Machado de Assis - Poesias dispersas





ÍNDICE


A PALMEIRA

ELA

TEU CANTO

UM ANJO

MINHA MUSA

COGNAC!...

MINHA MÃE

O SOFÁ

VAI-TE

ÁLVARES D'AZEVEDO

REFLEXO

A MORTE NO CALVÁRIO

UMA FLOR? — UMA LÁGRIMA

CONDÃO

A AUGUSTA

SONETO CIRCULAR

ÍCARO

CORAÇÃO PERDIDO

FASCINAÇÃO

O CASAMENTO DO DIABO

HINO PATRIÓTICO

A CÓLERA DO IMPÉRIO

DAQUI DESTE ÂMBITO ESTREITO

A FRANCISCO PINHEIRO GUIMARÃES

À MEMÓRIA DO ATOR TASSO

NO ÁLBUM DO SR. QUINTELA

VERSOS

SONETO

NAQUELE ETERNO AZUL, ONDE COEMA

DAI À OBRA DE MARTA UM POUCO DE MARIA

RELÍQUIA ÍNTIMA

A DERRADEIRA INJÚRIA

REFUS

ENTRA CANTANDO, ENTRA CANTANDO, APOLO!

A GUIOMAR

PRÓLOGO DO INTERMEZZO

A CAROLINA

SONETO

A FRANCISCA

À ILMA. SRA. D. P. J. A.

A SAUDADE

JÚLIA

MEU ANJO

UM SORRISO

PARÓDIA

A SAUDADE

NO ÁLBUM DO SR. F. G. BRAGA

A UMA MENINA

O GÊNIO ADORMECIDO

O PROFETA

O PÃO D’AÇÚCAR

SONETO A S. M. O IMPERADOR, O SENHOR D. PEDRO II

À MADAME ARSÈNE CHARTON DEMEUR

O MEU VIVER

DORMIR NO CAMPO

CONSUMMATUM EST!

SAUDADES

LÁGRIMAS

NÃO?

RESIGNAÇÃO

AMANHÃ

A***

DEUS EM TI

ESTA NOITE

VEM!

ESPERANÇA

A MISSÃO DO POETA

O PROGRESSO

À ITÁLIA

A UM POETA

A PARTIDA

A REDENÇÃO

S. HELENA

NUNCA MAIS

A CH. F. FILHO DE UM PROSCRITO

OFÉLIA

A ESTRELA DA TARDE

A UM PROSCRITO

SONHOS

UM NOME

TRAVESSA

À D. GABRIELA DA CUNHA

MEUS VERSOS

À MME. DE LA GRANGE

SOUVENIRS D’EXIL

A S. M. I.

AO CARNAVAL DE 1860

NO ÁLBUM DA ARTISTA LUDONIVA MOUTINHO

GABRIELA DA CUNHA

ESTÂNCIAS NUPCIAIS

EM HOMENAGEM À D. ISABEL E AO CONDE D’EU

NO CASAMENTO DA PRINCESA ISABEL

CALA-TE, AMOR DE MÃE

TRISTEZA

O PRIMEIRO BEIJO

A F. X. NOVAIS

ONTEM, HOJE, AMANHÃ

26 DE OUTUBRO

AS NÁUFRAGAS

AO DR. XAVIER DA SILVEIRA

13 DE MAIO

SONETO

RICARDO

VELHO TEMA

POR ORA SOU PEQUENINA

CÉSAR! FULGE MAIS LUZ

NÃO HÁ PENSAMENTO RARO

VIVA O DIA 11 DE JUNHO

VOULEZ-VOUS DU FRANÇAIS?




A PALMEIRA [1]

RJ, 6 jan. 1855


O.D.C.


A FRANCISCO GONÇALVES BRAGA


Como é linda e verdejante Esta palmeira gigante Que se eleva sobre o monte! Como seus galhos frondosos S’elevam tão majestosos Quase a tocar no horizonte!

Ó palmeira, eu te saúdo, Ó tronco valente e mudo, Da natureza expressão! Aqui te venho ofertar Triste canto, que soltar Vai meu triste coração.

Sim, bem triste, que pendida Tenho a fronte amortecida, Do pesar acabrunhada! Sofro os rigores da sorte, Das desgraças a mais forte Nesta vida amargurada!

Como tu amas a terra Que tua raiz encerra, Com profunda discrição; Também amei da donzela Sua imagem meiga e bela, Que alentava o coração.

Como ao brilho purpurino Do crepúsc’lo matutino Da manhã o doce albor; Também amei com loucura Ess’alma toda ternura Dei-lhe todo o meu amor!

Amei!... mas negra traição Perverteu o coração Dessa imagem da candura! Sofri então dor cruel, Sorvi da desgraça o fel, Sorvi tragos d’amargura!

........................................ Adeus, palmeira! ao cantor Guarda o segredo de amor; Sim, cala os segredos meus! Não reveles o meu canto, Esconde em ti o meu pranto Adeus, ó palmeira!... adeus!

ELA [2]

Nunca vi, — não sei se existe Uma deidade tão bela, Que tenha uns olhos brilhantes Como são os olhos dela!

F. G. BRAGA

Seus olhos que brilham tanto, Que prendem tão doce encanto, Que prendem um casto amor Onde com rara beleza, Se esmerou a natureza Com meiguice e com primor.

Suas faces purpurinas De rubras cores divinas De mago brilho e condão; Meigas faces que harmonia Inspira em doce poesia Ao meu terno coração!

Sua boca meiga e breve, Onde um sorriso de leve Com doçura se desliza, Ornando purpúrea cor, Celestes lábios de amor Que com neve se harmoniza.

Com sua boca mimosa Solta voz harmoniosa Que inspira ardente paixão, Dos lábios de Querubim Eu quisera ouvir um — sim — Pr’a alívio do coração!

Vem, ó anjo de candura, Fazer a dita, a ventura De minh’alma, sem vigor;

Donzela, vem dar-lhe alento, Faz-lhe gozar teu portento, “Dá-lhe um suspiro de amor!”

TEU CANTO [3]

Tu és tão sublime

Qual rosa entre as flores De odores Suaves;

Teu canto é sonoro

Que excede ao encanto Do canto Das aves.

Eu sinto nest’alma,

Num meigo transporte, Meu forte Dulçor;

Se soltas teu canto

Que o peito me abala, Que fala De amor.

Se soltas as vozes

Que podem à calma, Minh’alma Volver;

Minh’alma se enleva Num gozo expansivo De vivo Prazer.

Donzela, esta vida

Se eu tanto pudera, Quisera Te dar;

Se um beijo eu pudesse

Ardente e fugace Na face Pousar.

29 jun. 1855 A UMA ITALIANA É sempre nos teus cantos sonorosos

Que eu bebo inspiração. DO AUTOR [“Meu Anjo”.]

UM ANJO [4]

RJ, out. 1855

À MEMÓRIA DE MINHA IRMÃ

Se deixou da vida o porto Teve outra vida nos céus.

A. E. ZALUAR

Foste a rosa desfolhada Na urna da eternidade, Pr’a sorrir mais animada, Mais bela, mais perfumada Lá na etérea imensidade.

Rasgaste o manto da vida, E anjo subiste ao céu Como a flor enlanguecida Que o vento pô-la caída E pouco a pouco morreu!

Tu’alma foi um perfume Erguido ao sólio divino; Levada ao celeste cume C’os Anjos oraste ao Nume Nas harmonias dum hino.

Alheia ao mundo devasso, Passaste a vida sorrindo; Derribou-te, ó ave, um braço, Mas abrindo asas no espaço Ao céu voaste, anjo lindo.

Esse invólucro mundano Trocaste por outro véu; Deste negro pego insano Não sofreste o menor dano Que tu’alma era do Céu.

Foste a rosa desfolhada Na urna da eternidade Pr’a sorrir mais animada Mais bela, mais perfumada Lá na etérea imensidade.

MINHA MUSA [5]

RJ, 22 fev. 1856

A Musa, que inspira meus tímidos cantos, É doce e risonha, se amor lhe sorri; É grave e saudosa, se brotam-lhe os prantos. Saudades carpindo, que sinto por ti.

A Musa, que inspira-me os versos nascidos

De mágoas que sinto no peito a pungir, Sufoca-me os tristes e longos gemidos, Que as dores que oculto me fazem trair.

A Musa, que inspira-me os cantos de prece, Que nascem-me d’alma, que envio ao Senhor. Desperta-me a crença, que às vezes ‘dormece Ao último arranco de esp’ranças de amor.

A Musa, que o ramo das glórias enlaça, Da terra gigante — meu berço infantil, De afetos um nome na idéia me traça, Que o eco no peito repete: — Brasil!

A Musa, que inspira meus cantos é livre, Detesta os preceitos da vil opressão, O ardor, a coragem do herói lá do Tibre, Na lira engrandece, dizendo: — Catão!

O aroma de esp’rança, que n’alma recende, É ela que aspira, no cálix da flor; É ela que o estro na fronte me acende, A Musa que inspira meus versos de amor!

COGNAC!... [6]

Vem, meu Cognac, meu licor d’amores!... É longo o sono teu dentro do frasco; Do teu ardor a inspiração brotando

O cérebro incendeia!...

Da vida a insipidez gostoso adoças; Mais val um trago teu que mil grandezas; Suave distração — da vida esmalte,

Quem há que te não ame?

Tomado com o café em fresca tarde Derramas tanto ardor pelas entranhas, Que o já provecto renascer-lhe sente

Da mocidade o fogo!

Cognac! — inspirador de ledos sonhos, Excitante licor — de amor ardente! Uma tua garrafa e o Dom Quixote,

É passatempo amável!

Que poeta que sou com teu auxílio! Somente um trago teu m’inspira um verso; O copo cheio o mais sonoro canto;

Todo o frasco um poema!

MINHA MÃE [7]

(Imitação de Cowper)

Quanto eu, pobre de mim! quanto eu quisera Viver feliz com minha mãe também!

C. A. DE SÁ

Quem foi que o berço me embalou da infância Entre as doçuras que do empíreo vêm? E nos beijos de célica fragrância Velou meu puro sono? Minha mãe! Se devo ter no peito uma lembrançaÉ dela que os meus sonhos de criança

Dourou: — é minha mãe!

Quem foi que no entoar canções mimosas Cheia de um terno amor — anjo do bem Minha fronte infantil — encheu de rosas De mimosos sorrisos? — Minha mãe! Se dentro do meu peito macilento O fogo da saudade me arde lento

É dela: minha mãe.

Qual anjo que as mãos me uniu outrora E as rezas me ensinou que da alma vêm? E a imagem me mostrou que o mundo adora, E ensinou a adorá-la? — Minha mãe! Não devemos nós crer num puro riso Desse anjo gentil do paraíso

Que chama-se uma mãe?

Por ela rezarei eternamente Que ela reza por mim no céu também; Nas santas rezas do meu peito ardente Repetirei um nome: — minha mãe! Se devem louros ter meus cantos d’alma Oh! do porvir eu trocaria a palma

Para ter minha mãe!

O SOFÁ [8]

Oh! Como é suave os olhos Sentir de gozo cerrar, Sobre um sofá reclinado Lindos sonhos a sonhar, Sentindo de uns lábios d’anjo Um medroso murmurar!

Um sofá! Mais belo símbolo Da preguiça outro não há... Ai, que belas entrevistas Não se dão sobre um sofá, E que de beijos ardentes Muita boca aí não dá!

Um sofá! Estas violetas Murchas, secas como estão Sobre o seu sofá mimoso, Cheirosas, vivas então, Achei um dia perdidas, Perdidas: por que razão!

Talvez ardente entrevista Toda paixão, toda amor Fizesse ali esquecê-las... Quem não sabe? sem vigor Estas flores só recordam Um passado encantador!

Um sofá! Ameno sítio Para colher um troféu, Para cingir duas frontes De amor num místico véu, E entre beijos vaporosos Da terra fazer um céu!

Um sofá! Mais belo símbolo Da preguiça outro não há... Ai, que belas entrevistas Não se dão sobre um sofá, E que de beijos ardentes Muita boca aí não dá!

VAI-TE [9]

1º jan. 1858

Por que voltaste? Esquecidos Meus sonhos, e meus amores Frios, pálidos morreram Em meu peito. Aquelas flores Da grinalda da ventura Tão de lágrimas regada, Nesta fronte apaixonada Cingida por tua mão, Secaram, mortas estão. Pobre pálida grinalda! Faltou-lhe um orvalho eterno De teu belo coração. Foi de curta duração Teu amor: não compreendeste Quanto amor esta alma tinha... Vai, leviana andorinha, A outro clima, outro céu: Meu coração? Já morreu Para ti e teus amores, E não pode amar-te — vai! O hino das minhas dores Dir-to-á a brisa, à noite,

Num terno, saudoso — ai — Vai-te — e possa a asa do vento Que pelas selvas murmura, Da grinalda da ventura Que em mim outrora cingiste, Inda um perfume levar-te, Morta assim: como um remorso Do teu olvido... eu amar-te? Não, não posso; esquece, parte; Eu não posso amar-te... vai!

ÁLVARES D'AZEVEDO [10]

AO SR. DR. M. A. D'ALMEIDA

Vejo em fúnebre cipreste Transformada a ovante palma!

PORTO ALEGRE.

Morrer, de vida transbordando ainda, Como uma flor que ardente calma abrasa! Águia sublime das canções eternas: Quem no teu vôo espedaçou-te a asa?

Quem nessa fronte que animava o gênio, A rosa desfolhou da vida tua? Onde o teu vulto gigantesco? Apenas Resta uma ossada solitária e nua!

E contudo essa vida era abundante! E as esperanças e ilusões tão belas! E no porvir te preparava a pátria Da glória as palmas e gentis capelas!

Sim, um sol de fecunda inteligência Sobre essa fronte pálida brilhava, Que à face deste século de indústria Tantos raios ardentes derramava!

E pôde a morte destruir-te a vida! E dar à tumba a tua fronte ardente! Pobre moço! saudaste a estrela d’alva, E o sol não viste a refulgir no Oriente!

Morrer, de vida transbordando ainda, Como uma flor que ardente calma abrasa! Águia sublime das canções eternas: Quem no teu vôo espedaçou-te a asa?

Voltaste à terra só — Não morrem Byrons, Nem finda o homem na friez da campa! Homem, tua alma aos pés de Deus fulgura, Teu nome, poeta, no porvir se estampa!

Não morreste! estalou a fibra apenas Que a alma à vida de ilusões prendia! Acordaste de um negro pesadelo, E saudaste o sol do eterno dia!

Mas cá fica no altar do pensamento Teu nome como um ídolo pomposo, Que a fama com o turíbulo dos tempos Perfuma de um incenso vaporoso!

E ao ramalhete das brasílias glórias, Mais uma flor angélica se enlaça, Que a brisa ardente do porvir passando Trêmula beija e a murmurar abraça!

Byron da nossa terra, dorme embora Envolto no teu fúnebre sudário, Murmure embora o vento dos sepulcros Junto do teu sombrio santuário.

Resta-te a c’roa santa de poeta, E a mirra ardente da oração saudosa, E pelas noites calmas do silêncio Os séculos da lua vaporosa!

Ela te chora, e ali com ela a pátria, Pobre órfã de teus cânticos divinos, E das brisas na voz misteriosa, Da saudade e da dor sagram-te os hinos!

Dorme junto de Chatterton, de Byron, Frontes sublimes, pra sonhar criadas, Almas puras de amor e sentimento, Harpas santas, por anjos afinadas!

Dorme na tua fria sepultura Guarda essa fronte vaporosa, ardente, Tu, que apenas saudaste a estrela-d'alva E o sol não viste a refulgir no Oriente!

REFLEXO [11]

Olha: vem sobre os olhos Tua imagem contemplar, Como as madonas do céu Vão refletir-se no mar Pelas noites de verão Ao transparente luar!

Olha e crê que a mesma imagem Com mais ardente expressão Como as madonas no mar Pelas noites de verão, Vão refletir-se bem fundo, Bem fundo — no coração!

A MORTE NO CALVÁRIO [12]

Semana Santa, 1858

AO MEU AMIGO O PADRE SILVEIRA SARMENTO

Consummatum est!

I

Ei-lo, vai sobre o alto Calvário Morrer piedoso e calmo em uma cruz! Povos! naquele fúnebre sudário Envolto vai um sol de eterna luz!

Ali toda descansa a humanidade; É o seu salvador, o seu Moisés! Aquela cruz é o sol da liberdade Ante o qual são iguais povos e reis!

Povos, olhai! — As fachas mortuárias São-lhe os louros, as palmas, e os troféus! Povos, olhai! — As púrpuras cesáreas Valem acaso em face do Homem-Deus?

Vede! mana-lhe o sangue das feridas Como o preço da nossa redenção. Ide banhar os braços parricidas Nas águas desse fúnebre Jordão!

Ei-lo, vai sobre o alto do Calvário Morrer piedoso e calmo em uma cruz! Povos! naquele fúnebre sudário Envolto vai um sol de eterna luz!

II

Era o dia tremendo do holocausto... Deviam triunfar os fariseus... A cidade acordou toda no fausto, E à face das nações matava um Deus!

Palpitante, em frenético delírio A turba lá passou: vai imolar! Vai sagrar uma palma de martírio, E é a fronte do Gólgota o altar!

Em derredor a humanidade atenta Aguarda o sacrifício do Homem-Deus! Era o íris no meio da tormenta O martírio do filho dos Hebreus!

Eis o monte, o altar do sacrifício,

Onde vai operar-se a redenção. Sobe a turba entoando um epinício E caminha com ela o novo Adão!

E vai como ia outrora às sinagogas As leis pregar do Sião e do Tabor! É que no seu sudário as alvas togas Vão cortar os tribunos do Senhor!

Planta-se a cruz. O Cristo está pendente; Cingem-lhe a fronte espinhos bem mortais; E cospe-lhe na face a turba ardente, E ressoam aplausos triunfais!

Ressoam como em Roma a populaça Aplaudindo o esforçado gladiador! É que são no delírio a mesma raça, A mesma geração tão sem pudor!

Ressoam como um cântico maldito Pelas trevas do século a vibrar! Mas as douradas leis de um novo rito Vão ali no Calvário começar!

Sim, é a hora. A humanidade espera Entre as trevas da morte e a eterna luz; Não é a redenção uma quimera, Ei-la simbolizada nessa cruz!

É a hora. Esgotou-se a amarga taça; Tudo está consumado; ele morreu, E aos cânticos da ardente populaça Em luto a natureza se envolveu!

Povos! realizou-se a liberdade, E toda consumou-se a redenção! Curvai-vos ante o sol da Cristandade E as plantas osculai do novo Adão!

Ide, ao som das sagradas melodias, Orar junto do Cristo como irmãos, Que os espinhos da fronte do Messias São as rosas da fronte dos cristãos!

UMA FLOR? — UMA LÁGRIMA [13]

Out. 1858

— Por que há de a musa que coroam rosas Da rocha inculta só rebentam cardos: Lágrima fria de pisados olhos

Não cabe em chão de pérolas.

