João da Cruz e Sousa - Broquéis - 20 - Lua





João da Cruz e Sousa - Broquéis - 20 - Lua


Clâmides frescas, de brancuras frias,

Finíssimas dalmáticas de neve

Vestem as longas arvores sombrias,

Surgindo a Lua nebulosa e leve...


Névoas e névoas frígidas ondulam...

Alagam lácteos e fulgentes rios

Que na enluarada refração tremulam

Dentre fosforescências, calafrios...


E ondulam névoas, cetinosas rendas

De virginais, de prônubas alvuras...

Vagam baladas e visões e lendas

No flórido noivado das Alturas...


E fria, fluente, frouxa claridade

Flutua como as brumas de um letargo...

E erra no espaço, em toda a imensidade,

Um sonho doente, cilicioso, amargo...


Da vastidão dos páramos serenos,

Das siderais abóbadas cerúleas

Cai a luz em antífonas, em trenos,

Em misticismos, orações e dúlias...


E entre os marfins e as pratas diluídas

Dos lânguidos clarões tristes e enfermos,

Com grinaldas de roxas margaridas

Vagam as Virgens de cismares ermos...


Cabelos torrenciais e dolorosos

Bóiam nas ondas dos etéreos gelos.

E os corpos passam níveos, luminosos,

Nas ondas do luar e dos cabelos...


Vagam sombras gentis de mortas, vagam

Em grandes procissões, em grandes alas,

Dentre as auréolas, os clarões que alagam,

Opulências de pérolas e opalas


E a Lua vai clorótica fulgindo

Nos seus alperces etereais e brancos,

A luz gelada e pálida diluindo

Das serranias pelos largos flancos...


Ó Lua das magnólias e dos lírios!

Geleira sideral entre as geleiras!

Tens a tristeza mórbida dos círios

E a lividez da chama das poncheiras!


Quando ressurges, quando brilhas e amas,

Quando de luzes a amplidão constelas,

Com os fulgores glaciais que tu derramas

Das febre e frio, dás nevrose, gelas...


A tua dor cristalizou-se outrora

Na dor profunda mais dilacerada

E das cores estranhas, ó Astro, agora,

És a suprema Dor cristalizada!...



João da CRUZ E SOUSA (1861 - 1898) foi um poeta brasileiro, considerado um dos precursores do movimento simbolista no Brasil. Seus poemas são marcados pela musicalidade e pelo sensualismo, mesclado com uma espiritualidade e religiosidade de maneira às vezes espantosa. Broquéis foi seu livro de estréia, e contém algumas de suas obras mais famosas, como o poema Antífona, peça de abertura do livro.




 João da Cruz e Sousa - Broquéis - 20 - Lua

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