudo, e mais um florão para a sua coroa de compositor. Eu junto os meus aplausos aos de todos. Mas ponho entre eles o meu conselho. Aos talentos conscienciosos pode-se aconselhar, porque eles sabem

ouvir e discutir. O meu conselho é que o maestro brasileiro estude com mais cuidado

o gênero sacro e as obras dos velhos mestres alemães e italianos. A sua missa tem ressaibos de música profana. A música sacra, que é difícil, e para a qual o autor do Vagabundo tem

grande propensão, precisa ser mais profundamente estudada por ele. Cabe-lhe o papel invejável de ser o continuador de José Mauricio. A arte brasileira atual precisa de um Beethoven: Mesquita pode sê-lo, e

é para que o seja que eu lhe dou estes conselhos de amigo e admirador. Foram excelentes as vozes que cantaram a missa. Mas, se nos é dado preferir entre tantas e tão belas, mencionaremos

aquela voz que tantos admiraram nas composições de Francisco Manoel, o ilustre mestre. Essa foi perfeitíssima.. * * * Um contraste: De uma missa a uma comédia, que abismo!

A comédia é a Família Benoiton de Sardou, representada no Ginásio. Escasseia-se-me o espaço, pouco direi. De mais... não se trata de falar, trata-se de ir ver a peça, que é de primo cartello.

Não digo que não tenha imperfeições esta peça; e algumas visíveis; mas as suas qualidades são também visíveis, e daí vem o sucesso que teve.

O diálogo é vivíssimo e animado. As cenas originais. O espírito a jorros. Os traços e as pinturas de costumes excelentes. O interesse é de princípio a fim. Está montada com luxo e gosto. Os artistas geralmente vão bem, desde Furtado Coelho, que é

primoroso, até o menino Monclar, que é a aurora de um belo dia. Meus parabéns ao Ginásio. —Está pronto o artigo? pergunta-me o paginador. Leitores, é assim, não somos nada diante do paginador. Até domingo.

Dr. Semana.

NOVIDADES DA SEMANA

15 DE MAIO DE 1864.

Não serei eu quem diga que a novidade mais importante da semana foi a fala do trono.

Muito menos a resposta à fala do trono.

Toda pergunta tem resposta, diz o código da civilidade, e toda resposta deve ser dada pelo caso por que se fez a pergunta, diz a gramática.

E sendo a fala do trono, além de uma coisa obrigativa, uma espécie de Deus te salve ou Dominus tecum à câmara temporária, que, como se sabe, tem quase sempre uma oposição, eu não quero dizer posição constipada, nada temos a observar sobre esse assunto.

Desta vez, porém, se eu caísse na esparrela (é frase parlamentar atualmente) de meter o bedelho nessas coisas, muito teria a dizer sobre a situação e sobre a câmara que reduzida, por falta de transpiração, a espirrar freqüentemente, acha somente quem lhe dê o Deus a ajude sem encontrar quem lhe empreste um lenço, que é o de que ela mais precisa.

Os guardanapos parlamentares andam um pouco estragados. Diz o rifão que — quem nunca comeu mel quando come se lambuza. Não quero fazer aplicação do ditado, mas todo o mundo está vendo que no banquete político está sentada muita gente com a boca suja.

A novidade da semana ... para não continuar a ter os leitores em suspenso, vou dizer-lhes qual foi: foi a representação do novo drama do talentoso autor da História de uma moça rica, o Dr. Pinheiro Guimarães.

Intitula-se a nova composição do poeta — Punição. — Modelado no gosto da escola romântica, o drama do Dr. Pinheiro Guimarães é um desses poemas sombrios que comovem profundamente o coração.

Há nele muita verdade, porque há muito sentimento. A inspiração foi vigorosa e bem sustentada. Os caracteres estão delineados com firmeza.

Felizmente para nós todos, o autor da Punição já não precisa de elogios de animação. Literato distinto, recomendado por tantas provas, goza de merecido conceito, e constitui hoje uma das mais viçosas esperanças da literatura dramática nacional.

É diante desses esforços dignos e coroados de tão feliz resultado, a despeito de obstáculos e tropeços de todo o gênero, que lamento profundamente a decadência a que chegou o teatro entre nós, a despeito de tantas centenas de contos de réis gastos improdutivamente, estupidamente, indignamente.

Compreendo que estes advérbios são um tanto pesados, mas não há remédio senão dar ao gato o seu verdadeiro nome.