— Por que há de a musa que coroam rosas Vir debruçar-se no ervaçal inculto,

E pedir um perfume à flor da noite Que o vento enregelara?

Minha musa é a virgem das florestas Sentada à sombra da palmeira antiga; Cantando, e só — por uma noite amarga

Uma canção de lágrimas...

A aura noturna perpassou-lhe as tranças, A mão do inverno enregelou-lhe os seios, Roçou-lhe as asas na carreira ardente

O anjo das tempestades.

Por que há de a musa que coroam rosas Pedir-lhe um canto? O alaúde é belo Quando amestrada mão lhe roça as cordas

Num canto onipotente.

Pede-se acaso à ave que rasteja Rasgado vôo? ao espinhal perfumes? Risos da madrugada ao céu da noite

Sem luar nem estrelas?

Pedem-se as rosas aos jardins da vida; Da rocha inculta só rebentam cardos; Lágrima fria de pisados olhos

Não cabe em chão de pérolas.

CONDÃO [14]

C'est que j'ai recontré des regards dont la flamme Semble avec mes regards ou briller ou mourir.

E. DESCHAMPS

Uns olhos me enfeitiçaram, Uns olhos... foram os teus. Falaram tanto de amores Embebidos sobre os meus!

Eram anjos que dormiam Dessas pálpebras à flor Nas convulsões palpitantes Dos alvos sonhos de amor.

Foi à noite... hora das fadas; Bem lhes sentira o condão; Mas refletiam tão puras Os sonhos do coração!

Como ao sol do meio-dia Dorme a onda à flor do mar, Eu dormi, — pobre insensato,

Ao fogo do teu olhar...

Pobre, doida mariposa, Perdi-me... — pecados meus! Na chama que me atraía, No fogo dos olhos teus.

Venci protestos de outrora, Moirei no teu alcorão, E vim purgar nesses olhos Pecados do coração.

Pois bem hajam os teus olhos, Onde um tal condão achei: Doido inseto em torno à chama, Todo aí me queimarei.

A AUGUSTA [15]

1859

Em teu caminho tropeçaste — agora! Cala esse pranto, minha pobre flor. Caída mesmo — tropeçando embora, Conserva a alma um último pudor.

Deve ser grande esse martírio lento... Já nos espinhos a minha alma pus; Sou como um Cireneu do sofrimento; Deixa-me ao menos carregar-te a cruz.

Eu sei medir as lágrimas vertidas Na sombra e só sem uma mão sequer! Vês tu as minhas pálpebras doridas? Têm chorado talvez por ti, mulher!

É fraqueza chorar? chorei contigo; Que a mesma nos banhou de luz Como em mim um pesar profundo e antigo No falar dessa fronte se traduz!

Sei como custa desfolhar um riso Em face às turbas, que o senti por mim, Ver o inferno e falar do paraíso, Sentir os golpes e abraçar Caim!

Chorei, que prantos! Prometeu atado Ao rochedo da vida e sem porvir! Poeta neste século infamado Que mata as almas e condena a rir.

Cansei, perdi aquela fé robusta Que como a ti, nos sonhos me sorriu; Na identidade do calvário, Augusta, Bem vês como o destino nos mentiu!

Ergue-te pois! A redenção agora Dá-te mais viço, minha pobre flor! Se tropeçaste no caminho embora! Na tua queda é-te bordão — o amor!

SONETO CIRCULAR [16]

16 abr. 1895

A bela dama ruiva e descansada, De olhos longos, macios e perdidos, C'um dos dedos calçados e compridos Marca a recente página fechada.

Cuidei que, assim pensando, assim colada Da fina tela aos flóridos tecidos, Totalmente calados os sentidos, Nada diria, totalmente nada.

Mas, eis da tela se despega e anda, E diz-me: — “Horácio, Heitor Cibrão, Miranda,

C. Pinto, X. Silveira, F. Araújo,

Mandam-me aqui para viver contigo.”Ó bela dama, a ordens tais não fujo. Que bons amigos são! Fica comigo.

ÍCARO [17]

1859

Que queres tu que eu te peça? Um olhar que não consola? Podes guardar essa esmola Para quem ta for pedir, A um olhar de volúpia Que ensina discreto espelho Queres que eu curve o joelho, E quebre todo um porvir?

É audaz o pensamento. Não vês que um olhar é pouco? Eu fora cobarde e louco Se te aceitasse um olhar! A flor da pálida face, Esse raio luminoso, É a esperança de um gozo Que bem se pode evitar.

Este fogo que me impele Para a esfera dos desejos Cresce, vigora nos beijos

De uma boca de mulher; Tem asas como as das águias; Nem pousa sobre o granito; Aspira para o infinito; Pede tudo e tudo quer!

É ambição desmedida? Prevejo tal pensamento: A inclinação de um momento Não me dá direito a mais. A chama ainda indecisa Uma hora alimentaste, E agora que recuaste Quebras os laços fatais.

Era tarde! As fibras todas Já vão meio consumidas; Perdi na vida — mil vidas Que é preciso resgatar. Bem vês que a perda foi grande. Quero um preço equivalente; Guarda o teu olhar ardente Que não me paga um olhar.

Alma de fogo encerrada Em livre, em audaz cabeça Não pode crer na promessa Que os olhos, que os olhos dão! Talvez levada de orgulho Com este amor insensato Quer a verdade do fato Para dá-la ao coração.

E sabes o que eu te dera? Nem tu calculas o preço... Olha bem se te mereço Mais que um só olhar dos teus: Dera-te todo um futuro Quebrado a teus pés, quebrado, Como um mundo derrocado Caído das mãos de Deus!

Era uma troca por troca, Ambos perdiam no abraço Mas estreitava-se o espaço Que nos separa talvez. Foras um sonho que eu tive, Uma esperança bem pura; Foras meu céu de ventura Em toda a sua nudez!

Que este fogo que me impele Para a esfera dos desejos Cresce, vigora nos beijos De uma boca de mulher; Tem asas como as das águias; Nem pousa sobre o granito;

Aspira para o infinito, Pede tudo e tudo quer!

CORAÇÃO PERDIDO [18]

Buscas debalde o meigo passarinho Que te fugiu;

Como quer que isso foi, o coitadinho No brando ninho Já não dormiu.

O coitado abafava na gaiola, Faltava-lhe o ar;

Como foge um menino de uma escola, O mariola Deitou-se a andar.

Demais, o pobrezito nem sustento Podia ter;

Nesse triste e cruel recolhimento O simples vento Não é viver.

Não te arrepeles. Dá de mão ao pranto; Isso que tem?

Eu sei que ele fazia o teu encanto; Mas chorar tanto Não te convém.

Nem vás agora armar ao bandoleiro Um alçapão;

Passarinho que sendo prisioneiro Fugiu matreiro Não volta, não!

FASCINAÇÃO [19]

Tes lèvres, sans parler, me disaient: — Que je t'aime! Et ma bouche muette ajoutait: — Je te crois!

Mme. DESBORDES-VALMORE

A vez primeira que te ouvi dos lábios Uma singela e doce confissão, E que travadas nossas mãos, eu pude Ouvir bater teu casto coração,

Menos senti do que senti na hora Em que, humilde — curvado ao teu poder, Minha ventura e minha desventura Pude, senhora, nos teus olhos ler.

Então, como por vínculo secreto, Tanto no teu amor me confundi, Que um sono puro me tomou da vida E ao teu olhar, senhora, adormeci.

É que os olhos, melhor que os lábios, falam Verbo sem som, à alma que é de luz — Ante a fraqueza da palavra humana — O que há de mais divino o olhar traduz.

Por ti, nessa união íntima e santa, Como a um toque de graça do Senhor, Ergui minh'alma que dormiu nas trevas, E me sagrei na luz do teu amor.

Quando a tua voz puríssima — dos lábios, De teus lábios já trêmulos correu, Foi alcançar-me o espírito encantado Que abrindo as asas demandara o céu.

De tanta embriaguez, de tanto sonho Que nos resta? Que vida nos ficou? Uma triste e vivíssima saudade... Essa ao menos o tempo a não levou.

Mas, se é certo que a baça mão da morte A outra vida melhor nos levará, Em Deus, minh'alma adormeceu contigo, Em Deus, contigo um dia acordará.

O CASAMENTO DO DIABO [20]

(Imitação do alemão)

Satã teve um dia a idéia De casar. Que original! Queria mulher não feia, Virgem corpo, alma leal.

Toma um conselho de amigo, Não te cases, Belzebu; Que a mulher, com ser humana É mais fina do que tu.

Resolvido no projeto, Para vê-lo realizar, Quis procurar objeto Próprio do seu paladar.

Toma um conselho de amigo, Não te cases, Belzebu; Que a mulher, com ser humana. É mais fina do que tu.

Cortou unhas, cortou rabo, Cortou as pontas, e após Saiu o nosso diabo Como o herói dos heróis.

Toma um conselho de amigo, Não te cases, Belzebu; Que a mulher, com ser humana É mais fina do que tu.

Casar era a sua dita; Correu por terra e por mar, Encontrou mulher bonita E tratou de a requestar.

Toma um conselho de amigo, Não te cases, Belzebu; Que a mulher, com ser humana É mais fina do que tu.

Ele quis, ela queria, Puseram mão sobre mão, E na melhor harmonia Verificou-se a união.

Toma um conselho de amigo, Não te cases, Belzebu; Que a mulher, com ser humana É mais fina do que tu.

Passou-se um ano, e ao diabo, Não lhe cresceram por fim, Nem as unhas, nem o rabo... Mas as pontas, essas sim.

Toma um conselho de amigo, Não te cases, Belzebu; Que a mulher, com ser humana É mais fina do que tu.

HINO PATRIÓTICO [21]

Brasileiros! haja um brado Nesta terra do Brasil: Antes a morte de honrado Do que a vida infame e vil!

O leopardo aventureiro, Garra curva, olhar feroz, Busca o solo brasileiro, Ruge e investe contra nós.

Brasileiros! haja um brado Nesta terra do Brasil: Antes a morte de honrado Do que a vida infame e vil!

Quer estranho despotismo Lançar-nos duro grilhão; Será o sangue o batismo Da nossa jovem nação.

Brasileiros! haja um brado Nesta terra do Brasil: Antes a morte de honrado Do que a vida infame e vil!

Pela liberdade ufana, Ufana pela honradez, Esta terra americana, Bretão, não te beija os pés.

Brasileiros! haja um brado Nesta terra do Brasil: Antes a morte de honrado Do que a vida infame e vil!

Nação livre, é nossa glória Rejeitar grilhão servil; Pareça a nossa memória Salva a honra do Brasil.

Brasileiros! haja um brado Nesta terra do Brasil: Antes a morte de honrado Do que a vida infame e vil!

Podes vir, nação guerreira; Nesta suprema aflição, Cada peito é uma trincheira, Cada bravo um Cipião.

Brasileiros! haja um brado Nesta terra do Brasil: Antes a morte de honrado Do que a vida infame e vil!

A CÓLERA DO IMPÉRIO [22]

De pé! — Quando o inimigo o solo invade Ergue-se o povo inteiro; e a espada em punhoÉ como um raio vingador dos livres!

Que espetáculo é este! — Um grito apenas Bastou para acordar do sono o império! Era o grito das vítimas. No leito, Em que a pusera Deus, o vasto corpo Ergue a imensa nação. Fulmíneos olhos

Lança em torno de si: — lúgubre aspecto A terra patenteia; o sangue puro, O sangue de seus filhos corre em ondas Que dos rios gigantes da floresta Tingem as turvas, assustadas águas. Talam seus campos legiões de ingratos. Como um cortejo fúnebre, a desonra E a morte as vão seguindo, e as vão guiando, Ante a espada dos bárbaros, não vale A coroa dos velhos; a inocência Debalde aperta ao seio as vestes brancas... É preciso cair. Pudor, velhice, Não nos conhecem eles. Nos altares Daquela gente, imola-se a virtude!

O império estremeceu. A liberdade Passou-lhe às mãos o gládio sacrossanto, O gládio de Camilo. O novo Breno Já pisa o chão da pátria. Avante! avante! Leva de um golpe aquela turba infrene! É preciso vencer! Manda a justiça, Manda a honra lavar com sangue as culpas De um punhado de escravos. Ai daquele Que a face maculou da terra livre! Cada palmo do chão vomita um homem! E do Norte, e do Sul, como esses rios Que vão, sulcando a terra, encher os mares, À falange comum os bravos correm!

Então (nobre espetáculo, só próprio De almas livres!) então rompem-se os elos De homens a homens. Coração, família, Abafam-se, aniquilam-se: perdura Uma idéia, a da pátria. As mães sorrindo Armam os filhos, beijam-nos; outrora Não faziam melhor as mães de Esparta. Deixa o tálamo o esposo; a própria esposaÉ quem lhe cinge a espada vingadora. Tu, brioso mancebo, às aras foges, Onde himeneu te espera; a noiva aguarda Cingir mais tarde na virgínea fronte Rosas de esposa ou crepe de viúva.

E vão todos, não pérfidos soldados Como esses que a traição lançou nos campos; Vão como homens. A flama que os alenta É o ideal esplêndido da pátria. Não os move um senhor; a veneranda Imagem do dever é que os domina. Esta bandeira é símbolo; não cobre, Como a deles, um túmulo de vivos.

Hão de vencer! Atônito, confuso, O covarde inimigo há de abater-se; E da opressa Assunção transpondo os muros Terá por prêmio a sorte dos vencidos.

Basta isso? Ainda não. Se o império é fogo, Também é luz: abrasa, mas aclara. Onde levar a flama da justiça, Deixa um raio de nova liberdade. Não lhe basta escrever uma vitória, Lá, onde a tirania oprime um povo; Outra, tão grande, lhe desperta os brios; Vença uma vez no campo, outra nas almas; Quebre as duras algemas que roxeiam Pulsos de escravos. Faça-os homens.

Treme, Treme, opressor, da cólera do império! Longo há que às tuas mãos a liberdade Sufocada soluça. A escura noite Cobre de há muito o teu domínio estreito; Tu mesmo abriste as portas do Oriente; Rompe a luz; foge ao dia! O Deus dos justos Os soluços ouviu dos teus escravos, E os olhos te cegou para perder-te!

O povo um dia cobrirá de flores, A imagem do Brasil. A liberdade Unirá como um elo estes dous povos. A mão, que a audácia castigou de ingratos, Apertará somente a mão de amigos. E a túnica farpada do tirano, Que inda os quebrados ânimos assusta, Será, aos olhos da nação remida, A severa lição de extintos tempos!

DAQUI DESTE ÂMBITO ESTREITO [23]

Daqui, deste âmbito estreito, Cheio de risos e galas, Daqui, onde alegres falas Soam na alegre amplidão, Volvei os olhos, volvei-os A regiões mais sombrias, Vereis cruéis agonias, Terror da humana razão.

Trêmulos braços alçando, Entre os da morte e os da vida,

Solta a voz esmorecida, Sem pão, sem água, sem luz, Um povo de irmãos, um povo Desta terra brasileira, Filhos da mesma bandeira, Remidos na mesma cruz.

A terra lhes foi avara, A terra a tantos fecunda; Veio a miséria profunda, A fome, o verme voraz. A fome? Sabeis acaso O que é a fome, esse abutre Que em nossas carnes se nutre E a fria morte nos traz?

Ao céu, com trêmulos lábios, Em seus tormentos atrozes Ergueram súplices vozes, Gritos de dor e aflição; Depois as mãos estendendo, Naquela triste orfandade, Vêm implorar caridade, Mais que à bolsa, ao coração.

O coração... sois vós todos, Vós que as súplicas ouvistes; Vós que às misérias tão tristes Lançais tão espesso véu. Choverão bênçãos divinas Aos vencedores da luta: De cada lágrima enxuta Nasce uma graça do céu.

A FRANCISCO PINHEIRO GUIMARÃES [24]

Ouviste o márcio estrépito E a mão lançando à espada Foste, soldado indômito, Vingar a pátria amada, Do universal delírio Aceso o coração.

Foste, e na luta férvida, (Glória e terror das almas) De quais loureiros vividos Colheste eternas palmas, Diga-o ao mundo e à história A boca da nação!

Custa sentidas lágrimas A glória; a terra bebe Sangue de heróis e mártires Que a morte ali recebe; Da santa pátria o júbilo

Custa a melhor das mães.

Mas tu, audaz e impávido, No ardor de cem porfias, A mão dum ser angélico, Herói, guiou teus dias; E no amplo livro inscreveu-te Dos novos capitães!

Se hoje co’as roupas cândidas Voltou a paz à terra, Não, não te basta o esplêndido Louro da extinta guerra; De outra gentil vitória A palma aqui terás.

Chamam-te as musas, chama-te A imensa voz do povo, Que em seu aplauso unânime Te guarda um prêmio novo; Vem lutador do espírito, Colhe os lauréis da paz.

À MEMÓRIA DO ATOR TASSO [25]

Vós que esta sala encheis, e a lágrima sentida E o riso de prazer conosco misturais, E depois de viver da nossa mesma vida Ao lar tranqüilo e bom contentes regressais;

Que perdeis? Um noute; algumas horas. Tudo, Alma, vida, razão, tudo vos damos nós: Um perpétuo lidar, um continuado estudo, Que um só prêmio conhece, um fim único: vós.

E este chão, que juncais de generosas flores, É nossa alegre estrada, e vamos sem sentir, Sem jamais indagar as encobertas dores Que em seu seio nos traz o sombrio porvir.

Além, além do mar que separa dous mundos, Um artista que foi glória nossa e padrão, Quando à terra subiu dos êxtases profundos Terna esposa deixou na mágoa e na aflição.

Hoje, que vos convida uma intenção piedosa, Que escutais de além-mar uma súplice voz, Hoje, a mão estendeis à desvalida esposa; Obrigada por ele! obrigada por nós!

NO ÁLBUM DO SR. QUINTELA [26]

Faz-se a melhor harmonia Com elementos diversos; Mesclam-se espinhos às flores: Posso aqui pôr os meus versos.

VERSOS [27]

Escritos no álbum da Exma. Sra. D. Branca

P. da C.

Pede estrelas ao céu, ao campo flores; Flores e estrelas ao gentil regaço Virão da terra ou cairão do espaço, Por te cobrir de aromas e esplendores.

Versos... pede-os ao vate peregrino Que ao céu tomando inspirações das suas, A tua mocidade e as graças tuas Souber nas notas modular de um hino.

Mas que flores, que versos ou que estrelas Pedir-me vens? A musa que me inspira Mal poderia celebrar na lira Dotes tão puros e feições tão belas.

Pois que me abris, no entanto, a porta franca Deste livro gentil, casto e risonho, Uma só flor, uma só flor lhe ponho E seja o nome angélico de Branca.

SONETO [28]

Caro Rocha Miranda e companhia, Muzzio, Melo, Cibrão, Arnaldo e Andrade, Enfim, a toda a mais comunidade Manda saudades o Joaquim Maria.

Sou forçado a não ir à freguesia; Tenho entre mãos, com pressa e brevidade, Um trabalho de grande seriedade Que hei de acabar mais dia menos dia.

Esta é a razão mais clara e pura Pelo qual, meus amigos, vos remeto Uma insinuação de vagatura.

Mas, na segunda-feira vos prometo Que haveis de ter (minha barriga o jura) Mais uma canja e menos um soneto.

NAQUELE ETERNO AZUL, ONDE COEMA [29]

Naquele eterno azul, onde Coema, Onde Lindóia, sem temor dos anos, Erguem os olhos plácidos e ufanos, Também os ergue a límpida Iracema.

Elas foram, nas águas do poema, Cantadas pela voz de americanos, Mostrar às gentes de outros oceanos Jóias do nosso rútilo diadema.

E, quando a magna voz inda afinavas Foges-nos, como se a chamar sentiras A voz da glória pura que esperavas.

O cantor do Uruguai e o dos Timbiras Esperavam por ti, tu lhe faltavas Para o concerto das eternas liras.

DAI À OBRA DE MARTA UM POUCO DE MARIA [30]

Daí à obra de Marta um pouco de Maria, Dai um beijo de sol ao descuidado arbusto; Vereis neste florir o tronco erecto e adusto, E mais gosto achareis naquela e mais valia.

A doce mãe não perde o seu papel augusto, Nem o lar conjugal a perfeita harmonia. Viverão dous aonde um até 'qui vivia, E o trabalho haverá menos difícil custo.

Urge a vida encarar sem a mole apatia, Ó mulher! Urge pôr no gracioso busto, Sob o tépido seio, um coração robusto.

Nem erma escuridão, nem mal-aceso dia. Basta um jorro de sol ao descuidado arbusto, Basta à obra de Marta um pouco de Maria.

RELÍQUIA ÍNTIMA [31]

Ilustríssimo, caro e velho amigo, Saberás que, por um motivo urgente, Na quinta-feira, nove do corrente, Preciso muito de falar contigo.

E aproveitando o portador te digo, Que nessa ocasião terás presente, A esperada gravura de patente Em que o Dante regressa do Inimigo.

Manda-me pois dizer pelo bombeiro

Se às três e meia te acharás postado Junto à porta do Garnier livreiro:

Senão, escolhe outro lugar azado; Mas dá logo a resposta ao mensageiro, E continua a crer no teu Machado.

A DERRADEIRA INJÚRIA [32]

E ainda, ninfas minhas, não bastava...

CAMÕES, Lusíadas, VII, 81.

I

Vês um féretro posto em solitária igreja? Esse pó que descansa, e se esconde, e se some, Traz de um grande ministro o formidável nome, Que em vivas letras de ouro e lágrimas flameja.

Lá fora uma invasão esquálida braceja, Como um mar de miséria e luto, que tem fome, E novas praias busca e novas praias come, Enquanto a multidão, recuando, peleja.

O gaulês que persegue, o bretão que defende, Duas mãos de um destino implacável e oculto, Vão sangrando a nação exausta que se rende;

Dentre os mortos da história um só único vulto Não ressurge; um Pacheco, um Castro não atende; E a cobiça recolhe os despojos do insulto.

II

Ora, na solitária igreja em que se há posto O féretro, se alguém pudesse ouvir, ouvira Uma voz cavernosa e repassada de ira,

De tristeza e desgosto.

Era uma voz sem rosto, Um eco sem rumor, uma nota sem lira. Como que o suspirar do cadáver disposto A rejeitar o leito eterno em que dormira.

E ninguém, salvo tu, ó pálido, ó suave Cristo, ninguém, exceto uns três ou quatro santos, Envolvidos e sós, nos seus sombrios mantos,

Ninguém ouvia em toda aquela escura nave Dessa voz tão severa, e tão triste, e tão grave, Murmurados a medo, as cóleras e os prantos.

E dizia essa voz: — “Eis, Lusitânia, a espada Que reluz, como o sol, e como o raio, lança Sobre a atônita Europa a morte ensangüentada.

“Venceu tudo; ei-la aí que te fere e te alcança, Que te rasga e te põe na cabeça prostrada O terrível sinal das legiões de França.

“E, como se o furor, e, como se a ruína Não bastassem a dar-te a pena grande e inteira, Vem juntar-se outra dor à tua dor primeira, E o que a espada começa a tristeza termina.

“És o campo funesto e rude em que se afina Pugna estranha; não tens a glória derradeira, De devolver farpada e vencida a bandeira, E ser Xerxes embora, ao pé de Salamina.

IV

“No entanto, ao longe, ao longe uma comprida história De batalhas e descobertas, Um entrar de contínuo as portas da memória Escancaradamente abertas,

“Enchia esta nação, que aprendera a vitória Naquela crespa idade antiga, Quando, em vez do repouso, era a lei da fadiga, E a glória coroava a glória.

“E assim foi, palmo a palmo, e reduto a reduto, Que um punhado de heróis, que um embrião de povo Levantara este reino novo;

“E livre, independente, esse áspero produto Da imensa forja pôde, achegando-se às plagas, Fitar ao longe as longas vagas.

V

“Era escasso o torrão; por compensar-lhe a míngua, Assim foi que dobraste aquele oculto cabo, Não sabido de Plínio, ignorado de Estrabo, E que Homero cantou em uma nova língua.

“Assim foi que pudeste haver África adusta, Ásia, e esse futuro e desmedido império, Que no fecundo chão do recente hemisfério A semente brotou da tua raça augusta.

“Eis, Lusitânia, a obra. Os séculos que a viram Emergir, com o sol dos mares, e a poliram, Transmitem-lhe a memória aos séculos futuros.

“Hoje a terra de heróis sofre a planta inimiga... Quem pudera mandar aqueles peitos duros! Quem soubera empregar aquela força antiga!”

VI

E depois de um silêncio: — “Um dia, um dia, um dia Houve em que nesta nobre e antiga monarquia, Um homem, — paz lhe seja e a quantos lhe consomem A sagrada memória, — houve um dia em que um homem

“Posto ao lado do rei e ao lado do perigo Viu abater o chão; viu as pedras candentes Ruírem; viu o mal das cousas e das gentes, E um povo inteiro nu de pão, de luz e abrigo.

“Esse homem, ao fitar uma cidade em ossos, Terror, dissolução, crime, fome, penúria, Não se deixou cair coos últimos destroços.

“Opôs a força à força, opôs a pena à injúria, Restituiu ao povo a perdida hombridade, E donde era uma ruína ergueu uma cidade.

VII

“Esse homem eras tu, ó alma que repousas Da cobiça, da glória e da ambição do mando, Eras tu, que um destino, e propício, e nefando, Ao fastígio elevou dos homens e das cousas.

“Eras tu que da sede ingrata de ministro Fizeste um sólio ao pé do sólio; tu, sinistro Ao passado, tu novo obreiro, áspero e duro, Que traçavas no chão a planta do futuro.

“Tu querias fazer da história uma só massa Nas tuas fortes mãos, tenazes como a vida, A massa obediente e nua.

“A luminosa efígie tua Quiseste dar-lhe, como à brônzea estátua erguida, Que o século corteja, inda assustado, e passa.

VIII

“Contra aquele edifício velho Da nobreza, — elevado ao lado do edifício Da monarquia e do evangelho, — Tu puseste a reforma e puseste o suplício.

“Querias destruir o vício Que a teus olhos roía essa fábrica enorme, E começaste o duro ofício Contra o que era caduco, e contra o que era informe.

“Não te fez recuar nesse áspero duelo Nem dos anos a flor, nem dos anos o gelo, Nem dos olhos das mães as lágrimas sagradas.

“Nada; nem o negror austero da batina, Nem as débeis feições da graça feminina Pela veneração e pelo amor choradas.

IX

“Ah! se por um prodígio especial da sorte, Pudesses emergir das entranhas da morte, Cheio daquela antiga e fera gravidade,

Com que salvaste uma cidade;

“Quem sabe? Não houvera em tão longa campanha Ensangüentado o chão do luso a planta estranha, Nem correra a nação tal dor e tais perigos

Às mãos de amigos e inimigos.

“Tu serias o mesmo aspérrimo e impassível Que viu, sem desmaiar, o conflito terrível Da natureza escura e da escura alma humana;

“Que levantando ao céu a fronte soberana,

— “Eis o homem!” disseste, — e a garra do destino Indelével te pôs o seu sinal divino”.

X

E, soltado esse lamento Ao pé do grande moimento, Calou-se a voz, dolorida

De indignação.

Nenhum outro som de vida Naquela igreja escondida... Era uma pausa, um momento

De solidão.

E continuavam fora A morte, dona e senhora Da multidão;

E devastava a batalha, Como o temporal que espalha Folhas ao chão.

XI

E essa voz era a tua, ó triste e solitário Espírito! eras tu, forte outrora e vibrante, Que pousavas agora, — apenas cintilante, — Sobre o féretro, como a luz de um lampadário.

Era tua essa voz do asilo mortuário, Essa voz que esquecia o ódio triunfante Contra o que havia feito a tua mão possante, E a inveja que te deu o pontual salário.

E contigo falava uma nação inteira,

E gemia com ela a história, não a história Que bajula ou destrói, que morde ou santifica.

Não; mas a história pura, austera, verdadeira, Que de uma vida errada a parte que lhe fica De glória, não esconde às ovações da glória.

XII

E, tendo emudecido essa garganta morta, O silêncio voltara àquela nave escura, Quando subitamente abre-se a velha porta, E penetra na igreja uma estranha figura.

Depois outra, e mais outra, e mais três, e mais quatro. E todas, estendendo os braços, vão abrindo As trevas, costeando os muros, e seguindo Como a conspiração nas tábuas de um teatro.

E param juntamente em derredor do leito Último em que descansa esse único despojo De uma vida, que foi uma longa batalha.

E enquanto um fere a luz que as tênebras espalha, Outro, com gesto firme e firmíssimo arrojo, Toma nas cruas mãos aquele rei desfeito.

XIII

Então... O homem que viu arrancarem-lhe aos braços Poder, glória, ambição, tudo o que amado havia; Esse que foi o sol de um século, que um dia, Um só dia bastou para fazer pedaços;

Que, se aos ombros atara uma púrpura nova, Viu, farrapo a farrapo, arrancarem-lha aos ombros; Que padecera em vida os últimos assombros, Tinha ainda na morte uma última prova.

Era a brutal rapina, anônima, noturna, Era a mão casual, que espedaçava a urna A troco de um galão, a troco de uma espada;

Que, depois de tomar-lhe esses sinais funestos Da sombra de um poder, pegou dos tristes restos, Ossos só, e espalhou pela nave sagrada.

XIV

Assim pois, nada falta à glória deste mundo, Nem a perseguição repleta de ódio e sanha, Nem a fértil inveja, a lívida campanha, De tudo o que radia e tudo que é profundo.

Nada falta ao poder, quando o poder acaba; Nada; nem a calúnia, o escárnio, a injúria, a intriga, E, por triste coroa à merencória liga,

A ingratidão que esquece e a ingratidão que baba.

Faltava a violação do último sono eterno, Não para saciar um ódio insaciável, Insaciável como os círculos do inferno.

E deram-ta; eis-te aí, ó grande invulnerável, Eis-te ossada sem nome, esparsa e miserável, Sobre um pouco de chão do ninho teu paterno.

REFUS [33]

A Jaime de Séguier

Non, je ne paye pas, car il est incomplet Cet ouvrage. On y voit, certes, la belle touche Que ton léger pinceau met à tout ce qu'il touche; Et, pour un beau sonnet, c'est un fort beau sonnet.

Ce sont-là mes cheveux, c'est bient-là le reflet De mes yeux noirs. Je ris devant ma propre bouche. Je reconnais cet air tendre ainsi que farouche Qui fait toute ma force et tout mon doux secret.

Mais, cher peintre du ciel, il manque à ton ouvrage De ne pas être dix, tous également doux, Vibrant d'âme, et parfaits d'art profond, riche et sage.

Adieu, donc, le contrat! Je le tiens pour dissous, Car, pour de beaux portraits, pleins de charme et de vie, Pour un baiser, je veux toute une galerie.

ENTRA CANTANDO, ENTRA CANTANDO, APOLO! [34]

1891

Entra cantando, entra cantando, Apolo! Entra sem cerimônia, a casa é tua; Solta versos ao sol, solta-os à lua, Toca a lira divina, alteia o colo.

Não te embarace esta cabeça nua; Se não possui as primitivas heras, Vibra-lhe ainda a intensa vida sua, E há outonos que valem primaveras.

Aqui verás alegre a casa e a gente, Os adorados filhos, — terno e brando Consolo ao coração que os ama e sente.

E ouvirás inda o eco reboando Do canto dele, que terás presente. Entra cantando, Apolo, entra cantando.

A GUIOMAR [35]

1892

Ri, Guiomar, anda, ri. Quando ressoa Tua alegre risada cristalina, Ouço a alma da moça e da menina, Ambas na mesma lépida pessoa.

E então reparo, como o tempo voa, Como a rosa nascente e pequenina Cresceu, e a graça fresca apura e afina... Ri, Guiomar, anda, ri, mimosa e boa.

A bela cor, o aroma delicado, Por muitos anos crescerão ainda, Ao vivo olhar do noivo teu amado.

Para ti, cara flor, a vida é infinda, O tempo amigo, longo e repousado. Ri, Guiomar, anda, ri, discreta e linda.

PRÓLOGO DO INTERMEZZO [36]

(H. Heine)

Um cavalheiro havia, taciturno, Que o rosto magro e macilento tinha. Vagava como quem de algum noturno Sonho levado, trépido caminha. Tão alheio, tão frio, tão soturno, Que a moça em flor e a lépida florinha, Quando passar tropegamente o viam, Às escondidas dele escarneciam.

A miúdo buscava a mais sombria Parte da casa, por fugir à gente; Daquele posto os braços estendia Tomado de desejo impaciente. Uma palavra só não proferia. Mas, pela meia-noite, de repente, Estranho canto e música escutava, E logo alguém que à porta lhe tocava.

Furtivamente então entrava a amada O vestido de espumas arrastando, Tão vivamente fresca e tão corada Como a rosa que vem desabrochando; Brilha o véu; pela esbelta e delicada Figura as tranças soltas vão brincando; Os meigos olhos dela os dele fitam, E um ao outro de ardor se precipitam.

Com a força que amor somente gera, O peito a cinge, agora afogueado; O descorado as cores recupera, E o retraído acaba namorado, O sonhador desfaz-se da quimera... Ela o excita, com gesto calculado; Na cabeça lhe lança levemente O adamantino véu alvo e luzente.

Ei-lo se vê em sala cristalina De aquático palácio. Com espanto Olha, e de olhar a fábrica divina Quase os olhos lhe cegam. Entretanto, Junto ao úmido seio a bela ondina O aperta tanto, tanto, tanto, tanto... Vão as bodas seguir-se. As notas belas Vêm tirando das cítaras donzelas.

As notas vêm tirando, e deleitosas Cantam, e cada uma a dança tece Erguendo ao ar as plantas graciosas. Ele, que todo e todo se embevece, Deixa-se ir nessas horas amorosas... Mas o clarão de súbito fenece, E o noivo torna à pálida tristura Da antiga, solitária alcova escura.

A CAROLINA [37]

1906

Querida, ao pé do leito derradeiro Em que descansas dessa longa vida, Aqui venho e virei, pobre querida, Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro Que, a despeito de toda a humana lida, Fez a nossa existência apetecida E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, — restos arrancados Da terra que nos viu passar unidos E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos Pensamentos de vida formulados, São pensamentos idos e vividos.

SONETO [38]

[No Álbum da Rainha D. Amélia]

Senhora, se algum dia aqui vierdes, A estas terras novas e alongadas, Encontrareis as vozes que perderdes De outras gentes por vós há muito amadas.

E as saudades que então cá padecerdes, Das terras vossas, velhas e deixadas, Nestas cidades, nestes campos verdes, Serão do mesmo nome acalentadas.

Mas nem só isto. Um só falar não basta. A história o deu, um só falar dileto, Da mesma compostura, antiga e casta.

Achareis mais outro falar discreto, Sem palavras, que a vossa glória arrasta, A mesma admiração e o mesmo afeto.

A FRANCISCA [39]

Nunca faltaram aos poetas (quando Poetas são de veia e de arte pura), Para cantar a doce formosura, Rima canora, verso meigo e brando.

Mas eu triste poeta miserando, Só tenho áspero verso e rima dura; Em vão minh'alma sôfrega procura Aqueles sons que outrora achava em bando.

Assim, gentil Francisca delicada, Não achando uma rima em que te veja Harmoniosamente bem rimada,

Recorrerei à Santa Madre Igreja Que rime o nome de Francisca amada Com o nome de Heitor, que amado seja.

À ILMA. SRA. D. P. J. A. [40]

Quem pode em um momento descrever Tantas virtudes de que sois dotada Que fazem dos viventes ser amada Que mesmo em vida faz de amor morrer!

O gênio que vos faz enobrecer, Virtude e graça de que sois c'roada Vos fazem do esposo ser amada (Quanto é doce no mundo tal viver!)

A natureza nessa obra primorosa, Obra que dentre todas as mais brilha, Ostenta-se brilhante e majestosa!

Vós sois de vossa mãe a cara filha, Do esposo feliz, a grata esposa, Todos os dotes tens, ó Petronilha.

A SAUDADE [41]

Ao meu primo o Sr. Henrique José Moreira

Meiga saudade! — Amargos pensamentos A mente assaltam de valor exausta, Ao ver as roxas folhas delicadas

Que singelas te adornam.

Mimosa flor do campo, eu te saúdo; Quanto és bela sem seres perfumada! Que te inveja o jasmim, a rosa e o lírio

Com todo o seu perfume?

Repousa linda flor, num peito f 'rido, A quem crava sem dó a dor funesta, O horrível punhal, que fere e rasga

Um débil coração.

Repousa, linda flor, vem, suaviza A frágua que devora um peito ansioso, Um peito que tem vida, mas que vive

Envolto na tristeza!...

Mas não... deixo-te aí causando inveja; Não partilhes a dor que me consome, Goza a ventura plácida e tranqüila,

Mimosa flor do campo.

JÚLIA [42]

Teu rosto meigo e singelo Tem do Céu terno bafejo.

Tu és a rosa do prado Desabrochando ao albor Abrindo o purpúreo seio, Abrindo os cofres de amor.

Tu és a formosa lua Percorrendo o azul dos céus, Retratando sobre a linfa. Os seus alvacentos véus.

Tu és a aurora formosa Quando dalém vem surgindo; E que se ostenta garbosa Áureas flores espargindo.

Tu és perfumada brisa Sobre o prado derramada Que goza os doces sorrisos Da formosa madrugada.