Se o governo atual, que conta em seu seio nada menos, que dois poetas, fizesse alguma coisa em bem da instituição a que me refiro, prestaria um bom serviço ao país.

Há na câmara representantes ilustres da causa das letras. Sabe-se até que um deles trabalha por alcançar uma medida legislativa que restabeleça o teatro e abra novos horizontes à inteligência nacional.

Oxalá consiga o que deseja!

No próximo número falarei sobre a execução do drama.

Outra novidade importante foi a dissolução do Conservatório Dramático Brasileiro... Deus fale n'alma do finado, porque eu, ao menos, nada posso dizer dele.

Andam por aí em ruge-ruge boatos assustadores. Diz-se tanta coisa, que a gente não sabe ao que dar crédito.

Entretanto, não darei fim a esta resenha, sem referir-me às duas novidades que de propósito guardei para o fim.

É a primeira o anúncio faustoso do próximo casamento das nossas sereníssimas princesas.

Conquanto se ignore ainda quem sejam os felizes prometidas noivos, o júbilo da nação, casado ao júbilo da família imperial, e unidas em uma só as aspirações do país e dos progenitores das interessantes princesas, a esta hora fazem todos votos pela felicidade e pelo acerto da escolha.

Se este acontecimento encheu de júbilo a família imperial, outro veio amargurá-la. Falo do falecimento do Sr. Bispo de Crisópolis, por cujo motivo tão dolorosamente impressionados se mostraram o Imperador e sua família. O ilustre finado recebeu, ao descer à sepultura, todas as homenagens devidas às altas honras que o distinguiam.

Dr. Semana.

O INCÊNDIO DO MAL DAS VINHAS

15 DE MAIO DE 1864.

Eram cinco e meia da tarde em 4 do mês de maio, em que canta o cuco no ano da graça corrente.

O sol, dardejando frouxamente, ia caminho do ocaso, incumbindo o crepúsculo de dar muitas saudades à próxima noite, que já estava a sacudir o manto estrelado e de seu uso quando se resolve a ser escura como o azeviche.

Os transeuntes cruzavam-se pelo largo de S. Francisco, uns em procura de ônibus, de gôndolas e de diligências, outros em direção à maxambomba e não poucos em colóquio sobre o que haviam feito antes e depois do jantar.

De súbito, partem do campanário do Santo de Paula sinistras badaladas tangidas por mão de solícito bombeiro.

— Fogo! gritam mil vozes, fazendo horrível assonância com o rodar de carros, o apregoar do sino, o trotear dos cavalos.

— Onde é? onde será? perguntam-se os curiosos, enovelando-se, acotovelando-se, abalroando-se pelo Rocio e ruas adjacentes.

Basta nuvem de fumaça, chanfrando-se pelos telhados da rua da Carioca, não deixou duvidoso o lugar do incêndio.

Acudiu àquela paragem povo aos magotes, gente a troços como se tivesse de ascender às regiões da lua o balão da falecida Mme Blanchard.

— O incêndio é no Mal das Vinhas — titubeou um latagão a dar às de Vila Diogo para o quartel das bombas — pegou no fardo de bisnagas e vai-se comunicando à barrica da caparrosa.

— No Mal das Vinhas ... parabéns aos irmãos universais dos países vinhateiros — disse um garoto de Lisboa a um janota do Porto. — Vamos agora ter chuva de vinho a cântaros! Lá se foi o feroz oidium, inimigo mortal da cepa torta.

De feito, era o fogo no quintal do ilustre filho de seu delicioso pai, o filantropo mercador de tudo quanto existe e de outras coisas mais.

Apareceram os bombeiros, as autoridades policiais, sem levar ponto o nosso amigo capitão Pimentel, que na sua fé de ofício de comandante dos pedestres já tem registrado... não sei quantos incêndios apagados e por apagar.

Dez ou doze golfadas de mangueira bastaram para sepultar nas trevas o audacioso, que se preparava a obsequiar o resto do dia com um novo e formidável fiat lux.

Nem houve chamas senão as do bronze pregoeiro.

O monstro devorador, segundo a Gazetilha, só queimou algum ferro, algumas tintas e outros objetos mais, difíceis de classificar entre os variadíssimos da feira do estimável mercador.

Extinto o incêndio, surgiram as versões. A mais verossímil é a que passo a transmitir aos leitores.