Tua candura e beleza Tem de amor doce expressão És um anjo, minha Júlia, Donde nasce a inspiração.

Quando a terra despe as galas E os mantos da noite veste, Vejo brilhar tua imagem Lá na abóbada celeste.

Nela vejo as tuas graças, Nela vejo um teu sorriso Nela vejo um volver d'olhos Nascido do paraíso.

És ó Júlia, meiga virgem Que temente ora ao Senhor; São teus olhos duas setas. O teu todo é puro amor.

MEU ANJO [43]

Um anjo desejei ter a meu lado... E o anjo que sonhei achei-o em ti!...

C. A. DE SÁ

És um anjo d’amor — um livro d’ouro,

Onde leio o meu fado És estrela brilhante do horizonte Do Bardo enamorado

Foste tu que me deste a doce lira Onde amores descanto Foste tu que inspiraste ao pobre vate D’amor festivo canto; É sempre nos teus cantos sonorosos Que eu bebo inspiração; Risos, gostos, delícias e venturas Me dá teu coração. teu nome que trago na lembrança Quando estou solitário, Teu nome a oração que o peito reza D'amor um santuário! E tu que és minha estrela, tu que brilhas Com mágico esplendor,

Escuta os meigos cantos de minh’alma Meu anjo, meu amor.

Quando sozinho, na floresta amena Tristes sonhos modulava, Não em lira d'amor — na rude frauta Que a vida me afagava, Tive um sonho d'amor; sonhei que um anjo Estava ao lado meu, Que com ternos afagos, com mil beijos Me transportava ao céu. Esse anjo d'amor descido acaso De lá do paraíso, Tinha nos lábios divinais, purpúreos Amoroso sorriso; Era um sorriso que infundia n'alma O mais ardente amor; Era o reflexo do formoso brilho Da fronte do Senhor. É anjo sonhado, cara amiga, A quem consagro a lira,És tu por quem minh'alma sempre triste Amorosa suspira!

Quando contigo, caro bem, d'aurora O nascimento vejo Em um berço florido, e de ventura Gozarmos terno ensejo; Quando entre mantos d'azuladas cores A meiga lua nasce E num lago de prata refletindo Contempla a sua face; Quando num campo verdejante e ameno Dum aspecto risonho Ao lado teu passeio; eu me recordo Do meu tão belo sonho E lembra-me esse dia venturoso Em que a vida prezei Que vi teus meigos lábios me sorrirem, Que logo te adorei!

Nesse dia sorriu a natureza Com mágico esplendor Parecia augurar ditoso termo Ao nosso puro amor. E te juro, anjo meu, ditosa amiga, Por tudo que há sagrado, Que esse dia trarei junto ao teu nome No meu peito gravado. E tu que és minha estrela, tu que brilhas Com mágico esplendor, Escuta os meigos cantos de minh'alma, Meu anjo, meu amor!

UM SORRISO [44]

Em seus lábios um sorriso É a luz do paraíso.

GARRET

Não sabes, virgem mimosa, Quanto sinto dentro d'alma Quando sorris tão formosa Sorriso que traz-me a calma: Brando sorriso d'amores Que se desliza entre as flores De teus lábios tão formosos; Doce sorriso que afaga Do peito a profunda chaga De tormentos dolorosos.

Quando o diviso amoroso Por sobre as rosas vivaces Torno-me louco, ansioso, Desejo beijar-te as faces;

Corro a ti... porém tu coras Logo súbito descoras Arrependida talvez... Na meiga face t'imprimo Doce beijo, doce mimo Da paixão que tu bem vês

Eu gosto, meiga donzela, De ver-te sorrindo assim Semelhas divina estrela Que brilhas só para mim: És como uma linda rosa Desabrochando mimosa Ao respiro da manhã: És como serena brisa Que no vale se desliza, Seu mais terno e doce afã.

O brando favônio ameno; Da fonte o gemer sentido, Da lua o brilho sereno Sobre um lago refletido Não tem mais doces encantos Que, sobre os puníceos mantos Dos lábios teus um sorriso.

Sorriso que amor me fala Como d'alva o encanto, a gala Quando serena a diviso.

Sorri, sorri, que teu sorriso brando Minhas penas acalma;É como a doce esp'rança realizada Que as ânsias desvanece!

E se queres em troca dum sorriso Uma prova de amor Vem para perto de mim m' escuta ao peito Na face um beijo toma...

PARÓDIA [45]

Se eu fora poeta de um estro abrasado Quisera teu lindo semblante cantar; Gemer eu quisera bem junto a teu lado, Se eu fora uma onda serena do mar;

Se eu fora uma rosa de prado relvoso, Quisera essa coma, meu anjo, adornar; Se eu fora um anjinho de rosto formoso Contigo quisera no espaço voar;

Se eu fora um astro no céu engastado Meu brilho, quisera p’ra ti só brilhar; Se eu fora um favônio de aromas pejado Por sobre teu corpo me iria espraiar;

Se eu fora das selvas um’ave ligeira Meus cantos quisera p’ra ti só trinar; Se eu fora um eco de nota fagueira Fizera teu canto no céu ressoar;

Mas eu não sou astro, poeta, ou anjinho, Nem eco, favônio, nem onda do mar; Nem rosa do prado, ou ave ligeira; Sou triste que a vida consiste em te amar.

A SAUDADE [46]

Saudade! ó casta virgem, Qu'inspiraste a Bernardim, Nos meus dias de tristeza Consolar tu vens a mim.

E G. BRAGA

Saudade! d’alma ausente, o acerbo impulso, Mágico, doce sentimento d’alma Místico enleio que nos cerra doce O espírito cansado!... Oh! saudade, Para que vens pousar-te envolta sempre Em tuas vestes roxeadas tristes, Nas débeis cordas de minh’harpa débil?!... Doce chama me ateias dentro d’alma. Meiga esperança que me nutre em sonhos De cândida ventura!... Ó saudade, D'alma esquecida o despertar pungente; Doce virgem do Olimpo rutilante, Que co'a taça na destra à terra baixas E o agro, doce líquido entornando Em coração aflito, meiga esparges Indizível encanto, que deleita, Melancólicas horas num letargo D'espírito cansado, d’alma aflita, Que plácida flutua extasiada, Na etérea região, morada excelsa Do sidéreo esplendor que a mente inflama; Tu que estreitas minh’alma em doce amplexo Preside ao canto meu, ao pranto, às dores.

Quando a noite vaporosa,

Silenciosa, Cinge a terra em manto denso; Quando a meiga, a clara Hebe.

Cor de neve Branda corre o espaço imenso. Quando a brisa suspirando,

Sussurrando, Move as folhas do arvoredo, Qual eco d’um som tristonho

Que num sonho Revela ao Vate um segredo.

Quando, enfim, se envolve o mundo

Num profundo Silêncio que ao Vate inspira, Vens a meu lado sentar-te,

Vens pousar-te. Nas cordas de minha lira.

E me cinges num abraço

Doce laço Que se aperta mais, e mais; E depois entre os carinhos,

Teus espinhos Em minh'alma repassais!

Entre a melancolia

De poesia Me dais santa inspiração Da alma solto uma endeixa,

Triste queixa, Triste queixa, mas em vão.

Na morada estelífera vagueia Minh’alma em teus carinhos absorta. D'aéreo berço, sobre ameno encosto Adormece de amor, junto a teu lado, E geme melancólica... e suspira, Té que desponte da ventura a aurora!

NO ÁLBUM DO SR. F. G. BRAGA [47]

Pago ao gênio um tributo merecido Que a gratidão me inspira; Fraco tributo, mas nascido d'alma.

MAG. SAUDADES

Qual descantou na lira sonorosa O terno Bernardim com voz suave; Qual em tom jovial cantou Elmano Brandas queixas de amor, tristes saudades Que em seus cantares mitigou; oh! Vate, Assim da lira tu, ferindo as cordas, Cantas amores que em teu peito nutres, Choras saudades que tu'alma sente; Ou ergues duradouro monumento À cara pátria que distante choras.

Do Garrett divino — o Vate excelso Renasce o brilho inspirador das trovas, Das mimosas canções que o mundo espantam Nesse canto imortal sagrado aos manes Do famoso Camões, cantor da Lísia São carmes que te inspira o amor da Pátria. Nele relatas em divinos versos O exímio Trovador, a inteira vida Já no campo de Marte; já no cume Do Parnaso bradando aos povos todos Os feitos imortais da lusa gente! Nessa epopéia, monumento excelso Que em memória do Vate à pátria ergueste, Ardente se desliza a etérea chama, Que de Homero imortal aos sucessores Na mente ateia o céu com forte sopro!

Euterpe, a branda Euterpe nos teus lábios Da taça d’ouro, derramando o néctar Deu-te a doce com que outr’ora Extasiou Virgílio ao mundo inteiro! Empunha a lira d'ouro, e canta altivo Um Tasso em ti se veja — o estro excelso De Camões imortal, te assoma à mente; E de verde laurel cingida a fronte Faz teu nome soar na voz da fama!" Foram estas frases com que Apolo Poeta te fadou quando nasceste, E em doce gesto te imprimiu na fronte Um astro de fulgor, que sempre brilha!

Ah! que não possam estes pobres versos, Que n’áureas folhas de teu belo livro Trêmulo de prazer co’a destra lanço, Provar-te o assombro, que ao ouvir te sinto! Embora!.., entre os arquejos de minh’alma Do opresso coração entre os suspiros As brandas vibrações da pobre lira Vão em tua alma repetir sinceros Votos dest’alma que te prove o assombro

Que sinto ao escutar-te as notas d'harpa!

A UMA MENINA [48]

La esencia de las flores Tu dulce aliento sea.

QUINTANA

Desabrochas ainda; tu és bela Como a flor do jardim;És doce, és inocente, como é doce Divino Querubim.

Nas gotas da pureza inda se anima A tu'alma infantil; Não te nutre inda o peito da malícia Mortífero reptil.

Quando sorris trasbordam de teus lábios As gotas d’inocência; No teu sorriso se traduz o encanto Da tua pura essência.

És anjo, e são os anjos que confortam Os tormentos da vida; Vive, e não haja em teu semblante a prova De lágrima vertida!

O GÊNIO ADORMECIDO [49]

Ao Ilmo. Sr. Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa

Do Grego Vate expande-se a harmonia Em teus sonoros carmes! Na harpa d'ouro Do sacro Apollo, Trovador, dedilhas Doces cantos que o espírito arrebata

Ao recinto celeste!

Em cit’ra de marfim, com fios d’ouro Cantaste infante, para que mais tarde A fama ativa as tubas embocando Com voz imensa proclamasse aos mundos

Um gênio americano!

E tu dormes, Poeta?! Da palmeira No verde tronco penduraste a lira. Após nela entoar linda epopéia, Que mau condão funesto à nossa pátria

Faz soporoso o Vate!

Vatel Vate!... Que morre harmonioso!

Semelha um som ao respirar das brisas Nas doces cordas do alaúde d'ouro Pendurado no ramo da palmeira,

Que sombreia o regato!

Desperta, ó Vate, e libertando o estro Desprende a voz, e os cânticos divinos; Deixa entornar-se em teus ungidos lábios Como a ribeira deslizando o corpo

Cercado de boninas.

Sim, ó Vate, o teu canto é tão sonoro Como os sons da Seráfica harmonia Dos sonorosos cantos sublimados Do doce Lamartine — o Bardo excelso.

Da França o belo Gênio!

Toma a lira de novo, e um canto vibra, E depois ouvirás a nossa terra Orgulhosa dizer: — Grécia, emudece Dos vates berço, abrilhantado surge

O Gênio adormecido!

O PROFETA [50]

(FRAGMENTO)

...ungido crente, Alma de fogo, na mundana argila.

M. A. A. AZEVEDO

Do sacro templo, sobre as negras ruínas lá medita o profeta Com fatídica voz, dizendo aos povos Os decretos de um Deus; Ao rápido luzir do raio imenso Traçando as predições. Dos soltos furacões, libertas asas Adejam sobre a terra: Do sacro templo em denegridos muros Horríssono gemendo Lá fende o seio de pesadas nuvens O fulminoso raio Sinistro brilho, que o terror infunde.

Que negro e horrível quadro! Propínquo esboço da infernal morada!... .......................................................... E o profeta ergue a fronte, a fronte altiva Cheio de inspiração, de vida cheio; Revolvem-se na mente escandescida Inspiradas idéias que Deus cria Nesse cofre que encerra arcanos sacros; Revolvem-se as idéias, pensamentos Que num lampejo abrangem as idades

Rápidas aglomeradas

Nesse abismo que os séculos encerra! Profeta, em que meditas, espírito de Deus que te revela?

Um novo cataclismo Que a terra inunde e a humanidade espante? De guerras sanguinosas longa série? A desgraça talvez dum povo inteiro? Enviado de Deus, conta-me os sonhos Que te revelam do futuro as sortes Quando absorto em sacros pensamentos A fronte reclinando tu dormitas Essas visões que à hora do silêncio Quando reina o pavor, e as trevas reinam Os céus ensaiam qu’o porvir revelam: E quando é bela a noite, quando brilha

A prateada lua Lâmpada argêntea, que alumia as trevas Quando fulguram meigos Formosos, belos astros, que semelham Longa série de luzes Que a lousa aclaram do sepulcro imenso:

O que te inspira o céu? ...................................................... Já sossega a tormenta; — refreados jazem mudos os ventos; só a brisa Plácida expele as condensadas nuvens; Envolta em negro véu lá brilha acaso Medrosa estrela que sorri medrosa: ‘Stá muda a atmosfera! Lá se ergue De súbito o profeta, (sacra gota Na mente lhe verteu do Eterno a destra), Do Supremo Arquiteto o mando grava No extenso muro do arruinado templo!...

O PÃO D'AÇÚCAR [51]

Salve, altivo gigante, mais forte Que do tempo o cruel bafejar, Que avançado campeias nos mares, Seus rugidos calado a escutar.

Quando Febo ao nascente aparece Revestido de gala e de luz, Com seus raios te inunda, te beija, Em tua fronte brilhante reluz.

Sempre quedo, com a fronte inclinada, Acoberto dum véu denegrido; Tu pareces gigante que dorme Sobre as águas do mar esquecido.

És um rei, sobranceiro ao oceano, Parda névoa te cobre essa fronte, Quando as nuvens baixando em ti pairam Matizadas do sol no horizonte.

Fez-te o Eterno surgir d’entre os mares C’uma frase somente, c’um grito Pos-te à fronte gentil majestade, Negra fronte de duro granito.

Ruge o mar, a procela te açoita, Feros ventos te açoitam rugindo; O trovão lá rebrama furioso, E impassível tu ficas sorrindo.

E da foice do tempo se solta Sopro fero de breve eversão, Quer feroz te roubar para sempre; Tu sorris, qual sorris ao trovão.

Salve, altivo gigante, mais forte Que do tempo o cruel bafejar, Que avançado campeias nos mares, Seus rugidos calado a escutar.

SONETO A S. M. O IMPERADOR, O SENHOR D. PEDRO II

[52]

Nesse trono Senhor, que foi erguido Por um povo já livre, e sustentado Por ti, que alimentando as leis, o estado Hás na História teu Nome engrandecido!

Nesse trono, Senhor, onde esculpido Tem à destra do Eterno um nome amado, Vês nascer este dia abrilhantado Sorrindo a ti, Monarca esclarecido.

Eu te saúdo neste dia imenso! Da Clemência, Justiça e sã Verdade, Queimando às piras perfumoso incenso.

Elevado aos umbrais da imensidade Terás fama, respeito e amor intenso. Um Nome transmitindo à Eternidade!

Rio, 2 de dezembro de 1855.

Pelo seu reverente súdito

J. M. M. d'Assis.

À MADAME ARSÈNE CHARTON DEMEUR [53]

Heroína da cena, que entre as flores Que a senda esmaltam da carreira d’arte Em que orgulhosa pisas, ostentando A fronte além das sombras que forcejam Debalde por calcar teu nome e glória,

Colhes coroas mil com que te adornas Benévola me escuta. Eu sou bem fraco, Mas poeta me creio, se o teu nome Na lira acordo que meu peito exalta. Que val o templo, se lhe falta o nume? Não nos fujas daqui, Charton divina! Deserto fica o majestoso alcáçar Que Verdi exalta com florões de glória! Deserta a cena onde pisaste, ornando A fronte altiva de lauréis, de flores, Em face a um povo que aplaudindo o gênio Com palmas estrondosas, te há mostrado Quanto estima o talento, quanto te ama! Deserto o nosso espírito de gozos, Suaves sensações que o ser enleva; Da tua bela voz ermo de influxos, Repercutindo apenas dentro d'alma Os ecos do teu canto sonoroso, A cada som pungindo uma saudade! Oh sol que o céu das artes iluminas, É cedo o ocaso teu na nossa terra! Um dia mais, um dia mais de enlevos: Fica, Charton — contigo a luz gozamos; Sem ti — sombria treva a cena envolve!

Anjo de Melodias, quem soubera Imitar de teu peito — harpa celeste O meigo som, para louvar num hino, 'Teu canto que tu mesma hás já louvado! Quem me dera, Charton, sentir na mente De Alfredo de Musset o gênio em chamas De imenso ardor, para com voz altiva Levantar-te um padrão, mais duradouro Que o mármor ou que o bronze, que lembrasse Junto do nome teu meu nome obscuro! Mas não posso obter do austero fado Glória maior que admirar-te o gênio Num pobre canto, que o teu canto inspira! Musa gentil dos versos que ora teço, Quando longe de nós, lá noutro palco, Traduzindo as de Verdi obras sublimes, Outros mortais que anelam ver teu rosto E ouvir teu canto cheio de harmonias, Com meiga e doce voz extasiares, Recorda o canto meu, — recorda o vate Que mais que todos te admira o canto, Talento e garbo que ostentas na cena! ............................................................ Não mais minh’arpa! — Inda uma vez te peço, Não nos fujas daqui, Charton divina! Inda uma vez de teu talento o brilho Esparge sobre nós, que eu te asseguro Não nos falece o santo entusiasmo Com que já te acolhemos! Grande eterno, Refulge o nume no altar da glória. Grande é Stoltz, mas Stoltzs há muitas;

Charton só uma, que no mundo impera!

O MEU VIVER [54]

Chama-se a vida a um martírio certo Em que a alma vive se morrer não pode, É crer que há vida p'ra o arbusto seco, Que as folhas todas para o chão sacode.

Dizer que eu vivo... e minha mãe perdi, Minha alma geme e o coração de amores, É crer que um filho, sem a mãe... sozinho, Também existe, com pungentes dores.

Dizer que vivo, se ausente existo Da amante terna, tão formosa e pura, E crer que triste desgraçado preso Vive também lá na masmorra escura.

Quero despir-me desta vida má, Quero ir viver com minha mãe nos céus, Quero ir cantar os meus amores todos, Quero depois em ti pensar, meu Deus!

DORMIR NO CAMPO [55]

Ao terno suspirar do arroio brando, Quanto é belo o repouso em campo ameno! Em noite de verão, que a brisa geme, Em noite em que o luar brilha sereno!

Acorda-se alta noite: no silêncio Envolta jaz a terra adormecida; Verseja-se um minuto, à noite, à lua, E torna-se a dormir... Que bela vida!

Se se ouve o piar d’ave noturna Solta-se a ela mesma um doce canto, Lança-se extremo olhar da lua ao brilho Estorna-se a dormir sob seu manto.

Não há vida melhor por certo; eu juro Não a trocar por outra ainda que bela; Não há nada no mundo mais sublime Que um homem contemplar a sua estrela.

É belo o despertar, abre-se os olhos Suavemente as pálpebras se erguendo Dir-se-ia a serena e branda aurora. Que vai rubra madeixa desprendendo.

Senta-se abrindo os olhos, bocejando. Lançando à banda a destra agarra a lira,

Preludia-se um canto, um canto d’alma E o terno coração terno suspira.

Erguendo-se sacode a véstia, as calças, Compõe-se o vestuário com asseio, E cuidadoso segurando a lira, Vai-se dar pelo campo almo passeio.

Procura-se depois uma serrana E se tece uma endeixa após um beijo (Que é de beijos que o vale se sustenta) Embora à face ardente assome o pejo.

Não há vida melhor, por certo, eu juro Não a troco por outra, ainda que bela; Não há nada no mundo mais sublime Que amar-se alguma rústica donzela!

CONSUMMATUM EST! [56]

Povos, curvai-vos A redenção do mundo consumou-se.

JOÃO DE LEMOS

I

Na treva sombria de sacra tristeza, Gemendo se envolvem a terra e os céus, E a alma do crente num cântico acesa, Revolve na idéia, suplício de um Deus.

Recorda a cidade que outrora folgando Sorria descrente de um Deus à paixão, E hoje proscrita lá dorme escutando Do Eterno a palavra que diz: “Maldição!”

De Cristo os martírios, a dor tão intensa De santa humildade, são provas fiéis, E as gotas de sangue, as bases da crença, Da crença que fala nos povos, nos reis!

Entremos no Templo, e um cântico d’alma Em ondas de incenso mandemos aos céus, E ao mestre divino, de mártir com a palma, Curvados oremos num cântico a Deus!

II

Senhor! entre apupadas dos algozes Foste levado ao cimo do Calvário

Para a morte sofrer! De Deus ouviste as tão sagradas vozes, Cheio de sangue envolto em um sudário

Tu quiseste morrer!

Quiseste, porque assim se revogava Da pena eterna a tão fatal sentença

Que o pecado traçou! E o sangue que teu corpo derramava Era alto preço e animava a crença,

Que o pecado abismou!

E caminhaste ao Gólgota, levando A cruz onde por nós foste cravado:

Cruenta imolação! O sangue teu em jorros borbotando, E teu corpo de açoites tão chagado,

Sem dó, sem compaixão!

Oh! Cristo! e tu sofreste tais injúrias! Foste arrastado ao cimo do Calvário,

Morto a plebe te quis! Não quiseste embargar o ardor das fúrias; Tu, cuja voz a Lúcifer tartáreo

Curva a negra cerviz!

“Perdoai-lhes, Senhor!” disseste, quando Quase a expirar os olhos levantaste

Ao céu anuviado, E já da morte gélido arquejando, Com fraca e triste voz pronunciaste:

Tudo está consumado!

E o mundo remiu-se! De Deus à morada, Gozando outra vida, se eleva Jesus!... Cristãos! penetremos a casa sagrada, E a Cristo adoremos em torno da cruz!

SAUDADES [57]

Chora meu coração, minh’alma geme De saudades de ti, minha querida; Já não posso no mundo ter prazer, Já meu coração não tem mais vida.

Tenho de ti saudade, só lastimo Ter cedo minha mãe perdido a vida; Choro tanto por ela... por ti sofro Minha vida, mulher, é tão sentida!

Tenho de ti saudades, da tua imagem; Qual o exilado só, em terra estranha, Eu cedo morrerei, pressinto n’alma; Não se pode viver com dor tamanha.

Parece que no céu bem negra nuvem já marcou meu destino pelo mundo! Tenho de ti saudades, ó meu anjo. No meu peito o pesar é tão profundo!

Se perdi minha mãe sendo tão moço, Se padeço de ti tanta saudade, Não posso existir no mundo triste; Ë melhor eu morrer nesta idade!

LÁGRIMAS [58]

À memória de minha mãe

Há uma dor que não se apaga d’alma, Lágrima triste que pendente existe

Da face do infeliz: É gemido que mata e não se acalma, Que torce o coração, e se persiste,

A existência maldiz.

Essa dor eu senti quando vi morta Minha terna mãe... perdão, meu Deus.

Se quero já morrer; Esta vida de dor perder que importa? Quero com minha mãe morar nos céus,

Com os anjos viver.

Eu perdi minha mãe... era uma santa, Que tinha a minha vida neste mundo,

Minh’alma e meu amor! E foi o meu pesar, minha ânsia tanta, Que a vida quis deixar num ai profundo,

Morrer também de dor.

Só lágrimas de sangue eu sinto agora Afogaram-me os olhos, e o martírio

Emurcheceu-me a vida; Eu tenho pouca idade, mas embora, Sente apagar-se da existência o círio

Minh’alma amortecida.

Maldigo minha vida, por seu filho A minha pobre mãe chama nos céus

Quando eu rezo por ela; Choro vendo que só no mundo trilho; Quero com minha mãe viver, meu Deus,

No céu, bem junto dela!

NÃO? [59]

Vi-te: em teu rosto voluptuoso e belo O anjo formoso dos amores vi! Amor ardente num olhar, num elo Destes teus olhos divinais senti!

Vi-te: e prendeu o teu esbelto talhe

O mimo, a graça do teu corpo em flor. E esses teus lábios como a flor de um baile Que às auras murcham de festivo amor.

Vi-te: e eras minha ao meu olhar magnético E te prendias a fugir de mim! Fronte de lírios de um candor angélico Em um perfume me darás um — sim!

Um sim de envolta àquele olhar ardente Luz de teus olhos, divinal fulgor. Um sim de envolta àquele rir demente Reflexo d’alma a delirar de amor!

Um sim! E ao som do teu falar suave À minha voz extinguirei o som Onde gorjeia uma garganta de ave; Que vale ao homem da palavra o dom?

Íntima frase que só nasce d’alma Terei nos olhos p’ra dizer-t'o então E em troca dela p’ra colher a palma Do teu amor, anjo terrestre... não?

RESIGNAÇÃO [60]

Adeus! é o meu suspiro derradeiro! É a última ilusão que me embebia! Apagou-se-me o sol das esperanças E veio a noite sepulcral sombria...

Adeus..., perdoa a um doido apaixonado Uma hora de ilusão e de delírio: Era fatalidade. Após um sonho Veio a c’roa da dor e do martírio!

Se ao hálito fatal da desventura Emurcheceu a flor dos meus afetos, Se não pousaste em minha fronte ardente Amorosa uma vez teus olhos pretos;

Não te crimino, não; teu culto é livre. Viver nas ilusões é minha sina: Não fui fadado p’ra banhar meus lábios Nos raios dessa fronte peregrina!

AMANHÃ [61]

Amanhã quando a lâmpada da vida Na minha fronte se apagar, tremendo,

Ao sopro do tufão, Oh! derrama uma lágrima sincera Sobre o meu peito macilento e triste,

E reza uma oração!

Será uma saudade verdadeira, Uma flor que me arome a sepultura,

Um raio sobre o gelo... Ouvirei a canção das tuas dores, E levarei saudades bem sombrias

Deste meu pesadelo.

Lembrarei além-túmulo essas noites Misteriosas festivais e belas

Da estação dos amores! Noites formosas, para amor criadas; Que coroavam nosso amor tão puro

De ventura e de flores!

Lembrarei nosso amor... E o teu pranto Ardente como a luz de um sol do estio

Irá banhar-me a campa E as lágrimas leais que derramares, O astro beijará — que pelas noites

No oceano se estampa!

Um olhar, um olhar desses teus olhos! Eu o peço, mulher! sobre o meu túmulo

Um olhar de afeição! Assim o sol — o ardente rei do espaço Deixa um raio cair nas folhas secas

Que matizam o chão!

Um olhar, uma lágrima, uma prece,É quanto basta em única lembrança.

Teresa, ao teu cantor. Chora, reza, e contempla-me o sepulcro E na outra vida de um viver mais puro

Terás o mesmo amor,

A*** [62]

Viens, je suis dans la nuit, mais je puis voir le jour!

VICTOR HUGO

Oh! se eu pudesse respirar num beijo O teu hálito ardente e vaporoso. E na febre do amor e do delírio Sobre o teu seio estremecer de gozo! Oh! se eu pudesse nessa fronte bela A coroa depor dos meus amores, E embevecer-me como em sonho aéreo De teus olhos nos mágicos fulgores. Ai! respirara então ainda uma vida.

Oh pálida visão! Nessa flor que os sentidos embriaga

E aroma o coração!

Vem; dá-me o teu amor; careço dele como do sol a flor, Reanima a cinza de meu peito morto, Ai! dá-me o teu amor!

DEUS EM TI [63]

É quando eu sinto embriagar-me o peito

Um místico vapor, E à luz fecunda desses olhos belos Da minha alma ter vida e alento — a flor;

É quando as tranças dessa fronte loura

Prendem o meu olhar, E sinto o coração tremer ardente. Como uma flor aos zéfiros do mar;

É ao ouvir-te as místicas idéias Tão cheias de paixão, Nessa eloqüência lânguida e profunda Que fala ao coração;

É ao sentir as tuas asas brancas, Ó meu anjo de amor, Que eu reconheço a mão do rei da terra E creio no Senhor! —

ESTA NOITE [64]

Os teus beijos ardentes, Teus afagos mais veementes, Guarda, guarda-os, anjo meu; Esta noite entre mil flores, Um sonho todo de amores Nos dará de amor um céu!

VEM! [65]

Oh! laisse-moi t'aimer pour que j'aime la vie, Pour ne point au bonheur dire un dernier adieu!

ALEXANDRE DUMAS

Como ao luar da noite as flores dormem, Vem dormir sob a luz dos olhos meus! Hão de as brisas beijar-te as tranças belas E desmaiar de amor nos seios teus!

Como um círio fantástico de amores Tanta luz sobre a praia a lua entorna! Oh! deixa aos raios do luar saudoso Ornar de flores essa fronte morna!

Deixa que como um doido, um insensato Eu me embeba em teus olhos transparentes, E embalado num sonho fervoroso. Ouça-te ao peito as pulsações ardentes!

É tão doce! tão belo estar contigo! Pobre andorinha errante dos amores, Achaste um coração! na primavera Não desmaiam as aves, nem as flores.

Se a capela de noiva desfolhaste Nas noites tuas, nos delírios teus, Qu’importa? ainda nas asas dos amores Podes voar ao céu, anjo de Deus!

Inda o teu coração ardente e puro Como a fênix das cinzas pode erguer-se E ungir-se com os bálsamos celestes, E no Jordão do amor inda embeber-se!

Inda os mágicos sonhos de ventura Podem embalsamar-te as primaveras E num culto platônico e fervente Querer-te um coração e amar deveras!

Ergue-te pois! vem perfumar tua alma Com as rosas festivas dos amores, E dourar minhas crenças fugitivas Com a luz de teus olhos sedutores.

Vem! é tão doce amar nas noites belas! Vem remir-te no amor, anjo do Deus! Hão de os meus beijos aquecer-te a fronte, E as brisas desmaiar nos seios teus!

ESPERANÇA [66]

No álbum do Sr. F. G. Braga

Pobre romeiro da poente estrada, Cantei passando pelo val da vida

Ao sopro do aquilão Ouvi-te um canto. Minha voz cansada Vem modular-te a saudação sentida,

Como de irmão a irmão!

Aos sons acordes da tua harpa ardente Venho juntar uma canção saudosa Deste alaúde em flor...

A poesia é um dom onipotente; Não desmintamos a missão gloriosa, Profetas do Senhor!

Beijarei essa túnica sagrada Que sobre os ombros o Senhor te dera

Como um manto real; Irei contigo do porvir na estrada, Onde rebenta em flor a primavera

Das pontas do espinhal.

Irmão de crença! eu irei contigo Sonhar nas tendas que ao passar entrarão

Extintas gerações; Rezarei junto a ti no altar antigo, Onde muitos outr’ora ajoelharão

Em salmos e orações.

Quando o porvir em fúlgido horizonte Estende-se arraiado de venturas

E convida a esperar, Deve-se erguer de entusiasmo a fronte, Venha embora o luar das sepulturas

A esperança gelar!

O sonho em que o espírito se embala Vem do céu como angélico segredo

À fronte do cantor; Mas precoce o coração estalaÉ que Deus julgou bem erguê-lo cedo

Para um mundo melhor!

Sonhemos pois! Meu tímido alaúde Da tua harpa unirei à nota ardente

Em uma só canção Este afeto fraterno é uma virtude, Deixo-te aqui a saudação de um crente

Como de irmão a irmão.

A MISSÃO DO POETA [67]

No álbum do Sr. João Dantas de Sousa

Musa Vês, meu poeta, em torno estas colinas, Como tronos gentis da primavera? Abrem-se ali as pálidas boninas, E em volta dos cipós se enrosca a hera!É o sol-posto. — A folha, o mar, e o vento, Tudo murmura de saudade um hino. Vem sonhar neste morno isolamento. E dormir no meu seio peregrino!

Poeta

Vemos, sim! — Esta noite o luar saudoso Há de tremer nestas folhagens belas. Tão só vegeto! — O alaúde ansioso Vem enfeitar de angélicas capelas! Pousa-me a fronte em tuas mãos celestes... Mas é uma ilusão... cruel mentira! Hei de ao soar do vento nos ciprestes Erguer num canto as vibrações da lira...

Musa Sofrer, qu’importa? — Vem! Morrem as dores Da solidão nos recônditos mistérios! Nascem à bordo do sepulcro as flores, E beija o sol o pó dos cemitérios.

Poeta Eu sofro tanto! — Perenais espinhos Orlam-me a estrada.... A sepultura é perto! E nem o doce aroma dos carinhos... Meu Deus! Nem uma flor neste deserto! E quantos desta doida caravana Estorceu no areal uma agonia, Esperando debalde em noite insana Verem realizar-se uma utopia!

E como crer então? Tenho aqui morta Uma ilusão de minha primavera... O sonho é como um feto que se aborta, Um porvir que se ergueu numa quimera!

A realidade é fria. Erga-se embora A flor do coração a um céu dourado, Vem a turba maldita em negra hora, E as flores mata de um porvir sonhado!

Musa Por que descrer assim? — É dura a estrada, Mas há no termo muito amor celeste, A glória, poeta, é uma flor dourada, Que só nasce da rama do cipreste.

Poeta De um cipreste!... É bem triste esse conforto! Quem sabe? uma esperança mal cabida. Essa luz que se vaza sobre o morto Paga-lhe a dor que o sufocara em vida?

Musa Mas é tua missão,... Do pesadelo Hás de acordar radiante de alegria! Deus pôs na lira do infortúnio o selo, Mas há de dar-lhe muita glória, um dia!

É forçoso sofrer... Deus no futuro Guarda-te a c'roa de uma glória santa, Vem sonhar, este céu é calmo e puro! Vem, é tua missão!... Ergue-te e canta!

O PROGRESSO [68]

Hino da mocidade

Ao St E. Pelletan.

Eppur si muove

Ao som da tua voz a mocidade acorda, E olha ousada de face os piamos do porvir! Eia! rebenta a flor da longa estrada, à borda, E através do horizonte há uma aurora a rir.

E sempre a mesma aurora a rir de era em era. E sempre a estrada augusta a rebentar em flor! Salve, fértil, gentil, rosada primavera! Eterno resvelar do melhor ao melhor!

A mocidade ergueu-se. Um século dourado Veio ao berço gentil inocular-lhe a fé; E na orla a luzir do horizonte azulado Mostrar-lhe como um sol a verdade de pé!

A verdade! está aí fecunda, onipotente, Nossa estrela polar, e bandeira, e troféu! Sim! o mundo caminha a um pólo atraente, Di-lo a planta do vai, di-lo a estrela do céu!

Ao som da tua voz a mocidade acorda, E olha ousada de face os plainos do porvir! Eia! rebenta a flor da longa estrada à borda. E através do horizonte há uma aurora a rir!

Que tal? que nos importa essa idéia sem fundo Que estaciona e prende a humanidade ao pó? Fala mais alto, irmãos, este avançar do mundo E toda a natureza em um canto, num só!

Fala mais alto, irmãos, a ardente humanidade! Marchando a realizar uma missão moral; pregando uma lei, uma eterna verdade, Do progresso subir a mágica espiral.

Sim! romeira gentil aos séculos se enlaça! Na escala do progresso ela não se detém! Uma herança moral corre de raça a raça, Se ela desmaia aqui, vai triunfar além!

Ao som da tua voz a mocidade acorda, E olha ousada de face os plainos do porvir! Eia! rebenta a flor da longa estrada à borda. E através do horizonte há uma aurora a rir!

Eia! num canto ardente erga-se ousada fronte!

Doure esta caravana um límpido arrebol! Creiam, embora a luz a nascer do horizonte Crepúsculo sombrio e desmaiar do sol!

Creiam-no. Um astro se ergue em céu dourado e puro E nos mostra com a luz terra de promissão! Cerramos sem temor, obreiros do futuro! A verdade palpita em nosso coração!

Soa em nossa alma ardente um grito entusiasta E às barreiras do tempo uma voz diz: — Passai! Morte ao lábio sem fé que nos murmura: — Basta! Gloria a vós festival que nos exclama: — Vai!

Ao som da tua voz a mocidade acorda, E olha ousada de face os plainos do porvir! Eia! rebenta a flor da longa estrada à borda, E através do horizonte há uma aurora a rir!

À ITÁLIA [69]

Despe esses ferros de dormente escrava, Que o sol dos livres no horizonte vem! Velha cratera — o referver da lava Atento e curvo todo um século tem.

Acorda! o sono da opressão devora! Pátria de Roma — o Capitólio vê! Pálida Itália — ressuscita agora O ardor nos peitos — na esperança a fé.

A velha Europa ao teu arfar cansado Vem debruçar-se em derredor aí; E ao som valente do primeiro brado Braços e espadas acharás por ti.

Apenas bata essa esperada hora O anjo dos livres se erguerá de pé. Pálida Itália — ressuscita agora O ardor nos peitos — na esperança a fé.

O século é belo. A liberdade canta — Virentes rosas sobre os seios nus! Feto sublime de uma idéia santa Vem no horizonte por um mar de luz!

Morte ao opresso que a tremer descora E à luz nascente deste sol — não crê! Pálida Itália — ressuscita agora O ardor nos peitos — na esperança a fé.