Às cinco horas da tarde, estando o dono do armazém de variedades a vender um par de botas, soube, por informações de um pequeno da casa, que no telheiro dos fundos lavrava fogo.

— Deixe lavrar, menino; estou aviando freguês.

Recebida a importância das botas, o fleumático mercador dirigiu-se ao quintal do prédio.

Viu, com efeito, fogo, mas estranhando o caso, porque a cozinha do estabelecimento é lugar mais fresco de todo ele, evocou os manes de seu delicioso pai, saiu e foi à polícia, com toda a gravidade de fabricante de publicados, dar parte de que o seu asilo, inviolável pela Constituição, estava sendo violado por um desalmado intruso. Pediu providência.

Foi deferido, como ficou visto.

O fogo pegou realmente no fardo de bisnagas chegadas de Lisboa no paquete inglês último, com o fim de serem grátis distribuídas por indivíduos de ambos os sexos atacados das supraditas.

Desse fardo comunicou-se ao barril do sulfato de ferro, não ao ferro puro, como por engano desculpável declarou a sempre bem informada Gazetilha. Estendeu-se depois aos outros objetos, que não vêm referidos no novo método de publicar incêndios.

Os prejuízos foram poucos, assegura a preconizada Gazetilha.

Engano de mais.

Foram muitos os prejuízos. Além dos ratos, baratas, traças, cupins, que arderam nas chamas abafadas, lá ficaram reduzidas a cinzas

1.500 bisnagas, quatro arrobas de mata-mal das parras, e, o que é para lamentar-se deveras...

“Oh! que não sei de nojo como o conte...”

inutilizou-se com a água das bombas um enorme publicado sobre a aplicação das bisnagas, com destino ao Jornal do Comércio,

“Que foi só quem perdeu no tal joguinho.”

Com esta perda, fatal à saúde de tanta matrona e mais fatal ainda à literatura, debulho-me em pranto e nem posso noticiar aos leitores que, na extinção do incêndio, funcionaram pela primeira vez, e com êxito feliz, as seringas propagadoras da espécie bovina, desprezadas injustamente pelos criadores de gado vacum.

Perdão, amáveis leitores e adoráveis leitoras; este acontecimento por muito tempo há de conquistar o

Dr. Semana.

NOVIDADES DA SEMANA

22 DE MAIO DE 1864.

Sim, senhor. As coisas andam introviscadas de modo que as novidades sucedem-se umas às outras sem ninguém saber a qual delas deve dar crédito.

Diz-se que o ministério cai. Diz-se também que o ministério não cai.

Diz-se que o futuro organizador do gabinete é o Sr. conselheiro Souza Franco.

Diz-se também que será o Sr. Nabuco.

No meio desta balbúrdia, Pedro Botelho que se entenda.

O que é certo, é que o ministério da Semana Ilustrada não cai. E não cai, porque se entende perfeitamente com o seu parlamento nacional.

Parlamento nobre, inteligente, numeroso, mas todo muito cordato, exigente sem impertinência, suscetível sem ser zangado, e, o que é melhor, pagante sem recalcitrar.

Também o que ele pede é pouco e o que não pede é muito.

O que ele pede é que o façam rir; que lhe deleitem o espírito sem maçá-lo, que toquem o coração sem comovê-lo com emoções profundas.

O que não pede, então, é maravilhoso. Não pede empregos, nem missões especiais, nem presidências, nem estradas de ferro ou de rodagem, nem navegação aérea ou marítima, nem diminuição do imposto da assinatura, nem duas folhas para um só assinante, enfim, não pede nada.

Na galhofa de bom sal e no gracejo inocente não vê, felizmente, ataques à sua liberdade, à sua soberania, à sua moralidade.

Por isso nunca houve nem haverá jamais melhor acordo entre dois poderes independentes.

As nossas esferas estão traçadas de modo que são concentricamente paralelas. Não há meio de se chocarem.

Em compensação, o ministério da Semana é essencialmente constitucional. Não ofende por modo algum as garantias do seu público, quero dizer, do seu parlamento.

Tranqüilizado por esta forma o espírito público, e ainda no uso de uma faculdade constitucional, tem ele a honra de declarar às casas do seu poder legislativo, que os artistas do Ginásio, no desempenho do belo drama do Dr. Pinheiro Guimarães, bem merecem da pátria, e fizeram jus, não direi a uma condecoração que lhes dê honras de alferes ou tenente, ou mesmo de cabo de esquadra, mas a uma aposentadoria condigna.