Ontem a Grécia, como um sol caído, Toda nas águas afogará a luz; Das meias-luas o pendão temido No ilustre solo lhe esmagará a cruz.

Um brado ergueu-a. Como estava outrora, Da Europa à face levantou-se em pé. Pálida Itália — ressuscita agora O ardor nos peitos — na esperança a fé.

Página bela da grandeza antiga, Tens inda o selo de um real poder; Os rijos copos dessa espada amiga A mão do tempo não quebrou sequer.

A rubra púrpura de reinar de outrora Hoje uma toga popular não é? Pálida Itália — ressuscita agora O ardor nos peitos — na esperança a fé.

A idéia é fogo que ateado lavra. E tudo abrasa nessa ardente ação. Rompe, desprende essa fatal palavra; Outras cativas erguerás do chão.

Olha a Polônia escravizada chora: E o sol dos livres inda espera e vê. Pálida Itália — ressuscita agora — O ardor nos peitos — na esperança a fé.

Ao braço impuro de opressor ingrato, Bela cativa, não te curves, não! Da liberdade o sentimento inato E um incentivo na tremenda ação.

Não, não consintas, tu liberta outrora Sobre teu colo levantar-se um pé. Pálida Itália — ressuscita agora O ardor nos peitos — na esperança a fé.

Levanta as tendas. Uma onda brava Quebrar-te os ferros pelo mar i vem! Velha cratera — o referver da lava Atento e curvo todo um século tem!

Acorda! O sono da opressão devora! Pátria de Roma — o Capitólio vê! Pálida Itália — ressuscita agora O ardor nos peitos — na esperança a fé.

A UM POETA [70]

O Sr. P. de Sales Guimarães e Cunha

Non é perduta Ogni speranza ancor

METASTÁSIO

Poeta, beija a poeira Destes ásperos caminhos E cinge alegre os espinhos, Heranças que o gênio tem. O alaúde é dom funesto. Quando uma fronte é fadada Pela pálpebra inspirada Debruçar-se ao pranto vem!

E o pobre gênio passando Por noite tempestuosa De uma espiral escabrosa Sobe os ásperos degraus; E o anjo dos pesadelos, As negras asas abrindo. Vai embalá-lo sorrindo Num berço de sonhos maus.

E todo um mundo criado Nas ondas da fantasia Um sopro de ventania Desfaz por noite fatal!... Os olhos sangram na sombra Um pranto desesperado, E o gênio morre abraçado Na cruz do seu ideal.

Irmão! é sangrenta a sina, Mas os louros valem tanto... Cada uma gota de pranto E uma póstuma flor. As brisas da primavera Vêm depois do inverno frio, E é sempre por céu sombrio Que nasce aurora melhor.

Fatalidade! — Qu’importa? Deus nos deu esse fadário... Mas no cimo do Calvário Há muita palma a florir, Toma o madeiro do Cristo, Beija os espinhos da fronte, E verás pelo horizonte Erguer-se o sol do porvir.

A PARTIDA [71]

Entretanto o céu se levanta sereno E pomposo corno para um dia de festa.

LACRETELLE

Vês? No horizonte se debruça a aurora Como um infante a rir;

As flores vão abrir-se: o luar se apaga; Começa a vida; douram-se os outeiros... Ai! e tu vás partir!

Partir quando este céu fulgia aos beijos

D'ignoto querubim! Manhã do coração toldou-me o ocaso! Nuvem negra por céu de madrugada,

Ou eça em seu festim!

E por que enviuvar das esperanças

A rebentar em flor? Por que rasgar uma por uma as folhas Da rosa da ventura embalsamada

Por um luar de amor!

Tu eras de meus sonhos de poeta

O beija-flor azul... Eu te quisera, se te visse embora Rotas as asas por noturno vento

Nos lodos do paul...

Eu te quisera inda a azular as pálpebras

A insônia dos festins. Dera-te em cantos um dourado busto; Do meu amor no seio dormirias

o sono dos querubins!

Eu era como o quebro ajoelhado

Ante o sol a nascer... Madona amorenada de meus cultos, Ergui-te unia ara e no calor dos joelhos

Não te dormi sequer!

E tu passaste adormentada e bela

Num berço de cristal; Meu céu se iluminou por um momento, Veio a realidade escura e fria,

Foi-se, foi-se o ideal!

Passou como um fantasma essa aventura

Criada em tanto afã. E como o cactus que à noitinha abrira Asa de ventania perfumada,

Morreu de antemanhã!

Morreu sem sol a pobre flor dourada

Dos sonhos meus e teus! Morno ideal de tanta insônia ardente Que uma noite dormira embalsamado

No infinito de Deus.

Eterno vacilar da morte à vida,

Sorte da criação! Sempre o verme onde a seiva se derrama. Onde a vida palpita e ri mais verde.

Sempre a destruição!

É uma lei... Mas a esperança resta

No feto do porvir... Talvez bem cedo o dia se levante, E a noite sacudindo o luar das tranças

Descanse e vá dormir.

Mas, tarde ou cedo que esse dia se erga

E volte a rir assim, Durma meu nome no teu seio de fogo; Não desfolhes os lírios da lembrança

Ai! lembra-te de mim!

A REDENÇÃO [72]

Ao Sr. Dr. Francisco Otaviano

I

E Deus disse ao espírito incriado: Desce na asa do vento; Por entranhas humanas — encarnado Dormirás um momento.

Lá te espera nos limbos palpitantes De dura escravidão — a humanidade, Prega a essas nações agonizantes

O dogma da igualdade!

Leva a casta virtude foragida Entre virentes palmas; E vai mostrá-la à multidão perdida Como o pudor das almas.

Vai, meu Cristo — a missão é escabrosa; Só terás dessas turbas em carinhos Uma cruz — uma vida dolorosa

E uma c'roa de espinhos.

E descera o espírito incriado Sobre a asa do vento, E em seio virgem de mulher — fechado Foi dormir um momento.

II

Era o sonho dos profetas Que se encarnara em Jesus; Daquelas eras provetas A cara e esperada luz. Profeta, da liberdade, Cireneu da humanidade. Que vinha tomar-lhe a cruz!

A humanidade o esperava

Nos sonhos de redenção; Ele vinha erguer a lava De um velho morno vulcão. Missão de ventura e graça Que fecundava uma raça De que ele era novo Adão!

Era o Íris da bonança No meio dos temporais A verbena da esperança Entre desânimo e ais. Um sol vigoroso e ufano Rasgando ao gênero humano Um horizonte de paz.

Não teve Moisés augusto Mais auréola de luz Nem um brado mais robusto A voz do poeta Ilus Tu foste — Belém proveta

— Berço de um maior profeta Sacrificado na cruz!

Batera a hora na ampulheta eterna, E esse fato de um Deus que se agitava No seio da fecunda humanidade Surgira à luz. A natureza toda Estremeceu e se arraiou mais bela! Mas linda a flor dos campos nessa noite O seio abrira. — No seu leito o homem Nessa noite sentiu mais puros sonhos Por sua mente revoar... E as almas Que esta terra de abrolhos — maculará Sentirão todas — um chuveiro de ouro

Vazar nas trevas de enlodados limbos! E depois - no horizonte azul-escuro Clara estrela raiou — estranha aos homens Reis, a pé! — Ide além a um berço humilde Depor as c'roas... é um rei mais sábio Que nasceu na humildade e na inocência! Viajor — que vingas a colina alpestre Às frias virações da meia-noite, Pára! — Uma aurora súbito se entorna Por este céu — e aquela estrela branca Que vês correndo no horizonte oposto É a coluna de fogo do deserto Que outrora o povo de Israel guiara! É o astro polar que a humanidade Há de levar à prometida terra, Para que ela marche na impulsão dos séculos. Foi assim que o profeta dos profetas, O circunciso, apresentou-se aos homens! Nem Roma em seus delírios de triunfo O nascimento lhe obstava... Aos ombros Trazia a toga das virtudes castas; E o ideal da igualdade sobre a fronte

Era a divina, grandiosa auréola De que vinha cingir a humanidade! Que deu a terra ao salvador dos povos? Uma cruz... uma vida dolorosa, Uma c'roa de espinhos!

III

Dormes, Jerusalém? Morno ossuário Deitado à sombra de fatais lembranças

Num leito secular, Não sentes que no altar do teu calvário O gérmen de verbenas e esperanças

Começa a rebentar?

Essa lenda de pranto e de amargura, Esse drama da cruz e do calvário

Escárnio e a aflição: Esses delírios de uma treva escura, Esse fel e vinagre e esse sudário:

Foi tudo a redenção!

A redenção... A turba delirante Nem pressentiu essa missão divina

Do filho do Senhor... E selou num delírio agonizante Aquela fronte casta e peregrina Com o sinete da dor!

Deu-lhe a palma e coroa de realeza, Sentou-se sobre um marco de granito

E a zombar o saudou! E o Cristo, essa divina singeleza, Nem um olhar lançara, nem um grito

Arquejante soltou.

Ide, marchai sangrenta caravana! Cireneu, vem agora e dá teu braço

Pra ajudar a cruz. Cantai, cantai por essa orgia humana! A terra treme e se enegreja o espaço,

E o sol desmaia a luz!

Essa cruz, esse poste de suplício, Em que o cordeiro pálido imolaste

Nas raivas infernais, Se erguerá como o sol do sacrifício; Brotarão dos espinhos que entrançaste

Perpétuas festivais!

Dia mais belo vazará do oriente, E a noite de verão mais vaporosa

Nos vales dormirá... Nas asas de planeta onipotente Uma luz mais suave e mais formosa

Aos povos descerá...

Sim! é fecundo o sangue do calvário! Se o Cristo agonizou daquelas dores

Muita palma nasceu! Daquela cruz e pálido sudário Um éden de perfume e de flores

Teremos por troféu!

Assim fechou-se a redenção dos povos! Do drama do calvário - a humanidade Uma c’roa viril teve em herança Mais bela do que as cívicas coroas

De Roma — a triunfante: A c'roa da igualdade!

Esperai! se essa palma de triunfo Começa ainda a rebentar do Gólgota, Não estão longe os tempos — em que a fronte Há de ovante cingi-la à humanidade! Assim o passo derradeiro e firme A Canaã da paz será transposto; Assim a cruz triunfará eterna, Assim se fecha a redenção dos povos!

S. HELENA [73]

Ao Sr. Remígio de Sena Pereira

Cairão Ajax e suas frotas!

HOMERO — Odisséia

Sobre a escarpada rocha — levantada Na vaga — como um túmulo marinho,

Sob eterno luar, César — desce como águia derrubada! No seio agora desse estéril ninho

É força repousar!

Dorme, crânio viril, dorme um momento! Tens ali um sepulcro de granito

Eça de Briareu! Como caído sol — teu pensamento Vague agora — no mar desse infinito

Em meio de água o céu!

As eras de ventura lá passaram Como frotas no mar. Impetuoso

Soprara o furacão! As mornas tradições é que ficaram, Que aquele mesmo gênio belicoso

Não voltará mais, não!

Já não ressoam os clarins da guerra! E os bravos desse Homero das batalhas Descansam a dormir!

Essa cruzada que assombrara a terra Sob as ruínas de pálidas muralhas E a força cair!

Caiu! Assim o quis o destino infausto, Que a estrela de seus largos horizontes

Nos limbos despenhou! Caiu! mas em homérico holocausto! Sol moribundo erguido em mar de frontes

Um dia descambou!

Dorme agora — na rocha levantada, César, sobre esse túmulo marinho

É força repousar!És agora como águia derrubada! Resta-te um derradeiro e estéril ninho

E um eterno luar!

Foi esta, Bonaparte, a nênia augusta Com que saudou-te a humanidade a queda! Descaída a realeza das batalhas Tinha como um apoio derradeiro Um alpestre rochedo. Em torno o oceano Era como que a firme — sentinela De um oceano subjugado agora! Folga, Albion! A espada onipotente Desse rei dos combates e das tendas Não vergaste, quebrou! A tua glória Era preciso que ao condor hercúleo Um vento bravo despenhasse as asas!

Agora, Bonaparte, eis-te sentado Sobre a escarpada rocha Que ao corcel dos combates sucedeu! Essa fronte que o gênio das conquistas Afogou num abismo das batalhas Tem agora por troa derradeira Uma nuvem de pálidas lembranças! Tudo, tudo passou! os dias belos

Os dias de Marengo De Arcole, de Montmirail e de Austerlitz, Lá vão! passaram como as folhas secas Sacudidas do vento das florestas!

Passaram! resta o sudário Do pesado esquecimento! Resta o pálido ossário De todo um mundo portento.

As cruzadas peregrinas Moderno César não vens? Por palmas capitolinas Capelas de goivos tens?

Como Lázaro, acordaste A humanidade dormente; Que um povo de reis, fecha

Sob a mão onipotente.

E tu, que no berço ungiste A infante revolução, E toda a submergiste Em um mais puro Jordão;

Que herdaste? um bronco rochedo Onde a vaga geme a medo Ouvindo — Napoleão!

NUNCA MAIS [74]

Quand je t'aimais, pour toí j'aurais donné ma vie Mais c'est toi, de t'aimer, toi qui m'ôtas l'envie.

ALFRED DE MUSSET

Nunca mais! O sol de outrora Treva súbita apagou; Já o fogo não devora Onde a geada passou.

Esse passado morreu, Que eu julgara então eterno, E agora esqueci o inferno Para lembrar-me do céu...

Não! dessa alma prostituta Nem mais quero uma afeição! Caíste — venci na luta, Sem perder o coração.

Sangra os olhos no chorar, Nova Agar — no teu deserto, Que eu agora, audaz liberto, Nem sei, nem te posso amar!

Caíste! não te detesto; Não te cabe o ódio a ti. Seria o pulsar de um resto Desse afeto que eu perdi.

Sobre esse altar que te dei Noutras eras peregrinas, Como em leito de ruínas Novo Mário — me assenti!

Ficou-me a alma viúva De muita ilusão gentil; Como exposta ao vento e à chuva Flor que deu sobre de abril.

Mas a fria e curva flor Já não treme assim pendida; Ergue-a mais ardente vida Por madrugada melhor!

Tu, caminha — vai jornada Da vaidade e perdição; E batiza a alma danada Em lutulento Jordão.

Um dia sem luz nem voz Vergarás no teu caminho E verás, ave sem ninho, Como punge espinho atroz.

A CH. F., FILHO DE UM PROSCRITO [75]

II est beau. Dans son front où la grâce rayonne, II porte tout un monde embaumé, pur et gai. La nature y étale une fraîche couronne; C'est la molle beauté des blanches fleurs de mai.

Au matin de son jour il ouvre sa paupière, Où se berce en dormant son délicat esprit, Aux baisers de l'amour, aux regards de sa mère, À tout ce qui lui parle et lui chante et lui rit.

Un charmant avenir l'attend, là-bas, peut-être, Au couchant de ce siècle oú tout parle et combat, Qui sait? Dans le moment où l'enfant vient de naître L'oppression pâlit — l'ostracisme s'en va...

Eh bien! fils de proscrit — est un coeur plein de flammes Qui te parle penché dans ton ciel adorant: Tu seras un croisé dons le combat des âmes; C'est moi qui le prédis — moi, tête de vingt ans!

OFÉLIA [76]

A J...

Meu destino é um rio do deserto

A murmurar-me aos pés; Veia nascida em urna noite amarga, As bordas são de areia, a onda é larga

E loucas as marés.

Tem as águas azuis, — mas são profundas

Naquele murmurar, Correm aqui como a falar segredos Sobre leito de lodo e de rochedos

A um ignoto mar!

Pálidas flores que uma vaga incerta

Ali suspensas traz Vicejam aos borrifos, do meu pranto. Oh! essas flores que te prendem tanto

Deixa-as, Ofélia, em paz!

Não te curves à borda dessas águas

De superfície anil,Ébria de amores, — do teu sonho casto Não acharás ali o mundo vasto

Nem o rosado abril.

Deixa essas flores; uma onda as leva

Onde? Nem mesmo eu sei! Deixa-as correr, — festões de meu destino; Passa cantando, meu amor, teu hino,

A que eu te abençoarei.

Atado à pedra que me leva, um dia

A queda suspendi. Vi-te à margem das águas debruçada A paixão dos meus sonhos, — tão sonhada

Vi-a, encontrei-a em ti.

Maga estrela pendente do horizonte

E curva sobre o mar Vieste à noite conversar comigo; Mas a aurora chegou — ao leito antigo

Vai, é mister voltar.

Deixa-me, não te curves sobre as flores

Deste leito de azul; Molhastes os teus vestidos, foge embora! Não te despenhes, — vem o mar agora

Encapelado ao sul.

Enxuga agora ao sol as tuas roupas

E deixa-me seguir; Não sei qual a torrente que me espera; Vai, não prendas a tua primavera,

Onde é fundo o porvir!

A ESTRELA DA TARDE [77]

A estrela da tarde sorri desmaiada No azul embalada de um fogo vital: Que luz vaporosa nos belos palores! Que facho de amores! que flor de cristal!

Murmura nas praias a vaga indolente Um véu transparente se estende no ar; Os silfos se fecham no seio das rosas E as brisas saudosas murmuram: — amar!

Estrela do ocaso, é a hora. Bem-vinda!

Que aurora tão linda, tão doce que tens! A terra desmaia nos braços do gozo, E um doce repouso lhe entorna mil bens!

Bem-vinda! aos amores que mágico ensejo! Desperta o cortejo dos astros do céu. Estrela das sombras, etéreo portento, Nas asas do vento — desdobra o teu véu.

Vem, que eu te saúdo dormente do acaso; Esplêndido vaso de um novo fulgor, Às almas que o fogo da terra queimara Tu és como a ara de crenças e amor.

Meu lábio secou-se no sol do deserto, Nem fonte aí perto! cruenta aflição! Passei tateando nas sombras da vida Como ave caída nos lodos do chão!

A taça dourada do amor e ventura Achei-a bem pura — mas não a bebi, Do éden da vida rocei pelas portas: As mãos eram mortas; ninguém veio ali,

Passei; fui sozinho no longo da estrada; A noite pesada descia sem luz, Segui tropeçando num frio sudário; Agora um calvário, mais tarde uma cruz!

Estrela! cansado das lutas, vencido, Dos sonhos descrido, ressurjo, aqui estou! O manto da vida cai-me aos pedaços Recose-me aos braços que o frio engelou.

São crenças que eu peço de um gozo celeste; No tronco ao cipreste — rebentos de flor; Aos prantos que choro mais rir de doçura, Mais pão de ventura, mais sonhos de amor!

Estrela! — é a hora do gozo — desperta! Uma alma deserta palpita de amar, Vem, loura do ocaso, falar-me em segredo, Não fujas, é cedo; não caias no mar.

A UM PROSCRITO [78]

É um canto de irmão. Crispam meus lábios Entusiasmado, convulsões cruéis! Toma esta lira; consagrei-a aos bravos; Não na mancharam saturnais de escravos,

As opressões dos reis.

Uma idéia vital pulsa-lhe as cordas; Elas palpitam na ovação de heróis! Minha musa tem fé, arde-lhe inata;

A mão que antes selará insensata Não beijará depois.

Má espera! essas nuvens de tormenta Vai rasgar o clarão de um novo sol! A hora bateu às velhas monarquias; Da nova geração, dos novos dias,

Já se tinge o arrebol...

Os reis tiritarão entre os sudários Quando essa aurora em novo céu fulgir; A idéia pousará nos santuários; E os povos se erguerão sobre os calvários

Aos cantos do porvir.

Eu te saúdo, espírito sem peias, Que não gostaram cortesãos festins! Proscrito errante que sustaste o pranto, E sentiste e velaste o fogo santo

Que velaram Franklins.

Eu te saúdo, coração fervente, No apostolado da missão do céu; Que sentes no teu horto — atroz miséria! Despedaçar-te artéria por artéria

O corvo de Prometeu!

Dez anos! Longe o lar de teus afetos! Dez anos de cruenta proscrição! O horizonte da pátria vai fechado; A teus pés que infortúnio de exilado

Rebentam desse chão!

Longe! bem longe a opressão lançou-te... Miséria, nem coragem de lutar! Um dia despertaste enfim proscrito; Como o viajor da lenda ergueu-te um grito:

— Caminhar! caminhar!

Foste vencido... era forçoso aos tronos! Mas caindo, caíste vencedor, Mais alto do que então inda te erguias; Glória a ti nessas rudes agonias,

Vergonha ao opressor!

Glória a ti, cujos lábios não cuspiram Da alma guardaste as roupas de vestal! Vergonha ao opressor, corvo sedento, Que rasga sem piedade de um lamento

A águia nacional!

Glória a ti, cujos lábios não cuspiram Da liberdade no lustral Jordão A água desse batismo é-nos sagrada; Vergonha ao que na fronte batizada

Selou de proscrição!

SONHOS [79]

Oh! si elle m'eût aimé!

A. DE VIGNY

Se ela soubesse por que tremo às vezes Como um junco nas bordas de um regato; E àquele olhar de uma volúpia ardente Fecho os meus pobres olhos de insensato.

Se ela soubesse por que a mão convulsa Sinto ao pousar em um adeus a sua; E por que um riso de amargura e tédio Pousa-me no calor da face nua;

Quem sabe se piedosa, no silêncio, Em oração, à noite, me alembrara; E por mim em meu êxtase querido Uma furtiva lágrima soltara!

Quem sabe, se amorosa, pensativa, Amadornada em lânguidos desejos, Viria compulsar-me o livro d'alma E minha fronte batizar de beijos...

E saberia então que de soluços Os lábios me entreabrem de paixão! Que de prantos resvalam de meus olhos, Com o orvalho de minha solidão!

Veria que este fogo de meus versos É a febre de amor de meus suspiros, Onde me vai a flor da mocidade Como flor que enlanguece nos retiros.

Mas... são sonhos, meu Deus! estes tormentos Irão comigo resvalar na cova; E serão o crisol de meu espírito Quando passar a uma existência nova.

Sonhos de insensatez! delírio apenas! Cresceu em alta rocha a flor querida; Verme rasteiro tateando os ermos Não beberei naquele seio — a vida!

Passarei como sombra ante os seus olhos. Frios, sem eco — soarão meus cantos; E aqueles olhos que eu amei, calado Não me hão de as cinzas orvalhar com prantos!

E nos silêncios de uma noite límpida Sobre a campa que me há de enfim cobrir. Da flor daqueles lábios — uma reza Como um perfume não virá cair!

Devanear eterno! o amor de louco Hei-de fechá-lo na mudez do peito... Vem tu, apenas, lânguida saudade, Noiva dos ermos — partilhar meu leito!

UM NOME [80]

No álbum da Exma. Sra. D. Luísa Amat

Dormi ébrio no seio do infinito Ao fogo da ilusão que me consome; A lira tateei na treva... embalde! Nem uma palma coroou meu nome!

Os meus cantos morrerão no deserto, Quebrou-me as notas um noturno vento, E o nome que eu quisera erguer tão alto No abismo há de cair do esquecimento.

Sou bem moço, e talvez uma esperança Pudesse ainda me despir do lodo; E ao sol ardente de um porvir de glórias Engrandecer, purificar-me todo.

Talvez, mas esta sede era tamanha! E agora o desespero entrou-me n'alma; A brisa de verão queimou-me passando A jovem rama da nascente palma!

E esse nome, esse nome que eu quisera Erguer como um troféu, tornou-se em cruz; Não cabe aqui, senhora, em vosso livro. Pobre como é de glórias e de luz.

Mas se não tem as palmas que esperava. Filho da sombra, em jogo de ilusões. Vossa bondade, a unção das almas puras, Há de dar-lhe a palavra dos perdões!

TRAVESSA [81]

Ai; por Deus, por vida minha Como és travessa e louquinha! Gosto de ti — gosto tanto Dessa tua travessura Que não me dera o meu encanto, Que não dera o meu gostar, Nem por estrelas do céu. Nem por pérolas ao mar! Alma toda de quimeras Que acordou no paraíso

Vinda do leito de Deus; E que rivais de teus olhos Só tens dois olhos — os teus! Pareces mesmo criança Que só vive e se alimenta De luz, amor e esperança. Ave sem medo à tormenta Que salta e palpita e ri, As travessas primaveras Assentam tão bem em ti! Assentam sim, como as asas Assentam no beija-flor, Como o delírio dos beijos

Em uma noite de amor; Como no véu que se agita De beleza adormecida A brisa mole e sentida!

Foi por ver-te assim — travessa Que eu pus a minha esperança No imaginar de criança Dessa formosa cabeça... Foi por ver-te assim — Que os sonhos Eu sei como os tens eu sei. Puros, lindos e risonhos. Um coração novo e calmo Onde a lei do amor — é lei; Foi por ver-te assim, que eu venho Pôr em ti as fantasias De meus peregrinos dias. Como a esperança no céu: Em ti só, que és tão louquinha, Em ti só pôr a minha vida!

A D. GABRIELA DA CUNHA [82]

Pára! Colhe essas asas um instante; Olha que senda decorrendo vens! Pára! é o marco final do caminhante, E mais espaços a vencer não tens!

Lembra as visões e os sonhos do passado... Vão longe, longe — quando, artista em flor. Nem tinhas o caminho calculado, Que mais tarde devias de transpor.

Contaste acaso em tua mente outrora Tantas coroas futuras e troféus? Sonhaste uma vez erguer-te agora Alto, tão alto, pela mão de Deus?

Não pudeste medir todo este espaço, Nem pudeste pensar que um dia, aqui Viria o povo, em um festivo abraço

Sagrar-te os louros triunfais, a TI.

Foi surpresa do gênio — e do destino Que a tua senda de futuro abriu, E que uma folha de laurel divino Em tua fronte pálida cingiu.

Talvez de artista no teu largo manto, Como gotas de sangue em níveo chão. Noite de espinhos orvalhou com pranto E mareou de dor muita ovação.

Faz uma flor de cada espinho acerbo, Tira de cada treva um arrebol; Para fazê-la — abre os teus lábios, VERBO! Para tirá-la — abre os seus raios, SOL!

MEUS VERSOS [83]

Quando nas noites de luar de outono Pendem as flores que a manhã crestara

E a chuva desbotou, Que mão piedosa ergueu-as do abandono... E cuidadosa no seio as orvalhara?

Que sorrindo as beijou?

Elas morrem ali tristes, sozinhas, E se desfolham no correr do rio...

Deus sabe onde elas vão! Assim morrem ao sol as andorinhas, Assim o inseto se desmaia ao frio,

E assim meus versos são!

Pobres canções que eu entoara a custo, E modulei nas harpas dos amores

Que ornara um querubim. Foram as vibrações de um sonho augusto; Da minha fronte as suspiradas flores

Não mas dera o jardim.

E contudo eu ainda as esperava, Como à porta do Céu a mãe cuidosa

Um filho que há de vir. E o jardim não mas dera; eu mal cuidava Que vinha no embrião da flor mimosa

Um áspide dormir.

Acordei! Esqueci-me dessas flores E vou cantando sem sonhar venturas

Já sem ilusão. Deixo aqui minha lenda dos amores Urna singela de esperanças puras,

E muita aspiração.

A MME. DE LA GRANGE [84]

Quando em teus lábios a harmonia corre, Como os verbos das almas e do amor, Um mundo de douradas fantasias Ao coração dormente se abre em flor.

Solto dos elos da matéria — o espírito Num céu que de harmonia se perfuma Adormece nas harpas do teu peito E as tuas notas bebe urna por uma.

Missão divina! Traduzir na terra As linguagens do céu! Vibrar cantando Do sentimento as palpitantes fibras! E o pranto às almas rebentar chorando!

Talhou-te larga a púrpura do gênio A mão severa e pura dos destinos, Imprimiu-te na voz a harpa de um século E a alma te encarnou em sons divinos!

Depois — na ara da pura melodia Desceste em uma noite embalsamada; Segue na rota da missão divina, Canta, murmura, lânguida, inspirada!

Abre os vôos, parte agora! Vai, cantora, ao teu destino: Destas últimas vitórias Vês? As glórias aqui pus. Cinge a c’roa e torna arminhos Os espinhos que colheste; Que os teus hinos são melhores; Fazem flores de uma cruz!

SOUVENIRS D'EXIL [85]

(tradução de poema de CHARLES RIBEYROLLES)

Flor a abrir entre nós, surge agora um infante; Fronte loura a sorrir em nossa proscrição, Os numes vêm cercá-lo em seu berço galante, E para erguê-lo ao céu todos lhe abrem a mão.

Mas ele que será? Calvinista ou romano? Ou turco, ou querubim de Lutero, ou judeu? E que santo do céu a este lírio humano, Ao costume fiel, dará o nome seu?

É o beijo das mães, entre nós... o batismo, Esse amoroso olhar que nos embala então! Nós não temos por dogma a fé do barbarismo

E nem numes fatais de sangue e de opressão.

Batizamo-lo em ti, ó liberdade santa, Alma dos bravos desce — eis um berço infantil. O teu signo de luz, tua altivez lhe implanta, Os velhos bendirão a tua mão viril!

Espírito de luz — eia, marchar — avante! Nossos ossos em pó reflorirão por dom! Mas conservai a fé, e o futuro radiante, Lutar é um dever — lembra-te, Charles Frond!

A S. M. I. [86]

César! Fulge mais luz nas saudações do povo, Há nos hinos plebeus — mais alma nacional Quando a mão do Senhor ergue, dum germe novo, A virtude e o saber em fronte imperial.

Aqui, se o vê curvado ao sol da majestade, Não é que o ceguem mais os velhos ouropéis; É que fulge a realeza em céu de liberdade E abraça a liberdade — a tradição dos reis.

Tu, que voltas do mar aos cânticos do Norte, Tu que vens embalado aos hinos do país, Podes e deves crer no público transporte Como dias de luz que o povo te prediz;

A ti, que tens por norma a história do passado, Como através do tempo — a inspiração de Deus, E que sabes de fé que um Cáucaso elevado Nem sempre é neste mundo o fim dos Prometeus.

Bem-vindo! Diz-te o povo e a frase poderosa É como que fervente e tríplice ovação. Ouve-a tu, que possuis um anjo por esposa, Por mãe a liberdade e um povo por irmão!

AO CARNAVAL DE 1860 [87]

Morreste, seriedade! Momo, o deus das zombarias, Usurpou-te, por três dias, Teu esplêndido bastão! De um exílio temporário Toma a longa e nova rota; Agora reina a chacota E o carnaval folgazão!

Diante das aras da rubra folia, Cabeça a mais séria não vale um real; Doidice, festança e alegria,

Tudo isto é fortuna que traz — carnaval.

Homem sério e bem formado, Neste dia é contrabando; Respeitado e venerando É coisa que não se diz; A razão abrindo os lábios, Onde tem berço o juízo, Vestiu um chapéu de guizo, E pôs um falso nariz!

Nem pai de família, nem velho empregado, Doutor, diplomata, caixeiro ou patrão, Ninguém, ó loucura, no dia aprazado, Não pode negar-te seu grande quinhão.

Tudo a loucura nivela, Nem há luta de inimigos: Esqueçam-se ódios antigos De algum ferrenho eleitor; Há tréguas por três dias No campo dos candidatos, Que o feijão ferve nos pratos E os guizos falem melhor.

Esqueça-se tudo, são todos convivas, Os ódios se apaguem no abraço comum: Que doce batalha! Que lutas festivas! Daqui deste campo não foge nem um!

Todas as belas amáveis Podem ter parte na festa: Sacerdotisas e Vesta, Acendei os corações! Pra sustentar a empresa Não tendes armas faceiras? É não tirar as pulseiras E conservar os balões.

Daí das janelas olhando curvadas. Sem dar um só passo na luta venceis: Ao fogo, que corre das vossas sacadas Aquiles se curvam e algemam-se reis.

Os reis, conquanto pintados, Sempre são reis por três dias; E sabem as galhardias Das vossas armas leais. Nós somos a Roma Inerte Com a invasão peregrina Que os hunos de crinolina São mais que os outros fatais.

NO ÁLBUM DA ARTISTA LUDOVINA MOUTINHO [88]

Cedo começas a buscar no espaço, Gentil romeira, a estrela do porvir; Deus que abençoa as lutas do talento Há-de ao esforço teu o espaço abrir.

Para alcançar o astro peregrino O teu talento um largo rumo tem: De tua mãe os vôos acompanha, Que onde ela foi tu chegarás também.

GABRIELA DA CUNHA [89]

Enfim! Sobre esta cena, a tua e nossa glória, Onde a musa eloqüente e severa da história Toma-te a mão, e te abre à fascinada vista O campo do futuro, ó grande e nobre artista, Vejo-te enfim! Ermo, calado e nu, Esperava a madona e a madona eras tu. Mercê do mar sereno e do lenho veloz, A mesma, a mesma sempre, eis-te enfim entre nós! Eras daqui. Que importa uma ausência? O teu nome A ausência não descora, o ouvido não consome, Da lembrança e da luz que ficaram de ti, Andasses longe, embora, ele vivia aqui. O que é o mar? Barreira inútil. A lembrança Tem asas e a transpõe. E depois a esperança De ver no mesmo céu a mesma estrela dantes Punha no ânimo a paz. Aos louros verdejantes De que ornavas a fronte outros inda juntaste. Bem-vinda sejas tu, tu que por fim voltaste No brilho e no vigor dos teus dias melhores Luzente de mais luz, c’roada de mais flores E que vens, assentando outras datas gloriosas, Dar ao palco viúvo a melhor das esposas.

ESTÂNCIAS NUPCIAIS [90]

dedicadas a D. Isabel e ao Conde d’Eu

I

Que riso este o ar encerra? Que canto? Que troféu? Que diz o céu à terra? Que diz a terra ao céu?

II

Do seio das florestas Que aroma sobe ao ar? E que oblações são estas Que a terra envia ao mar?

III

A peregrina Alteza, A rosa matinal, O sonho de pureza Da mente imperial.

IV

É noiva. A mão de esposa Ao feliz noivo dá; Era de amor ditosa Esta hora lhe abrirá.

V

Almas de luz unidas Na pura candidez O amor, — de duas vidas Uma só vida fez.

VI

E a filha predileta Do paternal amor, A doce, excelsa neta Do excelso Fundador,

VII

Aumenta a nossa glória No sólio imperial, E a fúlgida memória Da honra nacional.

EM HOMENAGEM A D. ISABEL E AO CONDE D’EU [91]

Do seio da espessura,Ó virgem do Brasil, Ergue radiante e pura A fronte juvenil.

Tece com as mãos formosas À noiva imperial De lírios e de rosas A c’roa nupcial.

Flor desta jovem terra, Em seu profundo amor, Como um penhor encerra Cândida, excelsa flor.

Vivo, fulgente emblema Das glórias do porvir,

Que o régio diadema Um dia hás de cingir;

Salve! Os destinos novos, Novos, futuros bens, Querida destes povos, Em tuas mãos os tens.

Num juramento unidas Ante o sagrado altar, As almas, como as vidas, O céu veio aliar.

É vínculo precioso Que o prende agora a si. Esposa, eis teu esposo; Alegra-te e sorri.

Abram-se à nova história As páginas leais, Onde se escreve a glória Da pátria e dos teus pais,

E a mão que não consome Memórias tão louçãs, De dois fez um só nome: Bragança e Orleans.

NO CASAMENTO DA PRINCESA ISABEL [92]

Cubram embora as últimas montanhas Nuvens de tempestade; E vergue um dia os ânimos do povo Dura calamidade;

Cobre de há muito o teu domínio estreito; Tu mesmo abriste as portas do Oriente; Rompe a luz; foge ao dia! O Deus dos justos Os soluços ouviu dos teus escravos, E os olhos te cegou para perder-te!

O povo um dia cobrirá de flores, A imagem do Brasil. A liberdade Unirá como um elo estes dois povos. A mão, que a audácia castigou de ingratos, Apertará somente a mão de amigos. E a túnica farpada do tirano, Que inda os quebrados ânimos assusta, Será, aos olhos da nação remida, A severa lição de extintos tempos!

CALA-TE, AMOR DE MÃE [93]

Cala-te, amor de mãe! Quando o inimigo Pisa da nossa terra o chão sagrado. Amor de pátria, vivido, elevado, Só tu na solidão serás comigo!

O dever é maior do que o perigo; Pede-te a pátria, cidadão honrado; Vai, meu filho, e nas lides do soldado Minha lembrança viverá contigo!

É o sétimo, o último. Minh’alma repartida, Vai toda aí, convosco repartida, E eu dou-a de olhos secos, fria e calma.

Oh! não te assuste o horror da márcia lida; Colhe no vasto campo a melhor palma; Ou morte honrada ou gloriosa vida.

TRISTEZA [94]

Ah! Pobre criança! Triste ludíbrio de funesta estrela!

SHAKESPEARE — Otelo

És triste. Que mal te oprime? Que sombrio pensamento, Como nuvem procelosa, Ponto negro no horizonte, Vem pousar, mulher formosa, Em tua formosa fronte?

És triste. E pálida. As cores, De vivas que eram outrora, Como pétalas das flores Que o tempo amareleceu, Ora vejo-as apagadas... E ao teu olhar peregrino Fecham pálpebras cansadas À luz que tinhas do céu,

A ausência de brilho e cores E essa mórbida magreza, Esse teu ar de abatida, Com que, se perdes em vida, Vens a ganhar em beleza, Que são? Remorso de um crime De certo não é? Responde, Dize, que mágoa te oprime?