Adelaide, Julia, Clélia, Pedro Joaquim, Graça, Vasques, Paiva e todos quantos tiveram a subida honra de merecer a confiança do autor da Punição, para interpretarem o seu poema, deram provas de estudo, de aplicação, de talento e de boa vontade.

Agora que está feita a proposta do poder executivo, cumpre ao público, sempre me esquece dizer parlamento, distingui-los e animá-los, honrando-os com seus aplausos e concorrendo com o seu óbolo para a conservação desse teatro, que tantos serviços pode prestar à literatura dramática nacional.

Dr. Semana.

UM COMETA QUE NÃO SE ACHA NO ALMANAQUE

5 DE JUNHO DE 1864.

É costume na câmara dos Srs. deputados grudarem-se umas às outras as emendas que se vão oferecendo aos projetos em discussão.

Eu entendo que se devia por isso mesmo deixar o nome de emendas e adaptar-se o de grudadas para aqueles papelinhos que escrevem em cima da coxa.

Mas vamos ao caso.

Na discussão do orçamento do ministério da agricultura, comércio e obras públicas, choveram emendas a rodo.

Na sessão de 30 de Maio o meu amigo Paranaguá, que estava Paranaguando ou Piauiando na tribuna, pediu à mesa que lhe mandasse uma certa emenda; como, porém, todas as emendas estavam grudadas, foi um gosto ver o presidente e secretário a desenrolar e enrolar o papelório: era uma tira que podia estender-se do Pão de Açúcar ao Corcovado! O respeitável fugiu das galerias, pensando que era um Cometa que mostrava a sua cauda.

E todas aquelas grudadas tinham por fim desgrudar do tesouro público não sei quantas centenas de contos de réis!

Era, portanto, na verdade, um cometa. Mas, ainda bem que a câmara cortou na votação o rabo do bicho.

Dr. Semana.

NOVIDADES DA SEMANA

19 DE JUNHO DE 1864.

Uma novidade para a semana! Ninguém a fornece? Tanto pior para mim e para vós, leitores.

Os jornalistas, e sobretudo os cronistas, são os maiores mágicos do meu conhecimento. Iludem ao público de maneira singular e impingem-lhes, pelo valor de uma assinatura, a mesma novidade que recebem grátis das mãos do respeitável público.

Se me não dais, não vos dou — tal é o dístico, que deviam trazer todos os jornais noticiosos.

É exatamente essa a minha posição neste momento.

Não posso dar ao público o que ele me não forneceu; nem hei de inventar para a Semana novidade que a semana não produziu.

Porque, além disso, não me hei de ocupar com o sol e com a chuva, se bem que as modificações atmosféricas exerçam grande influência nas regiões políticas do país, e que a câmara dos deputados esteja servindo de termômetro à população, mas termômetro tão infalível como as folhinhas de Mathieu de la Drôme , que, quando marcam tempo seguro, é que chove, e quando prenunciam mau tempo, é que

o sol aparece rubicundo e risonho como... os leitores dispensam a comparação.

Nem me devo ocupar com o programa, que não é programa, que foi aprovado, e que não foi aprovado, que é e que não é ao mesmo tempo, porque esse tema já esgotou a musa de todos os charadistas políticos da terra.

Não é também da minha competência, visto que não sou poeta, analisar até que ponto os discursos dos senadores, que atacam e que defendem os poetas e os versejadores, são razoáveis ou deixam de sê-lo.

Nem tampouco apreciar a importância política e americana, que podem ter as violências praticadas pelos espanhóis com os peruanos, quando vejo que aqueles se contentam com um pouco de guano para se desafrontarem de todo.

Não falarei também dos eclipses sublunares, que se têm dado no Teatro Lírico pela súbita aparição do célebre nariz cantante, a quem se tem aplicado os versos do satírico poeta, cujo nome não figura no Almanaque:

Nariz de embono Com tal sacada, Que entra na escada Duas horas primeiro que seu dono.

..............................................

Você perdoe, Nariz nefando, Que eu vou cortando, E ainda fica nariz em que se assoe!

Nada disto. Estes gracejos não são bonitos, sobretudo quando se referem a uma artista que não é de todo feia e que de todo não canta mal.