Teu silêncio obstinado Tudo me explica.., já sei.. Mísero anjo infortunado, Li tu’alma e adivinhei

Guardavas ao que primeiro Tocasse a flor dos teus anos, Não esse amor passageiro, Das almas vãs, mas o amor Profundo, intenso, exclusivo, O amor que sonha e não dorme, O amor sincero, o amor vivo, Os transportes, a ternura, De um coração palpitante, Os desejos de ventura, Ambiciosa fantasia, As ânsias d’alma abundante, Em suma — a felicidade: Tal foi o sonho primeiro Da tua primeira idade.

Em vez de uma alma irmã Que a tua alma compreendesse, Que achaste? Boçal figura, Matéria, máquina, prosa, Toda cegueira e espessura, Corpo sem alma e sem vida, E a esperança radiosa Da vida que procuravas, A ternura que guardavas, Em teus chorados quinze anos. Tudo arrefeceu, criança, Ante os frios desenganos. Entre a presente agonia E o tempo em que, solta, aérea, Tua ardente fantasia A vida mágica e etérea

Evocava e embelecia, Que tempo vai! Longo espaço De solidão, de tristeza, De ternura e de cansaço. Uma quase eternidade A contar na mente acesa: Esperanças da incerteza, Certezas da realidade!

Enfim, à morte completa Da ilusão que alimentavas, Olhaste pálida e inquieta Para o futuro... e não viste Nada do que procuravas E nada do que pediste, Olhaste ainda — e confusa Viste o amor, a paz alheia, Os que logravam sentir, E tu, mísera reclusa, Da prisão em que te achaste Nem já te é dado fugir!

E agora, fria, abatida, Secas as rosas do rosto,

Olhos já sem luz, nem vida, Depois de tanta provança, Tua mente em vão procura A derradeira esperança: O frio da sepultura...

O PRIMEIRO BEIJO [95]

(G. BLEST GANA)

Lembranças daquela idade De inocência e de candor, Não turbeis a soledade Das minhas noites de dor;

Passai, passai, Lembranças do que lá vai.

Minha prima era bonita... Eu não sei por que razão Ao recordá-la, palpita Com violência o coração. Pois se ela era tão bonita, Tão gentil, tão sedutora, Que agora mesmo, inda agora, Uma como que ilusão Dentro em meu peito se agita, E até a fria razão Me diz que era bem bonita.

Como eu, a prima contava Quatorze anos, me parece; Mas minha tia afirmava Que eram só, — nem tal me esquece! Treze os que a prima contava. Fique-lhe à tia essa glória, Que em minha vivaz memória Jamais a prima envelhece, E sempre está como estava, Quando, segundo parece, Já seus quatorze anos contava.

Quantas horas, quantas horas Passei ditoso ao seu lado! Quantas passamos auroras Ambos correndo no prado, Ligeiros como essas horas! Seria amor? Não seria; Nada sei; nada sabia; Mas nesse extinto passado, De conversas sedutoras, Quando me achava a seu lado Adormeciam-me as horas.

De como lhe eu dei um beijo É curiosíssima história.

Desde esse ditoso ensejo Inda conservo a memória De como lhe eu dei um beijo. Sós, ao bosque, um dia, qual Aquele antigo casal Cuja inocência é notória, Fomos por mútuo desejo, A ali começou a história De como lhe eu dei um beijo.

Crescia formosa flor Perto de uma ribanceira; Contemplando-a com amor, Diz ela desta maneira;

— Quem me dera aquela flor! De um salto à flor me atirei; Faltou-me o chão; resvalei. Grita, atira-se ligeira Levada pelo terror, Chega ao pé da ribanceira... E eu, eu não lhe trouxe a flor.

De ventura e de alegria A coitadinha chorava; Vida minha! repetia, E em meus braços me apertava Com infantil alegria. De gelo e fogo me achei Naquele transe. E não sei Como aquilo se passava, Mas um beijo nos unia, E a coitadinha chorava De ventura e de alegria.

Depois,.. revoltoso mar É nossa pobre existência! Fui obrigado a deixar Aquela flor de inocência Sozinha à beira do mar. Ai! do mundo entre os enganos Hei vivido muitos anos, E apesar dessa experiência Costumo ainda exclamar: Ditada minha existência, Ficaste à beira do mar!

Lembranças daquela idade De inocência e de candor, Alegrai a soledade Das minhas noites de dor.

Chegai, chegai, Lembranças do que lá vai.

A. F. X. DE NOVAIS [96]

Já da terrena túnica despida, Voaste, alma gentil, à eternidade;

E, sacudindo à terra As lembranças da vida, as mágoas fundas, Foste ao sol repousar da etérea estância.

Nem lágrimas, nem preces O despojo mortal do sono acordam; Nem, reboando na mansão divina,

A voz do homem perturba O espírito imortal. Ah! se pudessem Lágrimas de homens reviver a extinta Murcha flor de teus dias: — se, rompendo O misterioso invólucro da morte, De novo entrasses no festim da vida, Alma do céu, quem sabe se não deras A taça cheia em troco do sepulcro, E agitando no espaço as asas brancas Voltarias sorrindo à eternidade?

Não te choramos pois; descansa ao menos No regaço da morte: a austera virgem Ama os que mais sofreram; tu compraste C’o a dor profunda o derradeiro sono. Choram-te as musas, sim! choram-te as musas Choram-te em vão, — que das quebradas cordas Da tua lira os sons não mais despertam;

Nem dos festivos lábios Os versos brotaram que outrora o povo No entusiasmo férvido aplaudia.

Apenas (e isso é tudo!)

Fulge c’oa luz da glória Teu nome. Os versos teus, garridas flores De imortal primavera, enquanto o vento Inúteis folhas pela terra espalha, Celeste aroma à eternidade mandam.

Tu viverás. Não morre Aquele em cujo espírito escolhido A mão de DEUS lançou a flama do estro Traz do berço o destino. Em vão, fortuna, Lhe comprimes a voz, a voz prorrompe.

Tal o rochedo inútil

Ousa deter as águas; A corrente prossegue impetuosa. O campo alaga e a terra mãe fecunda.

ONTEM, HOJE, AMANHÃ [97]

Ontem eu era criança Que brincava nos delírios, Entre murta, rosa e lírios, No meio d’etéreos círios, Nos brincos que a gente alcança; Que sonho p’ra mim, que vida

Nas ânsias tão bem traída! Que noites de tanta lida, Nos gozos em que não cansa! Hoje sou qual triste bardo Cismando na virgem bela, Nos meigos sorrisos dela; Que, porém, já se desvela Do futuro vir mui tardo!

— Pranteio na pobre lira, Qual nauta que já suspira Nas ânsias em que delira, Nas chamas em qu’eu só ardo!

Amanhã serei no mundo Perseguido em meu cansaço, Sem já ter amigo braço Que me ajude a dar um passo Neste pego sem ter fundo; Nem sequer a minh’amada Se julgando mal fadada Não virá mui namorada Me mostrar um rir jucundo!

26 DE OUTUBRO [98]

Ventos do mar, que há pouco sussurrando As vozes dele ouvíeis namorados, Ventos de terra, agora consternados, Levai a nova do óbito nefando.

Castigo foi à nossa pátria, quando Dele esperava alentos renovados, E sentia viver aos grandes brados Daquele gênio raro e venerando.

Claro e vibrante espírito, caíste, Não ao peso dos anos, mas ao peso Do teu amor à nossa pátria amada.

E ela que fica desvairada e triste, Chora lembrando o verbo teu aceso, Filho de Andrada, e portentoso Andrada.

AS NÁUFRAGAS [99]

(Duas meninas cearenses que vinham no vapor Bahia.)

“Verdes mares bravios, verdes mares Do Ceará” — que a musa de Iracema Cantou um dia, e que na hora extrema Certo entreviu nos últimos olhares,

Ó verdes mares, onde essas crianças Aprenderam brincando a andar ao largo, Rir do vosso estertor válido e amargo, E as águas bravas converter em mansas,

Cantai agora, murmurai contentes De saber que ambas, débeis e valentes, Viram a morte e não tremeram dela,

Antes, cortando as ondas insofridas, Salvaram, mais que as suas próprias vidas, Outra que nunca pôde ser mais bela.

AO DR. XAVIER DA SILVEIRA [100]

Amigo, ao ler os versos saborosos Que me mandou por vinte e um de junho, Vi ainda uma vez o testemunho, Dos seus bons sentimentos amistosos.

Há para os corações afetuosos (Isto, que escrevo por meu próprio punho, Não é força de rima, leva o cunho Dos conceitos reais e valiosos),

Há para os corações, como eu dizia,

— Um perigo, a distância: — tal perigo

— Que as mais ardentes afeições esfria.

Inda bem que esse mal, por mais antigo Que seja, não atinge, neste dia Um verdadeiro coração de amigo.

13 DE MAIO [101]

Brasileiros, pesai a longa vida Da nossa pátria, e a curta vida nossa; Se há dor que possa remorder, que possa Odiar uma campanha, ora vencida, Longe essa dor e os ódios seus extremos; Vede que aquele doloroso orvalho De sangue nesta guerra não vertemos... União, brasileiros! E entoemos

O hino do trabalho.

SONETO [102]

(Pela inauguração do Asilo de Órfãos de Campinas)

Recolhei, recolhei essas coitadas,

Tristes crianças, desbotadas flores, Que a morte despojou dos seus cultores E pendem já das hastes maltratadas.

Trocai, trocai as fomes e os horrores, Os desprezos e as ríspidas noitadas Pelos afagos dos peitos protetores, Ensinai-lhes a amar e a ser amadas.

E quando a obra que encetais agora Avultar, prosperar, subir ao cume, Tornada em sol esta ridente aurora,

Sentireis ao calor do grande lume Tanta ventura, que, se fordes tristes, Jubilareis da obra que cumpristes.

RICARDO [103]

Vive tu, meu menino, os belos anos Junto dos teus, na doce companhia Do que há de melhor em corações humanos, E faze deste dia eterno dia.

VELHO TEMA [104]

Esta ave trouxe de alguém Algum recado

Talvez diga que aí vem Um namorado. Um namorado que tem

Do peito ao lado Um coração que o sustém De apaixonado.

Se não acudir alguém Ao ansiado É, porventura, um grã bem... Por um recado Já vi morrer aquém e além, Por um recado...

POR ORA SOU PEQUENINA [105]

Por ora sou pequenina Mas, quando eu também crescer Há de vir uma menina Dizer o que vou dizer.

Vou dizer, noivos amados, Que é doce e consolador Ver assim dois namorados

Coroando o seu amor.

Casar é lei preciosa;

Casai, amigos, casai.

Beija-flor com rosa

Mamãe casou com papai,

Por isso, a viva alegria

Que enche a todos nós

É ser grande dia

Muito maior para vós.

Eis aí fica o meu recado

Adeus. Se for para bem

Que eu veja o casal casado

Crescendo, caso também.

CÉSAR! FULGE MAIS LUZ [106]

César! Fulge mais luz nas saudades do povo. Há nos hinos plebeus — mais alma nacional, Quando a mão do Senhor ergue dum germe novo A virtude e o saber em fronte imperial.

Aqui; se o vês curvado ao sol da majestade, Não é que o ceguem mais os velhos europeis; É que fulge a realeza em céu de liberdade, E abraça a liberdade — a tradição dos réis.

Tu, que voltas do mar aos cânticos do Norte, Tu, que vens embalado aos hinos do país, Podes e deves crer no público transporte, Como dias de luz que o povo te prediz;

A ti, que tens por norma a história do passado, Como através do tempo — a inspiração de Deus! E que sabes de fé que um Cáucaso elevado Nem sempre é neste mundo o fim dos Prometeus.

Bem-vindo! diz-te o povo, e a frase poderosa É como que fervente e tríplice ovação; Ouve-a tu, que possuis um anjo por esposa, Por mãe a liberdade e um povo por irmão!

1930

NÃO HÁ PENSAMENTO RARO [107]

Não há pensamento raro

Que aqui lhe diga

Melhor que o seu nome caro,

Gentil amiga.

VIVA O DIA 11 DE JUNHO [108]

Viva o dia onze de junho, Dia grande, dia rico, Batalha do Riachuelo, Dia dos anos do Tico.

VOULEZ-VOUS DU FRANÇAIS? [109]

Voulez-vous du français, ou bien de notre langue?

Uma e outra lhe dou, Francisca, e não se zangue

Car pour dire d’un beau visage et son esprit, Um nome basta — o seu — ce nom tout seu! suffit!

[1] Marmota Fluminense, 16 jan. 1855. “Das peças datadas pelo autor, esta é a de data mais remota. Até melhor aviso, estes versos devem ser considerados como primeiro trabalho literário produzido por Machado de Assis, embora a primazia de publicação caiba ao poema “Ela”, que vai transcrito a seguir.” (José Galante de Sousa)

[2] Marmota Fluminense, n.º 539, 12 jan. 1855.

[3] Marmota Fluminense, n.º 600, 15 jul. 1855.

[4] Marmota Fluminense, n.º 702, 1 abr. 1856.

[5] Marmota Fluminense, n.º 690, 4 mar. 1856.

[6] Marmota Fluminense, 12 abr. 1856.

[7] Marmota Fluminense, n.º 767, 2 set. 1856.

[8] Marmota, 8 jan. 1858.

[9] Marmota, 26 jan. 1858.

[10] Marmota, 12 jan. 1858.

[11] Marmota, 23 mar. 1858.

[12] Marmota, 24 abr. 1858.

[13] Manuscrito pertencente à Biblioteca Nacional.

[14] Correio Mercantil, 28 mar. 1859.

[15] O Binóculo, s.d. [n.º 1, 23 set. 1862.]

[16] Gazeta de Notícias, 18 abr. 1895.

[17] Correio Mercantil, 9 jan. 1860.

[18] Publicado na Biblioteca Brasileira, I Lírica Nacional. RJ, 1862, pp. 53

54.

[19] O Futuro, 1 jan. 1863.

[20] Publicado anonimamente na Semana Ilustrada, 29 mar. 1863.

[21] Publicado anonimamente, por ocasião da questão anglo-brasileira. Identificado por J. Galante de Sousa, foi incluído em Poesia e Prosa.

[22] Diário do Rio de Janeiro, 17 mai. 1865.

[23] Jornal do Comércio, 26 fev. 1870. Segundo J. Galante de Sousa, A poesia consta de cinco oitavas. Foi recitada pela atriz Ismênia no Teatro São Luiz a 23/2/1970.

[24] A Reforma, 20 mai. 1870.

[25] Leitura Popular, n.º 1, set. 1871.

[26] O Binóculo, n.º 47, 22 fev. 1879.

[27] Manuscrito pertencente ao Arquivo Nacional.

[28] A Estação, 15 jul. 1879.

[29] Gazeta de Notícias, 23 dez. 1877, em homenagem a José de Alencar.

[30] Publicado como Poliantéia Comemorativa da Inauguração das Aulas para o Sexo Feminino do Imperial Liceu de Artes e Ofícios. Rio de Janeiro, 1881.

[31] A Estação, 15 jan. 1885.

[32] Publicado em O Marquês de Pombal, 2ª parte, pp. 21-30. Lisboa, 1855.

[33] Gazeta de Notícias, 1 set. 1890.

[34] Revista da Academia Brasileira de Letras, dez. 1932.

[35] Publicado em Outras Relíquias. RJ, H. Garnier, 1910.

[36] A Semana, 14 abr. 1894.

[37] Publicado em Relíquias de Casa Velha, Rio de Janeiro: Garnier, 1906.

[38] A Ordem, jun. 1939.

[39] Publicado dentro de um artigo de Artur Azevedo, em O País., 2-101908.

[40] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1854.

[41] Marmota Fluminense, 20 mar. 1855.

[42] Marmota Fluminense, 18 mai. 1855.

[43] Marmota Fluminense, 24 jul. 1855.

[44] Marmota Fluminense, 10 ago. 1855.

[45] Marmota Fluminense, 14 ago. 1855.

[46] Marmota Fluminense, 05 out. 1855.

[47] Marmota Fluminense, 09 out. 1855.

[48] Marmota Fluminense, 21 out. 1855.

[49] Marmota Fluminense, 28 out. 1855.

[50] Marmota Fluminense, 02 nov. 1855.

[51] Marmota Fluminense, 23 nov. 1855.

[52] Marmota Fluminense, 02 dez. 1855.

[53] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1856.

[54] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1856.

[55] Marmota Fluminense, 21 fev. 1856.

[56] Marmota Fluminense, 22 mar. 1856.

[57] Marmota Fluminense, 01 mai. 1855.

[58] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1856.

[59] Marmota Fluminense, 15 set. 1857.

[60] Marmota Fluminense, 02 out. 1857.

[61] Marmota Fluminense, 22 out. 1857.

[62] Marmota Fluminense, 22 dez. 1857.

[63] Marmota Fluminense, 25 dez.. 1857.

[64] Marmota Fluminense, 16 fev. 1858.

[65] O Paraíba, Petrópolis, 11 abr. 1858.

[66] Correio Mercantil, 25 out. 1858.

[67] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1858.

[68] Correio Mercantil, 30 nov. 1858.

[69] Correio Mercantil, 10 fev. 1859.

[70] O Paraíba, Petrópolis, 17 fev. 1859.

[71] Correio Mercantil, 14 fev. 1859.

[72] Correio Mercantil, 04 mai. 1859.

[73] O Paraíba, Petrópolis, 22 mai. 1859.

[74] O Paraíba, Petrópolis, 12 jun. 1859.

[75] Correio Mercantil, 21 jul. 1859.

[76] Correio Mercantil, 21 out. 1859.

[77] O Espelho, 04 set. 1859.

[78] O Espelho, 18 set. 1859.

[79] O Espelho, 23 out. 1859.

[80] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1859.

[81] O Espelho, 18 dez. 1859.

[82] O Espelho, 25 dez. 1859.

[83] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1859.

[84] Correio Mercantil, 16 nov. 1859.

[85] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1859.

[86] Marmota Fluminense, 02 dez. 1855.

[87] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1860.

[88] A Primavera, 17 mar. 1861.

[89] O Espelho, 25 dez. 1859.

[90] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1864.

[91] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1864.

[92] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1865.

[93] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1865.

[94] Jornal das Famílias, ago. 1866.

[95] Semana Ilustrada, 19 set. 1869.

[96] Semana Ilustrada, 29 ago. 1869.

[97] A Luz, 1872.

[98] Gazeta de Notícias, 24 out. 1886.

[99] Gazeta de Notícias, 17 abr. 1887.

[100] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema,1887.

[101] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema,1888.

[102] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema,1890.

[103] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1893.

[104] Foi encontrado apenas o registro da data de divulgação do poema, 1911.

[105] Publicado no artigo “Migalhas inéditas”, de Tristão de Athayde, em Autores e Livros, 28 set. 1941.

[106] Gazeta de Notícias, 08 set. 1888. Na Bibliografia de Machado de Assis, de Galante de Sousa, este poema traz o título de “César! Fulge mais luz nas saudações do povo”.

[107] Ilustração Brasileira, jun. 1939.

[108] Jornal do Comércio, jun. 1939.

[109] Jornal do Comércio, 21 jun. 1939.


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