De um nariz desse tamanho precisava o Sr. Labe, para tomar uma pitada na torre do Carmo, desde a corda tesa, que atravessou do boulevard Carceller à cimalha da casa fronteira, e onde se diverte aos domingos, passeando sobre ela e por cima do Niágara das mil cabeças que o contemplam. Não sabemos se esse exercício ao ar livre tem alentado muito ao intrépido funâmbulo.

Por falar em espetáculo ao ar livre, vem a pêlo falar de um espetáculo, representado sob a atmosfera pesada da pobreza. Refiro-me ao benefício, ou antes malefício, feito no Teatro Lírico, pela eminente atriz brasileira a Sra. D. Estela Sezefreda dos Santos.

Por Deus! não é só o amor da arte que falece nesta terra, é também o amor do próximo!

Uma artista, que tem tradição tão gloriosa em nosso palco, e que, no declínio da vida, luta quase com a miséria, para poder sustentar

honradamente a suas filhas, tinha direito a esperar maior
concorrência do público.
Dr. Semana.

NOVIDADES DA SEMANA

26 DE JUNHO DE 1864.

Por uma triste novidade deve começar a Semana; o mundo político e a boa sociedade acabam de perder um dos seus mais belos ornamentos. O Visconde de Maranguape desceu ao túmulo. E, bem que adiantado em anos, conservava, a despeito dos insultos da enfermidade que o prostrou, o espírito vivaz e ameno que sempre o distinguiu.

Feia tem corrido a semana. O santo folgazão, que até dos moiros da moirana é festejado, teve desta vez festa molhada. O carrancudo sol fechou o sobrecenho e, amuado, escondeu-se por detrás das nuvens, que não há mais vê-lo.

O corpo legislativo (que é o nosso sol político) entendeu que devia fazer o mesmo. E, escondido embaixo dos lençóis, tem deixado desertas ambas as casas do parlamento.

O ruge-ruge do casamento das sereníssimas princesas já começou a pôr em atividade os habitantes do Rio de Janeiro.

Caiam-se as casas, pintam-se as janelas e cada qual trata de aformosear a sua fachada.

Com exceção da mordomia imperial, que já mandou limpar o paço da cidade, parece que as outras estações públicas não têm pressa.

Grandes novidades artísticas se anunciam.

Acha-se entre nós a rainha da cena portuguesa, Emília das Neves.

Não sabemos ainda quando pretende dar ao público fluminense o prazer de vê-la em cena, mas parece fora de dúvida que a eminente artista não deixará de brindar-nos com a exibição do seu celebrado talento.

Outra grande novidade é a que se refere à pequena companhia lírica dos meninos florentinos, que vão também representar algumas peças do seu variado repertório.

À fé que há de ser divertido ver e ouvir as prima-donas de 12 anos, os barítonos e baixos profundos de 13 anos.

A concorrência não faltará decerto, e conquanto não seja o Provisório a cena mais apropriada para esse curioso espetáculo, parece decidido que nesse grande barracão tenha lugar a festa já anunciada.

O Alcazar enfeita-se também e pretende ter duplas receitas com a estréia do novo pessoal cantante que lhe chegou. E o pior é que, ao passo que a arte vai decaindo, os espetáculos dos botequins dramáticos vão atraindo a concorrência!

Espera-se também proximamente a novidade de uma companhia, contratada em Lisboa, para vir regenerar o teatro nacional. Deus a traga, para vermos até onde pode chegar o progresso desta terra.

Andam desde já num sarilho as comadres influentes nas freguesias da cidade, aplainando o terreno para as eleições de vereadores, que terão lugar em setembro.

Os fiscais, quero dizer, os Ilmos. Srs. fiscais, andam num corrupio.

Reuniões sobre reuniões, discursos, promessas, chegou-lhes o seu S. Martinho. Agora é que é mostrar influência.

Como tudo isto é divertido! E edificante! E útil aos interesses deste pobre município neutro, que está condenado a ficar eternamente sujeito às variações do tempo e das câmaras!

Ferve agora o patriotismo. Cada qual tem um projeto de embelezamento municipal.

A propósito de beleza municipal, cumpre-nos participar ao público que para os lados do Passeio Público houve há dias uma revolução e um alvoroço muito sério.

Foi o caso, que rebentaram os canos da City Improvements limited e, ao contrário do dístico, não houve limite na porcaria e na fedentina, que empestou o bairro.

Olhem que custam caros todos os melhoramentos progressistas desta terra, mas são muito bons!

Dr. Semana.

FIM


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